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Alguns procedimentos para leitura da charge

Esquema 4 – Discurso sobre o uso pedagógico da charge na EJA

4.2 O uso pedagógico

4.2.1 A charge como modalidade de leitura: um processo de compreensão e inter-

4.2.1.3 Alguns procedimentos para leitura da charge

As séries de signos em suas articulações apontam para a existência de alguns procedimentos que regularizam o processo de leitura da charge no terreno do discurso, constituindo-se como componentes das regras do discurso sobre o uso pedagógico da charge. Tais maneiras de fazer estão postas de modo regular e atentam para aspectos que devem ser considerados no uso pedagógico da charge para um ativo processo de compreensão e interpretação.

Primeiramente, há a necessidade de observar as particularidades da charge. Desse modo, os procedimentos apresentados são as projeções de tiras, história em quadrinhos, cartum e charges, no intuito de, por meio da estratégia da diferenciação, ressaltar as particularidades da charge. Nos escritos de Nery (2011, p. 40) é apontado: “[...] em transparências, tiras, história em quadrinhos, cartum e charges. Realizamos uma leitura coletiva dos gêneros, para que os alunos observassem as particularidades de cada um”. Portanto, o referido procedimento aponta que os alunos devem ser conduzidos a buscar as semelhanças e diferenças presentes nessas variadas formas de representação que apresentam uma determinada aproximação com a charge por se tratar de artefatos visuais no âmbito do desenho e do humor.

Nesse percurso aparece a formulação de algumas questões como estratégia para conduzir os sujeitos a compreender a charge, de modo particular: “o que é

charge e quem a produz? Como o chargista elabora a charge, a partir do quê, quais

os elementos que a compõem?” (NERY, 2011, p. 42). Busca-se instigar a busca por informações acerca da definição de charge, seu agente produtor, sua emersão, seus elementos constitutivos. Tais perguntas são formuladas de modo que os alunos atentem para os referidos aspectos e busquem respostas. Apresenta-se ainda que há uma busca por explorar com os alunos “as particularidades do gênero charges, enfatizando a sua função social e o local onde costumavam circular” (NERY, 2011, p. 42). Portanto, a partir dessas articulações aparecem ainda os aspectos função social e campo de circulação da charge como uma das particularidades a serem consideradas no processo pedagógico.

O uso pedagógico da charge requer um processo de entendimento acerca da

charge em si mesma para viabilizar sua leitura de modo coerente e atento às suas

especificidades. Assim sua leitura se realiza de um modo e não de outro, uma vez que o texto é a charge e não outro.

Outro procedimento apresentado é identificar a relação entre linguagem

verbal e não verbal. O discurso atenta para a articulação entre esses dois tipos de

linguagem como aspecto imprescindível a ser enfatizado no processo de leitura. Assim, ao abordar o processo de leitura da charge, aparecem os seguintes escritos: “identificar a relação entre a imagem e a escrita” (SILVA, 2004, p. 14); “pedimos para que atentassem para a linguagem verbal e não-verbal empregadas nas charges” (NERY, 2011, p. 41). Conforme afirmado anteriormente, a charge apresenta uma hibridez quanto à linguagem verbal e não verbal em sua composição, sendo assim, o discurso apresenta a necessidade de identificar essa relação como um dos procedimentos a serem empreendidos no processo de leitura da charge, uma vez que ambos os tipos de linguagem se complementam na construção de significados e apresentam suas particularidades.

Diante dessa regularidade, aparecem no conjunto de coisas escritas algumas perguntas: Qual a importância da linguagem verbal empregada? Qual a importância das ilustrações nas charges? (NERY, 2011, p. 57). Tais questões aparecem no intuito de chamar atenção dos sujeitos para determinados aspectos existentes na

conduzindo os alunos a atentarem para a existência de diferentes tipos de linguagem e para a importância do emprego delas na charge.

Há também o procedimento localizar informações, em que os alunos devem buscar as informações existentes na charge a partir de uma leitura atenta aos aspectos emitidos pela articulação entre a linguagem verbal e não verbal.

Dessa forma, explicitam-se algumas questões utilizadas como estratégias para conduzir os alunos na busca por informações: O quê? Quem? Onde? Como? Quando? Qual? Para quê? (SOUZA, 2011, p. 252). Portanto, os alunos devem ser impulsionados por questões que os conduzam a descobrir uma série de aspectos acerca da charge possíveis de serem identificados em sua superfície (SOUZA, 2011).

Nos escritos postos em Souza (2004, p. 262) são apresentadas outras questões que indicam esse processo de busca por informações no trabalho pedagógico com a charge: “De que época trata a representação? Qual o contexto representado de forma humorística? A fala e a caracterização dos personagens remetem à identificação de qual personagem?”. As questões norteiam o percurso a ser construído pelos sujeitos no seu processo de leitura.

Com base nos escritos de Nery (2011, p. 57), “as perguntas serviam como um norte para a leitura que iam fazer”. Por meio de perguntas há uma mobilização do conhecimento prévio no intuito de orientar a leitura. Do mesmo modo, frente a essa regularidade, os escritos postos em Souza (2011, p. 256) ressaltam que:

[...] perguntas bem formuladas podem mobilizar capacidades (ou habilidades) de leitura, orientando o leitor para que compreenda o texto [...] a explicitação do que se espera e a contextualização das questões colaboraria para uma compreensão mais eficaz.

Portanto, as perguntas aparecem com determinadas funções, ora como estratégia para mobilizar capacidades de leitura, ora para nortear a leitura empreendida pelos sujeitos e orientar a compreensão do leitor, impulsionando e conduzindo a busca por determinadas informações. Além disso, através das perguntas, torna-se explícito o que é necessário buscar e descobrir perante a

charge.

Os sujeitos devem também inferir informação implícita, uma vez que nem todas as informações estão tão visíveis na charge, mas a partir das marcas deixadas

pelo texto chárgico podem ser deduzidas. Assim, busca-se, por meio de inferências, efetivar o processo de interpretação.

Nesse cenário, os escritos presentes em Nery (2011, p. 74) ressaltam que o trabalho pedagógico com a charge deve viabilizar que os alunos “passem a ler além do dito”. Portanto, o conjunto de coisas escritas apresenta que o leitor deve buscar além dos aspectos superficiais, ou seja, deve buscar aqueles que estão nas entrelinhas. Dessa maneira, os escritos de Souza (2011, p. 252) assinalam:

Quando a tarefa do leitor for inferir uma informação implícita, pretende-se verificar se ele é capaz de chegar às informações que não estão presentes claramente na base textual, mas que podem ser construídas por meio da realização de inferências, sugeridas pelas marcas textuais ou pistas textuais. Além das informações, explicitamente enunciadas, há outras que podem ser pressupostas e, consequentemente, inferidas pelo leitor. O leitor perspicaz é aquele que consegue ler o que está por trás das linhas. Isso significa que o leitor deve descobrir os pressupostos.

Esse entendimento de ir além do está explícito ou dito também aparece nos escritos de Silva (2004, p. 18):

[...] para apreender seus novos sentidos e não ficar somente na descrição da cena e das falas ou explicações dos personagens é necessário uma carga de informações que podem surgir das experiências de mundo de cada um, das leituras que cada um faz, dos conhecimentos guardados e da memória reavivada.

O conjunto de coisas escritas acima acrescenta as “experiências”, as “leituras”, os “conhecimentos” e a “memória” do aluno no processo de leitura e compreensão da charge para além do que está explícito nela.

O discurso sobre o uso pedagógico da charge na EJA apresenta uma regularidade quando afirma a relevância de ir “além do que está explícito” ou “ler além do que está dito” no processo de compreensão. Tais afirmativas realçam e implicam a necessidade do olhar atento às estratégias e correlações existentes na representação. O olhar acerca do meramente explícito é insuficiente para o entendimento do artefato visual em questão.

De acordo com os escritos postos em Macêdo e Souza (2007, p. 1), o processo de compreensão e interpretação da charge deve ocorrer “com base nas inferências que o aluno possa realizar de acordo com seu conhecimento de mundo”.

Então a partir de seu conhecimento de mundo, o aluno constrói uma série de inferências acerca da charge no decorrer de sua leitura.

Sob o signo “entrelinhas” o discurso aponta o lugar das informações que devem ser buscadas por meio de inferências, devendo os sujeitos ir além dos aspectos superficiais. Dessa forma, está posto em Silva que para ler a charge, os sujeitos “não fixam seus olhares apenas ao superficial, que é o contar um fato, mas perceber o que está nas ‘entrelinhas’, a função e a intenção de uma charge” (SILVA, 2004, p. 15). Portanto, por meio da negação o discurso aponta que a leitura da

charge não reside apenas no superficial, mas também nas entrelinhas.

Nesse cenário, deve-se atentar para “as condições de produção e os fatores que influenciaram a sua constituição” (NERY, 2011, p. 35), pois a compreensão da

charge depende dessas condições e fatores que contribuem para constituí-la para

que o leitor possa fazer suas inferências em coerência com esses pressupostos. Explicita-se nos escritos de Nery (2011, p. 37) correlacionada com Orlandi (2009) que no processo de compreensão da charge é preciso:

[...] observar não apenas o que é dito linguisticamente, mas principalmente as condições de produção e os fatores que influenciaram a sua constituição, pois “os sentidos não estão nas palavras, nos textos, mas na relação com a exterioridade, nas condições em que eles são produzidos e que não dependem só das intenções dos sujeitos” (grifos do autor).

Por meio da negação, indica que para a compreensão da charge no âmbito discursivo é necessário compreender fatores que vão além dos linguísticos, e que tais fatores são as “condições de produção”, a “exterioridade”.

Nery (2011, p. 37) assinala que “[...] a atribuição de sentidos às charges é uma tarefa que requer algo mais do que a apreensão da estrutura da língua, estando, pois, relacionada ao seu acontecimento”. Desse modo, ao compreender a

charge como um acontecimento, o discurso atenta para as condições de produção

da charge que legitimam a sua constituição a partir de um determinado contexto, aspectos estes que corroboram para interpretação de seus sentidos.

Logo, deve-se conduzir o leitor ao longo da interpretação da charge a fim de atentar para os aspectos implícitos e como os discursos se constituem para dizer de uma determinada maneira o que dizem. Assim, o leitor busca as informações que não estão tão visíveis, mas que por meio de uma série de inferências são alcançadas. Os escritos postos em Nery (2011, p. 106), trazem essa assinalação de

que as questões apresentadas no decorrer da leitura são uma forma de observar que:

[...] nem todos os sentidos a serem atribuídos estavam ali explícitos, principalmente em se tratando das charges. Assim, buscamos fazer com que atentassem não apenas para o que os discursos dizem, mas como se constituem para dizer o que dizem, porque era dito de uma forma e não de outra.

Desse modo, apresenta-se a necessidade de atentar “não apenas para o que estar explícito, mas, sobretudo, às estratégias utilizadas através do que fora dito” (NERY, 2011, p. 42). O referido enunciado traz o signo “estratégias” como aspecto importante a ser considerado no processo de compreensão, mas tal aspecto não se apresenta de modo explícito, exigindo uma maior atenção do sujeito intérprete. Além das imagens e palavras, a charge viabiliza o uso de estratégias para representar a realidade de modo específico e articular os seus elementos constitutivos de modo a potencializar a abordagem do tema.

Ademais, o discurso pedagógico acerca da charge apresenta que para “os alunos desenvolverem as atividades foi necessária a leitura de outros textos da esfera jornalística a fim de fazer associações e registrar as conclusões por meio da escrita ou da oralidade” (DAGOSTIM, 2009, p. 98). De acordo com tais escritos, diante das informações implícitas e das inferências, pode haver a necessidade de correlacionar a charge a outros textos, em especial àqueles do cenário jornalístico, para potencializar a leitura e construir considerações a partir do que foi lido. Portanto, no uso pedagógico da charge como modalidade de leitura, apresenta-se a necessidade tanto de inferir informações implícitas e considerar suas condições de produção, quanto fazer correlações com os outros textos que apresentem relação com a realidade representada no texto chárgico.

Identificar o tema é apontado como mais um procedimento a ser considerado

nesse cenário. Por meio de questionamentos, o discurso atenta para esse aspecto: que tema é tratado na charge? (NERY, 2011, p. 57); o texto trata do quê? (SOUZA, 2011, p. 252). A resposta para essas questões são essenciais para a leitura, uma vez que o tema é o eixo central do texto.

Aponta-se que o tema nem sempre vem explicitado, mas deve ser percebido pelo leitor através de sua interpretação. O conjunto de coisas escritas apresenta que

identificar o tema é imprescindível na leitura da charge. Diante disso, está posto em Souza (2011, p.252) que:

O tema é o eixo sobre o qual o texto se estrutura. Em muitos textos, o tema não vem explicitamente marcado, mas deve ser percebido pelo leitor, quando este identifica a função dos recursos utilizados, como o uso de figuras de linguagem, de exemplos, de uma determinada organização argumentativa, entre outros. Espera-se verificar a capacidade do aluno de construir o tema do texto a partir da interpretação que faz dos recursos utilizados pelo autor.

De acordo com os escritos supracitados, identifica-se que o tema aparece como o eixo estruturador do texto. A sua identificação é possível a partir da articulação dos elementos utilizados para constituir a charge em uma determinada organização argumentativa acerca de uma dada realidade representada.

Ainda aparece como procedimento perceber os efeitos de ironia e humor. Ambos são elementos que constituem a charge e são estratégias utilizadas para constituir seu sentido.

Os escritos de Souza (2011, p. 253) apontam que “o humor e a ironia costumam ser comuns em vários gêneros de texto, mas nem sempre são facilmente compreendidos pelo leitor, pois, muitas vezes, exigem o conhecimento de situações que não são mencionadas no texto”. Tais elementos muitas vezes se articulam com aspectos ou informações implícitas no texto. Os efeitos de ironia e humor são utilizados estrategicamente pela charge para enfatizar uma determinada situação de modo específico e devem ser percebidas para o processo de construção de sentido realizado pelo leitor.

Por fim, apresenta-se identificar a crítica como procedimento utilizado na leitura da charge. Para tanto, é apontado que o mediador faz uso de questões para despertar a atenção dos alunos para a crítica empreendida no texto chárgico, conforme destacado nos seguintes recortes: “Qual é a crítica que o autor do texto visual pretende repassar?” (SOUZA, 2004, p. 262); “Qual a crítica que está sendo feita nas charges? Vocês concordam com a crítica que está sendo feita?” (NERY, 2011, p. 57). Além de o mediador incentivar a busca pela identificação da crítica existente na charge por meio das perguntas apresentadas, ainda há um estímulo ao sujeito participar desse processo, apresentando seu posicionamento e/ou opinião perante a crítica.

Contudo, o discurso acerca do uso pedagógico da charge na EJA atenta que, “para compreender a crítica feita, é preciso o leitor estar informado sobre essas condições de produção” (NERY, 2011, p. 54). Logo, são as condições de produção da charge que conduzem à construção de significados e sentidos acerca da crítica presente no texto, uma vez que a crítica busca enfatizar ou chamar atenção para aspectos de uma determinada situação.

De modo geral, o discurso aponta que “para ler e compreender a charge, é necessária a mobilização de conhecimentos linguísticos, sociais e cognitivos” (SOUZA, 2011, p. 256). Desse modo, os procedimentos apresentados e suas estratégias em torno do uso pedagógico da charge como modalidade de leitura mobilizam conhecimentos de variadas ordens, sendo elas linguísticas, sociais e cognitivas. O conhecimento no âmbito linguístico aparece na identificação das articulações existentes entre a linguagem verbal e não verbal. O conhecimento no campo social aparece, sobretudo, na compreensão acerca de um determinado contexto social representado na charge. O conhecimento no âmbito cognitivo se refere às percepções e inferências que o sujeito realiza no decorrer do processo de construção de significados.

Em suma, os procedimentos identificados no discurso para compreender a

charge são: observar as particularidades da charge, identificar a relação entre

linguagem verbal e não verbal, localizar informações, inferir informação implícita, identificar o tema, perceber os efeitos de ironia e humor e identificar a crítica presente na charge. Tais procedimentos aparecem como parâmetro para se realizar o processo de leitura da charge em sua compreensão e interpretação. Contudo, deve-se compreender que utilizar a charge como modalidade de leitura não aparece de maneira unívoca, mas a partir de parâmetros que sugerem aspectos norteadores. Outros procedimentos podem aparecer nos desdobramentos discursivos em sua contínua circulação e dispersão. Mas no percurso analítico-descritivo realizado aparecem esses e não outros, apresentando o trabalho pedagógico sob uma perspectiva ampla de busca e construção de conhecimentos.