Capítulo 4: A desigualdade racial de renda
4.2 O estudo da desigualdade da renda: método e técnicas
4.2.1 A renda na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
A fonte das informações apresentadas é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, PNAD, realizada pelo IBGE. Como um dos objetivos é testar a persistência temporal da desigualdade de renda entre negros e brancos, são usados os dados das edições da PNAD realizadas em 1976, 1986, 1996 e 2006. Embora o questionário da pesquisa tenha sofrido algumas modificações, os dados de renda desses anos são comparáveis, uma vez deflacionados. A informação de renda das PNAD não é perfeita, mas é considerada de excelente qualidade. E não há razão para supor que os problemas que a afetam impactem distintamente negros e brancos.
Pesquisar renda em pesquisas domiciliares é difícil. Perguntar sobre a renda de uma pessoa é uma intrusão na vida privada muito mais severa do que perguntar a data de nascimento ou o estado civil. Muitas pessoas podem não se sentir à vontade para declarar a renda a um estranho – o entrevistador. O desconforto em declarar a renda
pode ter inúmeros motivos. Pessoas pobres podem ter vergonha do seu baixo nível de renda, e pessoas mais abastadas podem temer que a informação venha a ser usada para outros propósitos, por exemplo, conferir suas declarações de renda para o fisco (DEATON, 1997; MCKAY, 2000a). Mesmo com a garantia de sigilo e da finalidade estatística da coleta de dados a reticência das pessoas em declarar sua renda pode persistir.
Além dos problemas relacionados à intrusão da intimidade e ao receio de que a informação possa ser usada para outros fins, existe também uma série de problemas conceituais e técnicos associados à captação da renda. Usualmente, a renda em pesquisas domiciliares é dividida em dois componentes principais, a renda do trabalho e as outras rendas (MCKAY, 2000a). A captação de rendas pela PNAD se encaixa nesse padrão (MEDICI, 1988; ROCHA, 2002).
As dificuldades na captação da renda do trabalho dependem muito do tipo de trabalhador e do mercado de trabalho do qual participa (SCHAFFNER, 2000). Por exemplo, uma família que empenha a força de trabalho de seus membros em um pequeno empreendimento agrícola terá uma renda variável, sazonal e incerta. O cálculo de sua renda envolveria o cômputo da produção familiar vendida ou consumida. E deste total, teriam que ser descontados os custos de produção: sementes, rações e outros insumos, incluindo a eventual contratação de mão-de-obra.
No caso de empreendedores ou autônomos contratados por período, a captação também é dificultada pela variabilidade dos rendimentos: há épocas piores e melhores. Alguns desses trabalhadores podem simplesmente ignorar quanto ganham habitualmente em um determinado período, por não manterem registros contábeis. No caso dos empreendedores em empreendimentos não agrícolas, também existe o problema de se descontar os custos de produção do faturamento total da venda de produtos ou serviços (SCHAFFNER, 2000).
A PNAD não capta detalhadamente as informações necessárias para calcular a renda dos vários tipos de empreendedores. Simplesmente se lhes pede calcularem uma média vagamente definida de seus rendimentos mensais (ROCHA, 2002).
Já se o trabalhador é assalariado em um emprego regular, sua renda pode ser captada mais facilmente. Mesmo assim, restam alguns problemas conceituais, como, por exemplo, se devem ser registradas rendas ocasionais (bonificações, comissões, e
gratificações extras), a remuneração em produtos ou benefícios (cesta-básica, vale transporte), e se se deve registrar a remuneração bruta ou líquida (SCHAFFNER, 2000). A PNAD busca registrar a renda bruta regular, incluindo uma estimativa do valor do pagamento do trabalho em produtos, se houver, excluindo benefícios (ROCHA, 2002). Apesar dessas dificuldades, de forma geral, quanto mais urbana é a sociedade e sua economia (do ponto de vista do emprego da mão de obra), e quanto mais formalizadas e estáveis são as relações de trabalho, maior é a possibilidade de captação precisa da renda do trabalho.
As rendas que não são oriundas do trabalho também oferecem dificuldades para captação que variam conforme o tipo da renda (MCKAY, 2000b). Algumas dessas rendas, quando regulares, têm a captação fácil, caso de aposentadorias, pensões, ou de transferências monetárias de programas governamentais. Porém, nem todas as rendas regulares são de fácil captação: as rendas de aluguéis, de imóveis ou de bens de capital, são usualmente afetadas por subdeclaração, seja por não serem declaradas, seja por seus recebedores serem tão poucos na população que escapam à amostra.
Quando as outras rendas não são regulares, a dificuldade aumenta. Uma família pode receber transferências esporádicas e de valor variável de um parente que reside em outro domicílio (e.g. um trabalhador emigrante). Também são de difícil captação os juros e dividendos provenientes de aplicações financeiras. Outras rendas oferecem dificuldades conceituais por serem de ocorrência rara, como heranças, vendas de imóveis e prêmios de loteria (MCKAY, 2000b).
Não há como contornar todos esses problemas, pode-se apenas minimizá-los por meio de bom planejamento e da elaboração de questionários adequados às características das principais fontes de renda da população pesquisada (DEATON, 1997; MCKAY, 2000a, 2000b; SCHAFFNER, 2000). A captação de renda na PNAD não é exceção, é afetada por todos esses problemas. Dado existirem dois estudos aprofundados sobre a captação de renda na PNAD, seus problemas e mudanças ao longo do tempo (MEDICI, 1988; ROCHA, 2002), não será feita aqui uma descrição detalhada dos questionários. Apesar dos problemas, compartilhados com outras pesquisas do seu naipe, a informação de renda na PNAD é considerada de ótima qualidade pelos que a usam e pelos que a estudaram visando a melhorá-la (MEDICI, 1988; ROCHA, 2002).
Um aspecto importante da captação de renda na PNAD é que mudou relativamente pouco desde 1976. Embora de 1977 a 1979 várias experiências tenham sido feitas (MEDICI, 1988), as questões de renda de 1976 são praticamente as mesmas que foram empregadas de 1981 a 1990. A partir de 1992 houve um maior detalhamento das rendas não oriundas do trabalho, com a especificação de diferentes tipos de pensões e aposentadorias (ROCHA, 2002). Mas ao que tudo indica, não há razões para evitar comparações intertemporais dos dados de renda da PNAD. No caso das comparações de nível, entretanto, deve se tomar o cuidado de empregar fatores de deflação adequados (COURSEIL e FOGUEL, 2002).
Adotou-se a seguinte classificação operacional para as rendas da PNAD, que pode ser aplicada a qualquer rodada da PNAD de 1976 em diante.
− − + − − outras aluguéis mesadas doações outras pensões e rias aposentado pensões trabalho não abono ocupações outras demais ocupação primeira principal trabalho individual renda , , ,
Críticos da captação de renda na PNAD costumam alegar que o nível da renda das famílias que mede é inferior aos registrados pela Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) e pelo Sistema de Contas Nacionais (SCN), ambos realizados pelo IBGE. No contexto dos estudos de desigualdade, também se alega que a subdeclaração das rendas de aluguéis e de aplicações financeiras seria relativamente maior do que a de outras rendas, o que levaria a uma subestimação da desigualdade na distribuição da renda. BARROS, CURY e ULYSSEA (2007) empreenderam um estudo comparativo detalhado das informações de renda dessas três fontes. Os autores concluíram que efetivamente a PNAD subestima o montante total da renda das famílias se comparada à POF e ao SCN. No caso do SCN, a subestimação se dá em parte por ser mais abrangente o conceito de renda usado – feitas as restrições necessárias para tornar o conceito mais próximo ao das pesquisas domiciliares, o nível de renda aferido pelo SCN passa a ser muito próximo ao da POF.
Porém, do ponto de vista da desigualdade, isto é, da forma da distribuição, não existem diferenças significativas entre a POF e a PNAD40: os indicadores de desigualdade de renda obtidos a partir de ambas as pesquisas são muito próximos (BARROS, CURY e ULYSSEA, 2007). Isso acontece porque a subestimação de renda na PNAD ocorre de maneira razoavelmente uniforme ao longo de toda a distribuição.
Na POF, que é uma pesquisa especificamente desenhada para captar dados de renda41, o nível das rendas dos arrendadores, concentradas entre os mais ricos, é de fato mais elevado do que o da PNAD, como alegam críticos. Porém, o nível das rendas não monetárias, concentradas entre os mais pobres – os recebimentos em produtos e serviços, a produção familiar para o próprio consumo – também é consideravelmente mais elevado. De fato, ao se comparar a distribuição da renda da PNAD a da POF, percebe-se que a subestimação é, na verdade, maior entre os 10% mais pobres da população (BARROS, CURY e ULYSSEA, 2007). Portanto, a desigualdade de renda calculada a partir da PNAD pode estar ligeiramente sobre-estimada, e não o contrário. Sendo a subestimação uniforme ao longo da distribuição, não há razões para considerar que afete de forma diferente a renda dos negros e a dos brancos. Assim, a subestimação da renda nas PNAD não é obstáculo para o estudo da desigualdade de renda entre os grupos raciais, nem do ponto de vista da forma, nem do nível das distribuições.