CAPÍTULO III – CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 E O MEIO
3.4. A relação entre o meio ambiente e a Cooperação
A consagração da proteção ambiental acarretou outra conseqüência que merece destaque, que é aquela relacionada com a cooperação internacional, completando o sistema de proteção e preservação ambiental efetiva, em âmbito nacional e além de suas fronteiras territoriais.
A idéia de cooperação expressa a consciência de que não vivemos só, muito menos isolados, principalmente em relação ao meio ambiente, onde uma atitude impensada pode acarretar danos locais, regionais, nacionais e até internacionais.
Para a sua proteção é necessária a prática de atividades conjuntas, a começar pela integração entre Estado e Sociedade, com vistas a alcançar um objetivo único: a proteção e preservação do meio ambiente.
De amplitude global, temos consagradas nos termos do inciso IX, do art. 4º da Constituição Federal, as relações internacionais, que são regidas, dentre vários princípios, o da “cooperação entre os povos para o progresso da humanidade”.
As relações internacionais devem ser disciplinadas sob a orientação do texto constitucional, que define os fundamentos nacionais e internacionais, como observa Vera Lúcia Jucovsky391, ao conceituar o dever de cooperação, como um princípio:
“O princípio da cooperação impõe ao Estado o dever de adotar e manter mecanismos de participação da Coletividade. E a tomada de
consciência desta dos problemas ambientais dependentes
basicamente de dois instrumentos: informação e educação ambiental”. (grifo nosso)
Questiona-se sobre um possível abalo à soberania nacional, ao estabelecer um relacionamento de cooperação entre os povos para o progresso da humanidade. Assim, poderia ser entendido que outras nações teriam a autorização para tirar a autoridade das decisões do governo brasileiro sobre suas políticas.
É importante reconhecer que a soberania nacional envolve o poder, a autoridade suprema do Estado sob a sua nação. Nela, o Estado dispõe de direito supremo para despender livremente sobre suas riquezas conforme seus interesses
391 JUCOVSKY, Vera Lúcia R. S. “Meios de defesa do meio ambiente. Ação popular e participação
nacionais, e o respeito à sua independência econômica, e ao direito de livre determinação.
Essa soberania interna dos Estados, inclusive sobre os recursos naturais existentes em seu território, deve ser entendida como uma exploração dessas riquezas, sujeita ao controle de toda a comunidade internacional, em benefício a toda humanidade, de forma globalizada.
Conforme entendimento de Daniel Sarmento392, essa globalização deve ser conduzida não somente ao controle, mas também aos conhecimentos científicos e tecnológicos:
“(…) Se a globalização é, de fato, irreversível, cumpre então redirecioná-la e pintá-la com cores mais humanas. É preciso globalizar também as vantagens que os incríveis avanços da ciência e da
tecnologia proporcionam".
A globalização é muito mais que um conceito econômico, mas “o resultado de um processo histórico muito provavelmente irreversível, que se acelerou vertiginosamente nas décadas finais do milênio que se encerra. O espantoso avanço tecnológico no campo da informática e das telecomunicações encurtou distâncias, ampliou mercados, homogenizou costumes e diluiu a importância das fronteiras nacionais” 393.
Portanto, a consagração da cooperação internacional, como princípio que deve reger as relações entre os povos, tem por objeto assegurar a soberania interna de cada um dos Estados, ao mesmo tempo em que é assegurada a exploração de seus recursos naturais, de forma controlada, não só por ele, mas por toda comunidade internacional.
392 SARMENTO, Daniel. “Direitos sociais e globalização: limites ético-jurídicos ao realinhamento
constitucional”. Revista de Direito Administrativo nº. 223. Rio de Janeiro: Renovar, janeiro / março de 2001, p. 168.
A exploração dos recursos naturais deve se submeter ao duplo controle (nacional e internacional), pois o interesse envolvido é muito maior, ao bem-estar e à vida digna de toda a humanidade.
Aliás, a cooperação internacional envolve o desenvolvimento econômico e outros aspectos, conforme definição traçada na Resolução nº. 1803 de Assembléia Geral da ONU, de 14 de dezembro de 1962:
“6. A cooperação internacional no desenvolvimento econômico dos países em vias de desenvolvimento, se consistir em investimentos de capitais, públicos ou privados, troca de bens e serviços, assistência técnica ou troca de informações científicas, será de tal natureza que favoreça os interesses de desenvolvimento nacional independente desses países e estará baseada no respeito à soberania sobre suas riquezas e recursos naturais”.
Portanto, a cooperação internacional não é só o ônus de preservação do meio ambiente, ou a sua utilização de forma sustentada, mas também o direito de compartilhar avanços tecnológicos e científicos, de conhecimento de outras nações, a serem empregados dentro de cada Estado.
Isso requer uma consciência de globalização e de respeito mútuo, o que não é uma tarefa fácil, nem mesmo para os membros da Comissão Internacional das Nações Unidas, como observa Geraldo Eulálio do Nascimento e Silva:
“Dentre os princípios consagrados pela Declaração de 1972, o nº. 21 é o mais importante. Nele se estipula que ‘os Estados têm, de acordo com a Carta das Nações Unidas e os princípios de direito internacional, o direito soberano de explorar os seus recursos segundo as suas políticas ambientais, e a responsabilidade de garantir que a atividade levada a efeito dentro de sua jurisdição ou controle não prejudiquem o meio ambiente de outros Estados ou de outras áreas além dos limites da jurisdição internacional’ (…)” 394.
394 SILVA, Geraldo Eulálio do Nascimento e. Direito ambiental internacional: meio ambiente,
desenvolvimento sustentável e os desafios da nova ordem mundial. Rio de Janeiro: Thex Editora, 2002, p. 22.
“O Princípio nº. 22 é de aceitação mais controvertida, pois prevê a cooperação internacional no sentido de desenvolver o futuro direito internacional em matéria de responsabilidade na acepção anglo-saxã de liability, ou seja, a de garantir compensação às vítimas de poluição e demais danos ambientais ocorridos dentro da jurisdição ou controle do Estado. O princípio pode ser aceito, mas a adoção de regras precisas a respeito, sobretudo quanto à liability, vem desafiando os mais capacitados juristas, inclusive os membros da Comissão Internacional das Nações Unidas”.
Como se pode perceber, a proteção ambiental prevista na Constituição Federal afetou toda a Estrutura do Estado de Direito e alterou as relações internacionais, ao ponto de levar a compreensão de que tudo constitui uma estrutura cujas partes são indissociáveis, não podendo haver a promoção do bem de todos ou a justiça social sem o respeito da dignidade da pessoa humana em âmbito global, o que, às vezes, não é possível sem o reconhecimento da função social da propriedade e sem o uso dos recursos naturais seja sustentável395.
Preocupação e conscientização que fundamentaram encontros e discussões sobre os problemas ambientais, inclusive na elaboração de documentos internacionais, dos quais o Brasil é signatário e ratificou seu conteúdo no ordenamento jurídico brasileiro.
Passaremos à análise da estrutura do direito ambiental brasileiro, para que possamos compreender a influência internacional desses importantes documentos que ajudaram na criação do sistema jurídico brasileiro de proteção ao meio ambiente.
395 AZEVEDO, Plauto Faraco. “Do direito ambiental – reflexões sobre seu sentido e aplicação”.
CAPÍTULO IV – CONSIDERAÇÕES PARA COMPREENSÃO DO DIREITO