Capítulo 2: Raça e discriminação racial
2.3 Negros: grupo composto por pretos e pardos
...considerar que pretos e pardos compõem um grupo racial de “não- brancos” um tanto quanto homogêneo não parece ser uma violência para com a realidade. De fato, mais do que uma mera simplificação, parece constituir uma abordagem sensível na análise da discriminação racial no Brasil.28
Nelson do Valle SILVA (1978: 215)
Por vezes, critica-se não a classificação de cor ou raça do IBGE, mas uma das formas de se empregá-la. Essa se constitui na agregação de pessoas pretas e pardas para a formação de um grande grupo populacional, os negros, majoritário na maior parte das unidades da federação, e a partir de 2006, majoritário na população brasileira. É importante ressaltar que a categoria negra não existe nos levantamentos do IBGE, que não divulga resultados para negros, apenas para pretos e pardos separadamente. São os usuários dos dados que agregam pretos e pardos. Isso é feito nesta pesquisa, e os membros do grupo agregado são chamados negros.
São três as justificativas para a agregação de pretos e pardos em um só grupo populacional. A primeira é o fato de que devido às características do preconceito racial no Brasil, pretos e pardos estão sujeitos à discriminação pelo mesmo motivo, por se distanciarem do ideal de brancura socialmente valorizado. A segunda é a homogeneidade de características socioeconômicas, pois os dois grupos apresentam indicadores semelhantes em várias dimensões (e.g. acesso a serviços básicos, educação, trabalho, saúde, renda). A terceira é a necessidade estatística: o grupo das pessoas que se declaram pretas é relativamente pequeno, o que suscita problemas de inferência para algumas análises, devido ao tamanho menor da amostra.
Todos os autores cujos estudos foram discutidos no Primeiro Capítulo tratavam pretos e pardos (ou negros e mestiços ou mulatos, gente de cor) como um grande grupo populacional que sofria com o preconceito racial dos brancos. E mesmo aqueles que minimizavam ou ignoravam o preconceito racial o faziam. A agregação dos dois grupos pelos clássicos tinha por justificativa teórica, a consideração de que as discriminações, potenciais ou efetivas, sofridas por ambos os grupos seriam da mesma natureza. Ou seja,
28 “…consider blacks and mulattoes are composing a rather homogeneous racial group of “non-whites” does not seem to do much violence to reality. In fact, more than being merely a simplification, it seems to constitute a sensible approach to the analysis of racial discrimination in Brazil.”
é pelo que têm de preto que os pardos são discriminados. Ambas as categorias se distanciam do ideal de brancura, e isso as torna vítimas do preconceito racial.
A segunda justificativa para a agregação é a homogeneidade de características socioeconômicas. A homogeneidade da situação social dos pretos e dos pardos já havia sido notada há muito. Porém, é na década de 1970, quando os pesquisadores começam a trabalhar os dados de surveys em computadores e a produzir suas próprias tabulações, que a prática de apresentar resultados para o grupo de pretos e pardos agregados se estabelece. SOUZA (1971) foi um dos primeiros a adotá-la em sua pesquisa sobre raça e comportamento político, a justificando pela homogeneidade de pretos e pardos.
Àquela época, discutia-se a tese da “válvula de escape do mulato”, que especulava que dadas as características particulares do preconceito racial na América Latina, os mulatos não seriam apenas um grupo racial intermediário entre brancos e pretos, mas também um grupo socioeconômico de status intermediário, ao contrário do que ocorria nos Estados Unidos. A existência de diferenças de situação socioeconômica entre pardos e pretos foi uma das hipóteses principais testadas na tese de Nelson do Valle SILVA (1978), que a rejeitou com base na pouca diferença entre eles. Posteriormente, LOVELL (1992) reexaminou a hipótese de homogeneidade considerando também a dimensão de gênero, concluindo novamente pela homogeneidade de pretos e pardos. TELLES e LIM (1998) e TELLES (2003) questionaram a homogeneidade apontando diferenças entre pretos e pardos. Contudo, são de pequena magnitude frente à distância que separa ambos os grupos dos brancos.
Finalmente, existe a justificativa de ordem estatística para a agregação. Nos grandes levantamentos como a PNAD e os Censos é possível analisar separadamente pretos e pardos, graças às grandes amostras. Porém, em levantamentos de amostra pequena, o grupo dos pretos pode ser representado por um número de casos insuficiente, prejudicando a inferência estatística nas análises multivariadas. Essa é a principal razão alegada por SOUZA (1971) para realizar a agregação. E mesmo em grandes levantamentos, como a PNAD, o fato de os pretos serem o menor dos três grandes grupos de cor pode oferecer problemas a determinados tipos de análise.
A agregação de pretos e pardos tem, portanto, algumas vantagens. Simplifica a análise, pois permite tratar de apenas dois grupos, os brancos e os negros. Como os pretos e os pardos estão sujeitos ao mesmo tipo de discriminação por se distanciarem do ideal de
brancura e são socioeconomicamente parecidos, não se perde informação relevante. A agregação também contorna o problema estatístico que pode apresentar o tratamento separado dos pretos. Tem também a vantagem de dissolver o problema do tipo limítrofe entre o preto e o pardo.
A despeito das vantagens da agregação, a escolha do termo designador do agregado de pretos e pardos não é neutra, e gera bastante debate. Como aponta GUIMARÃES (2002), o movimento negro adotou a estratégia política de se colocar como representante do agregado de pretos e pardos e levar adiante sua caracterização como população negra. Em um só lance passaram a falar por metade da população e a ter como suporte de suas reivindicações vários trabalhos importantes das ciências sociais e as evidências de desigualdade racial por eles desveladas.
Existem duas ordens de críticas ao uso do termo negro para designar o agregado, as de senso comum e as políticas. Críticas de senso comum ao uso do termo negro, como “os pardos não se vêem como negros”, geralmente se assentam sobre um problema de representação. Quando o termo negro é usado para designar o agregado de pretos e pardos se acentua o problema da fronteira entre pardo e branco. A representação do negro, ainda que varie circunstancialmente, aponta para o extremo preto das gradações de cor. Ao se falar em negro, a maior parte das pessoas imagina um preto. Assim, fica difícil para alguns conceber o pardo na fronteira do branco como negro, pois os traços que o relacionam à representação preta do negro estão diluídos.
As críticas de ordem política são várias, mas em geral circulam em torno do argumento de que a afirmação de uma identidade negra se faz em detrimento da afirmação de um Brasil mestiço, e que isso criaria, ou intensificaria, o conflito racial e a crença em raças. Esse é um tema que escapa ao escopo da presente pesquisa, razão pela qual não será debatido aqui.
OLIVEIRA, PORCARO e ARAÚJO (1985: 11) citam uma bibliografia sobre o negro no Brasil, que, contando algumas centenas de trabalhos, mostrava como o termo negro para designar o conjunto de pretos e pardos é extremamente comum na ciência social brasileira. Essa prática foi consagrada por vários intelectuais. A maior parte dos pesquisadores mencionados no Primeiro Capítulo, freqüentemente se referia ao conjunto de pretos e pardos como negros, aludindo à natureza comum da discriminação contra eles. Esta pesquisa não é exceção.