3. Hipóteses de cabimento
3.9. O caso da súmula vinculante 10 do STF
Como dito no item 3.7.2., as súmulas constituem enunciados sintéticos, em estrutura de regra, que resumem o entendimento do tribunal e orientam os juízes. Contudo, seu afastamento dos fatos materiais que levaram ao entendimento do tribunal cria entraves a sua eficácia vinculante. Na verdade, dificulta a aplicação, é difícil identificar a ratio decidendi de uma súmula. Seu conteúdo e seu alcance são mais difíceis de conceber. Assim, a reclamação contribui bastante para delimitar o significado da súmula, mediante distinções no caso concreto.
Um bom exemplo é a súmula vinculante 10 do STF:
Viola a cláusula de reserva de plenário (CF, artigo 97) a decisão de órgão fracionário de tribunal que, embora não declare expressamente a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do Poder Público, afasta sua incidência, no todo ou em parte.
A súmula foi editada, em virtude de reiterados recursos extraordinários alegando afronta ao art. 97 da CF/1988, que institui a cláusula de reserva de plenário. Apenas um órgão especial de tribunal pode declarar a inconstitucionalidade de uma norma, por maioria absoluta de seus membros; contudo, o que acontecia, na prática, eram os órgãos ordinários dos tribunais afastarem a incidência da norma, sem declarar expressamente sua inconstitucionalidade, burlando, portanto, a cláusula de reserva de plenário.
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Daí, foi editada a súmula vinculante 10, com o intuito de coibir essa situação. Contudo, o enunciado da súmula não é suficiente para esclarecer todos os fatos que alcança, ou não. As reclamações serviram para delimitar o significado da súmula.
Na Rcl 15786, o STF decidiu que não se aplica a súmula vinculante 10, caso a norma afastada pelo órgão fracionário seja anterior à Constituição Federal de 1988. Assim, uma norma prévia à Constituição pode ser declarada inconstitucional, independente da cláusula de reserva de plenário, sendo inaplicável a súmula 10.500
Por outro lado, na Rcl 15287, o STF afirmou que a súmula vinculante 10 não se aplica em julgamentos administrativos de Tribunais. Na verdade, a cláusula de reserva de plenário pressupõe atividade jurisdicional, logo, se o Conselho da Magistratura de corte local afasta a aplicação de uma norma, não há ofensa à sumula vinculante 10.501
Igualmente, o STF – na Rcl 14889 – afirmou que não se aplica a súmula vinculante 10 aos julgamentos proferidos na primeira instância. Cuida-se de uma inaplicabilidade lógica, pois há primeira instância é tendente a decidir singularmente, impossível aplicar a cláusula de reserva de plenário.502
Também não incide a súmula vinculante 10, caso a decisão que afastar a norma seja monocrática em sede de tutela provisória. É que, nesses casos, o desembargador atua com
500 “Agravo Regimental. Reclamação. Alegado desrespeito à cláusula de reserva de plenário. Violação
da Súmula Vinculante 10. Não ocorrência. Norma pré-constitucional. Agravo regimental a que se nega provimento. I - A norma cuja incidência teria sido afastada possui natureza préconstitucional, a exigir, como se sabe, um eventual juízo negativo de recepção (por incompatibilidade com as normas constitucionais supervenientes), e não um juízo declaratório de inconstitucionalidade, para o qual se imporia, certamente, a observância da cláusula de reserva de plenário.” (Rcl 15786 Agr, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, Tribunal Pleno, j. 18/12/2013, DJe 19/2/2014).
501 “Sendo esse o contexto, passo a analisar a pretensão deduzida nesta sede reclamatória. E, ao fazê-lo, assinalo
que o exame do contexto delineado nos presentes autos leva-me a reconhecer a inexistência, na espécie, de situação caracterizadora de transgressão ao enunciado constante da Súmula Vinculante nº 10/STF. É que a alegação de desrespeito à exigência constitucional da reserva de plenário (CF, art. 97) supõe, para restar configurada, a existência de decisão emanada de autoridades ou órgãos judiciários proferida em sede jurisdicional. Assinalo, no entanto, que o Conselho da Magistratura do E. Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, no âmbito de suas atribuições, exerce atividade de caráter eminentemente administrativo, circunstância essa que descaracteriza, por completo, a alegação de desrespeito ao enunciado constante da Súmula Vinculante nº 10/STF.” (Rcl 15287 MC, Rel. Min. Celso de Mello, decisão monocrática, j. 30/9/2013, DJe 3/10/2013) No mesmo sentido: Rcl 9360, Rel. Min. Dias Toffoli, Primeira Turma, j. 30/9/2014, DJe 14/11/2014.
502 “O art. 97 da Constituição e a SV 10 são aplicáveis ao controle de constitucionalidade difuso realizado por
órgãos colegiados. Por óbvio, o requisito é inaplicável aos juízos singulares, que não dispõem de 'órgãos especiais'. Ademais, o controle de constitucionalidade incidental, realizado pelos juízes singulares, independe de prévia declaração de inconstitucionalidade por tribunal. A tese exposta na inicial equivaleria à extinção do controle de constitucionalidade difuso e incidental, pois caberia aos juízes singulares tão somente aplicar decisões previamente tomadas por tribunais no controle concentrado e abstrato de constitucionalidade.” (Rcl 14889 MC, Rel. Min. Joaquim Barbosa, decisão monocrática, j. 13/11/2012, DJe 19/11/2012)
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base no poder geral de cautela, para tutelar situações de urgência, não sendo justificável submeter ao plenário, em virtude do tempo. É o que foi decidido na Rcl 17288.503
A simples ausência de uma dada norma jurídica ao caso sob exame não caracteriza, apenas por isso, violação da orientação contida na sumula vinculante 10. É necessário que a decisão fundamente-se na incompatibilidade entre a norma legal tomada como base dos argumentos expostos na ação e a Constituição. A inaplicabilidade porque os fatos do caso não atraem a incidência da norma, não implica afronta à súmula vinculante 10, conforme decidido na Rcl 12122.504
Também não há afronta à súmula vinculante 10, se o órgão fracionário do tribunal local, ao afastar a norma por inconstitucionalidade, seguiu algum precedente do STF sobre a matéria, conforme decidido na Rcl 11055.505
Em suma, o que se quer demonstrar é que a reclamação, ao cabo, serviu para redefinir e reinterpretar o conteúdo da súmula vinculante 10. A medidas que as reclamações foram julgadas, realizaram-se as devidas distinções, clareando o significado do enunciado sumular. Isso demonstra que a reclamação proporciona um ambiente útil ao debate e argumentação em torno da formação e amadurecimento de precedentes obrigatórios, como vem sendo afirmado na presente pesquisa.
503 “Ementa: Agravo regimental em reclamação. Súmula vinculante nº 10. Decisão liminar monocrática. Não
configurada violação da cláusula de reserva de plenário. Agravo regimental ao qual se nega provimento. 1. Decisão proferida em sede de liminar prescinde da aplicação da cláusula de reserva de plenário (art. 97 da CF/88) e, portanto, não viola a Súmula Vinculante nº 10. Precedentes. 2. A atuação monocrática do magistrado, em sede cautelar, é medida que se justifica pelo caráter de urgência da medida, havendo meios processuais para submeter a decisão liminar ao crivo do órgão colegiado em que se insere a atuação do relator original do processo. 3. Agravo regimental não provido.” (Rcl 17288 AgR, Rel. Min. Dias Toffoli, Primeira Turma, j. 25/6/2014, DJe 26/8/2014)
504 “Registro, ainda, que é permitido aos magistrados, no exercício de atividade hermenêutica, revelar o sentido
das normas legais, limitando a sua aplicação a determinadas hipóteses, sem que estejam declarando a sua inconstitucionalidade. Se o Juízo reclamado não declarou a inconstitucionalidade de norma nem afastou sua aplicabilidade com apoio em fundamentos extraídos da Constituição, não é pertinente a alegação de violação à Súmula Vinculante 10 e ao art. 97 da Constituição.” (Rcl 12122 AgR, Rel. Min. Gilmar Mendes, Tribunal Pleno, julgamento em 19/6/2013, DJe de 24/10/2013).
505 “A jurisprudência desta Corte admite exceção à cláusula de reserva de plenário, quando o órgão fracionário
declara a inconstitucionalidade de uma norma, com base na própria jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.” (Rcl 11055 ED, Rel. Min. Roberto Barroso, Primeira Turma, j. 4/11/2014, DJe de 19/11/2014)
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