2. Genética da reclamação constitucional
2.5. Natureza jurídica da reclamação constitucional
2.5.5. Reclamação constitucional como ação
2.5.5.1. Reclamação constitucional como remédio constitucional
Não é a reclamação uma simples ação. É uma ação constitucional especial.346 Possui assento constitucional, ao lado de outros remédios, como o mandado de segurança, o habeas corpus, o habeas data, o mandado de injunção. A reclamação possui todos os requisitos dos denominados writs constitucionais. É uma ação que se compõe a jurisdição constitucional das liberdades; é um remédio jurídico que busca proteger e dar efetividade a direito e garantias fundamentais.347
A visão analítica das relações entre processo e Constituição revela ao estudioso dois sentidos vetoriais em que elas se desenvolvem, a saber: a) no sentido Constituição- processo, tem-se tutela constitucional deste e dos princípios que devem regê-lo, alçados no plano constitucional; b) no sentido processo-Constituição, a chamada jurisdição
343 “É ‘ação’ [= ação em sentido processual] em que podem ser realizadas diferentes ações [= ação em sentido material]. Essa variabilidade conteudística decorre da variabilidade de seus fundamentos.” (COSTA, Eduardo
José da Fonseca. Da reclamação. Breves comentários ao novo Código de Processo Civil, cit., p. 2203).
344 DANTAS, Marcelo Navarro Ribeiro. Reclamação constitucional no direito brasileiro, cit., p. 459-461;
LEONEL, Ricardo de Barros. Reclamação Constitucional, cit., p. 171-179.
345 O STF exige o interesse de agir: Rcl 6.449/RS; Rcl nº 1.525/ES; Rcl 1.267/ES. E, de igual modo, exige legitimidade: Rcl 5.873/ES; Rcl. 6.482/SP; Rcl. 4931/CE. Também o STF exige capacidade postulatória: Rcl
9.654/SP; Rcl 7.902/SP; extinguindo reclamação por litispendência: Rcl 9.814/PI; Rcl 5.509/AP; Rcl 8.054/MG.
346 DANTAS, Marcelo Navarro Ribeiro. Reclamação constitucional no direito brasileiro, cit., p. 470.
347 Sobre direitos e garantias fundamentais, consultar: SARLET, Wolfgang Ingo. A eficácia dos direitos fundamentais. 11ª ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2012; SILVA, Virgílio Afonso da. Direitos fundamentais: conteúdo essencial, restrições e eficácia. São Paulo: Malheiros, 2014; DIMOULIS, Dimitri;
114 constitucional, voltada ao controle da constitucionalidade das leis e atos administrativos e à preservação de garantias oferecidas pela Constituição (jurisdição constitucional das liberdades).348
Num sentido, a relação entre Constituição e processo – reforçada pelo Neoconstitucionalismo – forma o Direito Constitucional Processual.349 Cuida-se da tutela constitucional do processo. Os institutos de Direito Processual são encartados na Constituição, tornam-se garantias fundamentais. Institutos tipicamente processuais são alçados a nível constitucional, de modo a conceder-lhes maior proteção e efetividade.350
Em sentido diverso, da relação entre Constituição e processo surge o Direito Processual Constitucional, formado pelos mecanismos e instrumentos processuais, cujo objetivo é proteger os preceitos constitucionais, bem como garantir-lhes maior eficácia e efetividade. É a jurisdição constitucional que busca manter íntegros os valores constitucionais. A jurisdição constitucional, portanto, é formada pelas ações que se destinam a proteger a Constituição e os direitos e garantias fundamentais.
No primeiro bloco da jurisdição constitucional, estão as ações de controle de constitucionalidade das leis. São a ação direta de controle de constitucionalidade, a arguição de descumprimento de preceito fundamental e a ação declaratória de constitucionalidade. São ações que servem à fiscalização, em abstrato, dos atos normativos, garantindo que não firam o conteúdo constitucional.351
No segundo bloco da jurisdição constitucional, estão os remédios constitucionais. É um arsenal de ações especiais (= procedimentos especiais) destinadas a assegurar certos direitos e garantias fundamentais, mediante uma tutela jurisdicional particularmente forte e diferenciada.352 São as ações que protegem as liberdades públicas, os direitos e as garantias
348 DINAMARCO, Cândido Rangel. A instrumentalidade do processo, cit., p. 26-27.
349 Sobre a relação entre Constituição e processo, consultar: TROCKER, Nicolò. Processo civile e constituzione.
Milano: Giuffrè, 1974; CAMBI, Eduardo. Neoconstitucionalismo e neoprocessualismo. 2ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011; ALVARO DE OLIVEIRA, Carlos Alberto. Do formalismo no processo civil. 3ª ed. São Paulo: Saraiva, 2009.
350 É o caso da proibição da prova ilícita, do devido processo legal, do contraditório e ampla defesa, da
inafastabilidade da jurisdição, da cláusula do juiz natural etc.
351 “Por processo constitucional vai entender-se nas considerações subsequentes o conjunto de regras e actos constitutivos de um procedimento juridicamente ordenado através do qual se fiscaliza jurisdicionalmente a conformidade constitucional dos actos normativos. Tal como o processo jurisdicional em geral, também o direito processual constitucional serve para garantir a observância e realização de um direito substantivo — o direito constitucional — através da definição de regras constitutivas de um iter procedimental adequado ao controlo e exame de questões jurídico-constitucionais.” (CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional. 6ª ed. Coimbra: Almedina, 1993. p. 1029).
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fundamentais. É o conjunto de remédios que a Constituição concede para prevalência dos direitos que ela própria alberga.
Na jurisdição constitucional, encontram-se os seguintes remédios processuais: mandado de segurança, para proteção do sujeito de direito contra abusos do Poder Público; o mandado de injunção, suprindo lacunas legislativas que impeça o pleno gozo dos direitos e garantias fundamentais; o habeas corpus, que protege a liberdade e o direito de locomoção; o habeas data, que garante o direito à informação pública e verídica.353
Na jurisdição constitucional, também se encontra a reclamação constitucional, cujo objetivo remoto é garantir a segurança jurídica e a igualdade na prestação jurisdicional. A reclamação é um remédio disposto na Constituição que serve para proteger direitos e garantias fundamentais, daí sua importância no sistema jurídico. A reclamação serve para adensar a segurança e a igualdade do jurisdicionado frente ao Poder Judiciário
É que a reclamação é atualmente cabível para (CPC/2015, art. 988): (i) preservar competência dos tribunais; (ii) garantir a autoridade das decisões dos tribunais; (iii) garantir a observância de alguns precedentes obrigatórios. Todas essas hipóteses de cabimento estão intrínseca e mediatamente ligadas à ideia de segurança354 e de igualdade.
O respeito à competência dos tribunais, na verdade, consiste em observar o juiz natural. É garantir que o julgamento seja realizado pelo órgão previamente determinado, bem como evitar modificação posterior do órgão jurisdicional.355 Garantir a competência e o juiz natural previamente, em favor de todos, é, em última análise, garantir segurança e igualdade.
Garantir a autoridade das decisões judiciais é uma condição para que o Estado exerça adequadamente a função jurisdicional, cuja principal característica é a cogência. Saber
353 “Consagração de ações tipicamente constitucionais e que dizem respeito à Jurisdição constitucional das liberdades – denominadas de Ações ou Remédios Constitucionais – exatamente, aqueles que visam tornar efetivos os Direitos individuais e Coletivos, constitucionalmente assegurados. Aqui, encontramos, como exemplos históricos, o Habeas Corpus e o Mandado de Segurança, ao lado dos quais, e especialmente no caso brasileiro, acrescentem-se os institutos do Habeas Data, Mandado de Injunção, Ação Civil Pública os quais devem levar em consideração as diferentes denominações consagradas em variados sistemas jurídicos para ações com os mesmo objetivos.” (DANTAS, Ivo. Novo processo constitucional brasileiro. Curitiba: Juruá, 2010.
p. 99-100).
354 Como dito no item 1.5, são vários os autores, em pesquisas específicas sobre o tema, que explicam a relação
entre a reclamação constitucional e a segurança jurídica: LEONEL, Ricardo de Barros. Reclamação
Constitucional, cit., p. 103-104. MINGATI, Vinícius Secafen. Reclamação (neo)constitucional: precedentes,
segurança jurídica e os juizados especiais. Brasília: Gazeta Jurídica, 2012. p. 131. CAMBI, Eduardo; MINGATI, Vinícius Secafen. Nova hipótese de cabimento da Reclamação, protagonismo judiciário e segurança jurídica.
Revista de Processo. São Paulo: Revista dos Tribunais, v. 196, jun.-2011. TAKOI, Sérgio Massaru. Reclamação Constitucional. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 194. STRATZ, Murilo. Reclamação na jurisdição constitucional.
Santa Cruz do Sul: Essere nel mondo, 2015, p. 170.
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que, após o julgamento, a decisão será eficaz e, caso desrespeitada, há um instrumento para impô-la aos que lhe sujeitem, também aumenta a segurança jurídica.
Doutro lado, saber que os tribunais tratarão igualmente os jurisdicionados e, ainda, que há um instrumento para garantir o julgamento isonômico, também contribui para a segurança e igualdade jurídicas. A reclamação – como instrumento para impor a observância de precedentes – garante maior calculabilidade e previsibilidade das decisões judiciais, bem como distribuição igualitária da justiça. Faz com que casos semelhantes sejam resolvidos de forma semelhante.
Dessa forma, se a reclamação, de cunho constitucional, garante e protege direitos e garantias fundamentais, no caso, a segurança jurídica e a igualdade perante o Poder Judiciário. Não há dúvida de que é um remédio constitucional que integra a jurisdição constitucional. É uma ação constitucional especial.
Claro que a reclamação não surgiu, desde logo, como componente da jurisdição constitucional. Até mesmo porque na época de sua gênese, que remonta à década de 1940, a jurisdição constitucional não possuía tanto relevo como nos dias atuais. Gradualmente, a reclamação foi ganhando importância no sistema jurídico e, com seu ápice, foi conduzida ao CPC/2015, revelando-se como eficaz meio de adensar direitos fundamentais.