Esquema 4 – Discurso sobre o uso pedagógico da charge na EJA
4.3 A regularidade do discurso sobre o uso pedagógico da charge na EJA no am-
Ao longo das escavações empreendidas e explicitadas nas descrições analíticas, identifica-se e compreende-se a coexistência e a simultaneidade entre o conjunto de coisas escritas no discurso visual e os escritos presentes no cenário discursivo no qual se insere o uso pedagógico da charge. Visto que o discurso chárgico como um dos desdobramentos do discurso visual, apresenta a incidência enunciativa do universo visual em suas séries enunciativas, cuja regularidade
configura o conjunto de coisas escritas, circunscrevendo o cenário discursivo de uma maneira e não de outra.
Mediante esse entendimento diante das coisas escritas e descritas, tornou-se evidente, em variadas afirmações destacadas, uma série de regularidades do discurso sobre o uso pedagógico da charge na EJA inserida no amplo cenário do discurso visual. Dessa forma, destaca-se, primeiramente, a atenção empreendida acerca dos processos de “compreensão” e “interpretação” dos artefatos visuais, em particular da charge, considerando o “contexto de produção” como aspecto imprescindível nessa aproximação. A leitura implica nos aspectos – históricos, sociais, culturais, ideológicos, políticos, estéticos – que viabilizaram a produção do artefato.
Como regularidade, aparecem os signos “construtores” para nomear os sujeitos em sua relação de aproximação com as charges, o que aparece também nas afirmações do discurso visual no intuito de negar esses sujeitos como meros “receptores” diante dos artefatos visuais. Além disso, apontam que essa relação se legitima de maneira “interativa” e “crítica”.
A necessidade de compreender a charge em uma perspectiva “interativa” subsidia a relação triádica leitor-texto-realidade, considerando, além da realidade representada, a realidade do sujeito. Por sua vez, a relação com o artefato visual e em especial com a charge, mediante uma perspectiva crítica, aponta para o trabalho pedagógico atento a uma visão crítica da realidade a partir da compreensão e interpretação da representação.
Imersos nesse cenário de compreensão e interpretação o cenário da cultura visual, ao abordar uma gama de artefatos que constituem a linguagem visual, não desconsidera os elementos de outras formas de linguagem como a verbal, uma vez que se afirma que desprezar outras formas de linguagem é defender um processo de compreensão limitado. Dessa forma, no discurso sobre a charge no âmbito pedagógico no que tange aos procedimentos de leitura, explicita-se a necessidade de identificar a relação entre a linguagem verbal e a visual.
O discurso visual compreende os artefatos visuais como fontes discursivas; assim, ao escavarmos o terreno discursivo da charge, há uma compreensão de seu caráter discursivo. Ademais, aponta-se também como modelo de análise a estratégia discursiva no processo de leitura da charge. Tal modelo já estava previsto
sob a ordem pedagógica do discurso visual como estratégia para uma compreensão crítica.
No âmbito do processo de compreensão crítica, aponta-se para a necessidade de se atentar para a ideologia perpassada nesses textos imagéticos que constituem uma determinada visão de mundo, as quais trazem implicações sobre o nossa olhar face à realidade, mas não expressam o mundo de maneira absoluta. Por isso, a regularidade quanto a uma leitura que busque além do que está posto, considerando uma visão crítica acerca das condições que viabilizaram que as coisas estivessem postas de uma maneira e não de outra.
Em ambos os discursos descritos, assinala-se como regularidade a necessidade de um processo de aprendizagem para além de “o quê”, salientando a busca dos “comos” e dos “porquês”. Logo, a leitura não se restringe ao que está meramente explícito, mas lança mão das condições de produção da charge para compreendê-la e interpretá-la.
Ademais, há uma necessidade de atentar também para as relações identitárias. Desde as escavações no terreno do discurso visual sob a ordem pedagógica tal aspecto era elucidado como uma faceta pertinente na compreensão dos artefatos visuais. No discurso sobre a charge essa necessidade aparece, sob a ordem pedagógica, como uma das possibilidades que o trabalho pedagógico pode fomentar no decorrer das atividades de leitura ao destacar o processo de construção dos personagens representados no cenário chárgico.
Por fim, os discursos tecem esse processo de aprendizagem de modo a oportunizar e promover o diálogo, a reflexão, a problematização, a compreensão, a interpretação e a criticidade. Dessa forma, o cenário pedagógico se compreende como um lugar de construção de significados, onde o aluno elabora e reelabora o conhecimento de maneira autônoma, uma vez que sua posição de sujeito é de construtor.
Diante das escavações empreendidas na presente dissertação, é plausível expor algumas assinalações. Em um primeiro momento, apontou-se que estamos imersos em um universo visual. Assim sendo, cotidianamente, nos deparamos com um conjunto de artefatos visuais construídos a partir de um cenário histórico, baseados em uma determinada cultura.
Os artefatos visuais, em seus diferentes modos de existência, têm uma capacidade de afetar as visões sobre nós mesmos e sobre o mundo. Tais artefatos são tão abrangentes em nossas vidas que é necessária uma compreensão crítica sobre eles. Para tanto, é imprescindível analisar suas especificidades em seu modo de construção e representação da realidade.
O discurso visual no terreno da cultura visual contribuiu para que nós pudéssemos compreender a imagem em suas particularidades e variações. Assim como, identificar a ordem do discurso pedagógico que difunde a necessidade de reflexão, problematização e criação de estratégias de análise para o uso da imagem visual no cenário escolar numa perspectiva crítica.
Diante da multiplicidade de representações gráficas, foram realizadas, de modo particular, escavações acerca do discurso sobre a charge. No decorrer do processo analítico descritivo, identificou-se que a ordem do discurso sobre a charge se revela sob o norteamento epistemológico, ideopolítico, humorístico e pedagógico. Sendo assim, foi possível identificar alguns aspectos, elementos e funções em meio às especificidades da charge.
Desde o processo de descrição analítica da charge sob as ordens do discurso epistemológico, ideopolítico e humorístico, os escritos forneciam subsídios que possibilitam uma convergência da charge com o cenário pedagógico, bem como no tocante às necessidades que o jovem e adulto requerem em seu processo de formação. O conjunto de coisas escritas apresenta a charge como uma representação essencialmente crítica, humorística, política, discursiva e temporal. Dessa forma, percebe-se que a charge apresenta condições que podem contribuir para uma leitura que desperta a criticidade do sujeito de forma lúdica, uma vez que propicia o riso. Além disso, possibilita o reconhecimento dos principais acontecimentos da sociedade atual, principalmente, em seus aspectos políticos e sociais numa perspectiva crítica. Tal representação apresenta como função social o processo de reflexão e conscientização no que tange ao exercício da cidadania. Diante disso, o seu uso contribui para que o sujeito não se reconheça apenas como
um leitor, mas que se reconheça como cidadão. Assim sendo, ao constituir uma linguagem popular, expressa as demandas populares, os anseios do povo e suas lutas, contribuindo para que o sujeito reflita e se reconheça na história de modo consciente às necessidades e contradições sociais.
Finalmente, ao escavarmos o discurso sobre o uso pedagógico da charge na EJA, descrevemos analítica e sistematicamente a ordem do discurso pedagógico nesse cenário, cujas estratégias e os domínios acionados dispõem o conjunto de coisas escritas de determinadas maneiras e não de outras. Assim, viabilizamos um entendimento acerca das especificidades da charge no cenário da educação e, de modo particular, do seu uso pedagógico com os sujeitos jovens e adultos.
Os sujeitos nesse cenário pedagógico se explicitam de modo particular e a partir de determinados signos proferidos pelas articulações discursivas desse cenário. Os sujeitos jovens e adultos são descritos sob o signo trabalho, o qual aponta suas extensas horas de trabalho e o seu cansaço. De modo especial, a mulher é destacada no discurso como aquela que ocupa diversos papéis e funções, ocupando-se tanto dos afazeres domésticos quanto do sustento do lar. Entre os sujeitos, tem aqueles que já vivenciaram a experiência escolar e retornaram depois de anos, tendo entre os motivos de seu afastamento, a reprovação. Os alunos são reconhecidos no cenário pedagógico como sujeitos autônomos e construtores face ao processo de aprendizagem. Por sua vez, o professor aparece em uma posição de mediador, ou seja, como aquele que deve mediar o processo de aprendizagem de modo que o aluno tenha as condições necessárias para efetivar sua construção de significados e sentidos de maneira ativa.
A charge sob a ordem do discurso pedagógico aparece como modalidade de leitura em seu uso pedagógico na EJA. Para tanto, essa leitura é compreendida e desenvolvida à luz da Análise de Discurso. Desde as escavações no terreno da cultura visual sob a ordem do discurso pedagógico, já era apontada como possibilidade metodológica no trabalho com artefatos visuais a metodologia discursiva. Esse achado se confirmou no discurso sobre o uso pedagógico da
charge como um discurso inserido nessa rede discursiva maior que é o discurso na
teia da cultura visual.
Nesse cenário, identificou-se a regularidade da regra triádica no tocante à relação leitor, texto e realidade no processo de leitura da charge. Assim como, a regularidade quanto a uma série de procedimentos que orientam e especificam esse
uso pedagógico, mas que também não se reduzem a elas mesmas. Entre esses procedimentos apareceram: observar as particularidades da charge; identificar a relação entre linguagem verbal e não verbal; localizar informações; inferir informação implícita; identificar o tema; perceber os efeitos de ironia e humor; e identificar a crítica presente na charge.
O discurso apresenta o uso pedagógico da charge a partir de uma perspectiva crítica, ressaltando o seu uso como uma forma de contribuir para a formação de um sujeito crítico. Desde as escavações do discurso sobre a charge no que tange a suas particularidades como artefato visual sob a ordem epistemológica, ideopolítica e humorística, já se apontava o seu caráter crítico, o que subsidia que esse artefato adentre no universo pedagógico e possa ser utilizado em práticas que busquem fomentar uma criticidade nos aluno acerca da realidade a partir da leitura.
Quanto às possibilidades do uso da charge, aponta-se no discurso que o seu uso possibilita: uma motivação para atrair a atenção e despertar a curiosidade e interesse; uma interação do aluno com a realidade, estabelecendo uma reflexão análoga com suas próprias experiências; uma motivação para o diálogo; a abordagem acerca de um determinado contexto social e histórico; uma forma de estabelecer uma leitura cidadã, acionando o posicionamento do sujeito para o lugar de cidadão; uma relação temporal entre determinados fatos, articulando o passado e o presente; trabalhar e problematizar as relações identitárias; trabalhar uma pedagogia da imagem, formando o olhar do sujeito diante do mundo e de suas representações; enfim, possibilita um trabalho pedagógico em que os alunos possam ver, refletir, criticar e reconstruir a realidade a partir da representação chárgica.
Ademais, o discurso sobre o uso pedagógico da charge apresenta como contribuições para os sujeitos, o envolvimento dos alunos no processo de ensino e aprendizagem de maneira ativa, no que tange, principalmente, aos debates; o desenvolvimento da capacidade de argumentação; o aprimoramento da escrita de textos; uma compreensão acerca da variedade linguística, dada as condições sociais, culturais, regionais e históricas da linguagem; o acionamento da memória acerca dos acontecimentos da sociedade; a capacidade de se manter informado e atualizado diante desses acontecimentos; o aguçamento da sensibilidade do leitor; a capacidade de os discentes conseguirem interagir espontaneamente nas atividades
de leitura e relacionar o que é lido com o contexto no qual se encontra inserido; o despertar da capacidade de reflexão; e o aguçamento da criticidade.
Enfim, este trabalho dissertativo traz um processo de explicitação das teias do terreno discursivo, contribuindo para a compreensão do amplo cenário da cultura visual em suas várias articulações acerca da visualidade em suas especificidades e da sua constituição no cenário contemporâneo e pedagógico. Além disso, buscou- se, um entendimento da charge em suas particularidades e mais precisamente, a compreensão da conexão da charge no âmbito pedagógico no que tange aoseu uso na modalidade de educação de jovens e adultos. Dessa forma, o uso da charge é esclarecido em suas articulações discursivas no que tange ao trabalho pedagógico, tendo considerado tanto os aspectos que constituem a charge como artefato visual particular ao longo da leitura quanto às demandas para o processo de formação dos sujeitos jovens e adultos, principalmente, no que se trata do processo de leitura numa perspectiva crítica.
Para tanto, busca-se, mediante os presentes escritos e descrições, poder elucidar o entendimento acerca do uso da charge nesse cenário de modo que se possam perceber suas potencialidades como modalidade de leitura em suas múltiplas possibilidades e contribuições no processo de formação dos educandos. Valendo ressaltar que dado o dinamismo da realidade e das práticas discursivas, as possibilidades e contribuições descritas não se encerram nelas mesmas e podem aparecer de muitas outras formas.
Diante do exposto, enfatiza-se a necessidade de outras pesquisas se sucederem e que a partir dos presentes achados, seja possível elencar novas questões, buscando outros achados para construir um novo conhecimento mediante um novo objeto de pesquisa. No âmbito da cultura visual em associação com o domínio pedagógico, há muitas possibilidades para pesquisas futuras e contribuições para a formação crítica do olhar dos sujeitos face às representações da realidade contemporânea. Na sucessão desses estudos repousa a busca por respostas que ressignifiquem e reconstruam a escola e as suas práticas frente às demandas e problemáticas da contemporaneidade.
Finalizo com algumas questões e considerações que problematizam a temática abordada no âmbito da pesquisa em educação, apresentando algumas perspectivas para pesquisas futuras: Qual o discurso visual chárgico nos materiais didático-pedagógicos a exemplo de livros e instrumentos de avaliação? Como a
charge pode ser um instrumento pedagógico que potencializa a criticidade e participação do educando no processo de aprendizagem, viabilizando sua voz e vez no decorrer do trabalho pedagógico, considerando as problemáticas inerentes às relações intersubjetivas no contexto escolar (professor-aluno e aluno-aluno) e às dificuldades de aprendizagem? Como a charge se articula e contribui no processo identitário no cenário educacional? Diante dessas questões, é importante também que se atente para o discurso político inerente à charge e ao seu uso pedagógico, como uma forma de fomentar a posição dos sujeitos do processo pedagógico como cidadãos, atores sociais, participantes da história e sujeitos transformadores.
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