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A República

No documento UM ESTADISTA DO IMPÉRIO (páginas 128-133)

132 UM ESTADISTA DO IMPÉRIO

O ministério era mais moderado, afetava querer viver com a oposição;

chegara a dizer nas Câmaras, ao apresentar-se:

Na luta das legítimas opiniões políticas ou das aspirações de influência, na direção de interesses sociais, a moderação é sempre útil ao Estado, e por isso mesmo a todos. Sem ela é difícil bem reconhecer a verdade, apreciar o que mais convém. O ministério não só concorrerá para isso, mas desejaria mesmo a coadjuvação de todos os brasileiros, sem quebra de suas opiniões conscienciosas. Ele prezará os serviços feitos ao Estado, a honra e os talen-tos, onde quer que estejam ou quaisquer que sejam as ideias políticas.

O sentimento era nobre e elevado, digno de um filósofo político, mas a época não comportava essa espécie de conciliação; os partidos acabavam de extremar-se, o Liberal estava animado do espírito de combate; o Conservador puro via iminente o cataclismo da emancipação; por isso escrevia Nabuco a André Fleury, 22 de outubro: “O ministério de 29 de setembro não agradou nem a gregos nem a troianos, e a razão é de intuição – a época não é mais de conciliação, mas de ação e reação”. Ação e reação – que poder têm sobre o espírito as fórmulas de outra época, por assim dizer os clichés do passado, a síntese de situações bem definidas, em que o político alguma vez se encon-trou! Ação, reação e transação, a fórmula de Justiniano José da Rocha, senão do próprio Nabuco, tem para ele a certeza, a força de uma lei política necessá-ria, como para o positivista a lei dos três Estados. A sociedade entrara em um novo ciclo, como o que acabara de 1853 a 1857 pela conciliação, para produzir uma repetição de fases sucessivas semelhantes; agora era a ação e a reação;

depois – quando? – viria outra vez a transação. Era isso o que pensava, o que

esperava Nabuco. Infelizmente, não se estava reproduzindo a evolução do

começo do reinado. Desde 1868 a reação no governo era dominada pela ação

democrática no país e esta devia, servindo-se, alternadamente, dos dois

par-tidos, abrir uma época de reforma, de agitação, de revolução, que não havia

mais de chegar à transação, e, sim, à dissolução do regime.

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audácia, como decerto ainda não se tinha visto, batendo às suas portas em nome de um direito até então desconhecido: o do povo. Era Silveira Martins.

A figura do tribuno, como depois a do parlamentar, era talhada em formas colossais; não havia nele nada de gracioso, de modesto, de humilde, de pe-queno; tudo era vasto, largo, soberbo, dominador. Na cadeira de juiz, fazendo frente ao ministro da Justiça; nas palestras literárias, pronunciando-se sobre as velhas raízes arianas; nas conferências públicas, fazendo reboar pelas cavernas populares o eco interminável da sua palavra; nos conselhos do par-tido democrático, falando aos chefes tradicionais, aos homens do passado, com a consciência e a autoridade de um conquistador bárbaro ditando a lei à civilização decrépita, indefesa em sua tranquilidade imemorial; nas reda-ções dos jornais amigos, nas confeitarias da rua do Ouvidor, onde durante anos exerceu entre os moços e os exaltados a ditadura da eloquência e da co-ragem, como Gambetta, durante o Império, nos cafés do Quartier Latin; nas rodas de amigos políticos, como Martinho Campos, Octaviano, Teófilo Ottoni;

depois na Câmara dos Deputados, onde sua entrada (legislatura de 1872-1875)

assinala uma época e faz o efeito de um terremoto; no ministério, onde,

inca-paz de representar segundos papéis, mas sem preparação, talvez, suficiente

para tratar negócios, só teve uma ambição: ganhar com a saída o que

per-dera com a entrada, e por isso, ainda mais, como ministro demissionário do

que como membro do gabinete; por último, no Senado, na independência, na

soberba com que, operada a sua transformação conservadora, atrai para si

todos os rancores da democracia, que talvez tenha criado: em todas as

posi-ções que se abateram diante dele para que ele entrasse sem subir, em todos

os papéis que desempenhou, Silveira Martins foi sempre único, diferente de

todos os mais; possante e sólido, súbito e irresistível, natural e insensível,

como uma tromba ou um ciclone. Ele é o seu próprio auditório, sua própria

claque; respira no espaço ilimitado da sua individualidade, da sua satisfação

íntima, dos seus triunfos decretados com justiça por ele mesmo e depois

ho-mologados pela massa obediente, como o gaúcho respira nos Pampas, onde,

no horizonte inteiro, nada vem interceptar, oprimir o seu largo hausto. É, em

uma palavra, uma figura fundida no molde em que a imaginação profética

vasava as suas criações. É o Sansão do Império. Desde logo é preciso contar

com ele, que é, nesse momento, o que em política se chama povo, isto é, as

pequenas parcelas de povo que se ocupam de política. Quando o espírito que

ele encarnou o deixa e vai além animar e suscitar contra ele mesmo outras

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figuras, ele será tão intensamente odiado pela revolução quanto fora antes querido; mas em um tempo, entre 1868 e 1878, foi ele em nossa política o ídolo de tudo que tinha a aspiração republicana, que sentia a emoção, a vi-bração democrática, e, como ídolo, o autocrata. Anos depois ele será, talvez, dos nossos políticos o mais conservador, sem deixar de exercer sobre os que entraram em contato com ele o magnetismo de sua personalidade. Ninguém, entretanto, pode comandar dois grandes movimentos em sentido contrário:

um no sentido da revolução e outro no sentido da autoridade, e assim, apesar de seus grandes esforços, impotente para a reação, o assinalamento da pas-sagem de Silveira Martins na nossa história contemporânea ficará sendo o impulso, o vigor extraordinário que a sua eloquência inflamada, o seu sopro dantoniano, o seu ascendente sobre as multidões, imprimiu ao espírito de revolução no decênio de 1868 a 1878 e que ele em vão se ofereceu depois para reprimir. Dessa ação de sua mocidade ele, porém, não tem que se arrepender.

Em uma sociedade sã e vigorosa, homens como ele, qualquer que fosse a exa-geração de suas primeiras ideias, a prematuridade do seu ideal inconfessado, não teriam feito senão bem; o não ter ele mais tarde podido contrabalançar, com a imparcialidade, a justeza e a elevação da razão de Estado, a que tantas vezes quase sozinho atingiu no Senado, o impulso, o efeito da sua primeira atitude, prova que a política, quando ele apareceu, já levava o rumo da anar-quia, e que sem ele a história das instituições teria sido escrita tal qual foi, apenas com uma poderosa e original figura de menos.

É referindo-se a um dos incidentes que a intervenção de Silveira Martins causava às vezes no partido, que Nabuco escreve a Dantas, em 9 de junho de 1870:

Que os Liberais propriamente não vão até onde atiram os Radicais é também uma verdade. Entre nós há quem queira a monarquia com as re-formas liberais, assim como há quem não queira talvez mais a monarquia, nem com as reformas. É necessário que sobre estes pontos a luz se faça intei-ramente, para que no dia do triunfo não se possa criminar-nos de desleais.

Pela primeira vez, com efeito, em 1870 a ideia republicana figura na luta

dos partidos políticos. As tentativas em nome dessa ideia, feitas no Império

desde a Constituição, não tinham consequência, eram, quando muito, apenas

um perigo de conflito, de perturbação parcial da ordem, não afetavam os

espíritos; tinham a mesma importância, comparadas ao movimento de 1870,

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que as insurreições ocasionais de escravos, comparadas à corrente abolicio-nista de 1871 e 1879. Agora, porém, a aspiração republicana manifestava-se sob a forma de uma desagregação do Partido Liberal, prometendo estender--se um dia ao Conservador. Nabuco, que não vacilou até o fim na questão da monarquia, via com pesar, mais ainda, com tristeza e apreensão, a nova ten-dência dos espíritos. A oposição corria o risco de tornar-se facciosa, atacando a instituição, e para o espírito antimonárquico ele não tinha nenhuma afini-dade nem simpatia. Todas as suas células pensantes, como todas as fibras de seu coração, eram exclusivamente monárquicas; ele não compreendia a ten-dência antimonárquica, como não compreendia a tenten-dência antirreligiosa;

essas tendências podiam, uma como a outra, crescer por alguma atitude ou palavra sua, levada mais longe do que a aplicação que ele lhe dava; mas, nesse sentido, sua responsabilidade era a mesma que a do médico pelo en-venenamento de um doente que tomasse internamente uma droga receitada para uso externo, ou a quem a receita de arsênico ou estricnina sugerisse a ideia de matar-se pelo arsênico ou pela estricnina. Desde 1870, entretanto, ele compreende que está crescendo a corrente republicana no seio do Par-tido Liberal, e com a sua fidelidade e sinceridade de pensador político julga necessário, como vimos, afirmar cada ano a sua fé monárquica, contrapô-la às ilusões da inexperiência.

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A aparição nesse ano de 1870, em 3 de dezembro, de um novo jornal intitulado A República

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é um acontecimento que, se houvesse presciência

110 Ver, no discurso sobre o Voto de Graças de 1871, a referência de Nabuco ao novo Partido Republicano, todo ele composto de homens que o acatavam e lhe rendiam homenagem.

Nota P.

111 Com relação à formação do Partido Republicano e à sua apresentação pela imprensa sob o Ministério São Vicente, é característico da atitude constante do Imperador para com a propaganda o seguinte incidente, referido pelo Dr. Oliveira Borges, em notas que escre-veu a meu pedido sobre o ministério de 29 de setembro:

“Em 1870, quando ministro, logo depois do aparecimento do manifesto republicano, disse o marquês ao Imperador: ‘Senhor, os republicanos publicaram seu manifesto e uma das medidas que o governo imperial deve adotar, por norma invariável, é de não prover nos empregos públicos quem tiver opiniões republicanas. Nem o governo da Inglaterra, com todas as suas garantias de liberdade, admite que sirva em empregos públicos quem tem opiniões republicanas, nem os Estados Unidos, também com suas liberdades, admiti-riam que ocupasse empregos públicos quem tivesse opiniões monárquicas.’ O Imperador redarguiu-lhe: ‘Sr. São Vicente, o país que se governe como entender e dê razão a quem tiver.’ – ‘Senhor’, respondeu o marquês, ‘V. M. não tem direito de pensar por este modo. A Monarquia é um dogma da Constituição que V. M. jurou manter; ela não está encarnada

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em política, eclipsaria todos os outros. Não era uma dessas folhas efême-ras, como tantas tinham aparecido antes, advogando a ideia republicana;

era uma grande folha diária, destinada a ter vasta circulação, com tipogra-fia própria, dentro de pouco tempo, na rua do Ouvidor, e centro das reu-niões do novo partido. O primeiro número publicava o Manifesto, assinado por Saldanha Marinho, Aristides Lobo, Cristiano Ottoni, Flávio Farnese, Lafayette, Rangel Pestana, Henrique Limpo de Abreu, Quintino Bocaiúva, Salvador de Mendonça e outros ainda, que representavam uma importante defecção no Partido Liberal. Para Nabuco, o ato desses correligionários, que assim se atiravam aos azares de uma propaganda trabalhosa, era sincero e respeitável, e ele o lastimava, como um enfraquecimento sensível do verda-deiro liberalismo.

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A república andava no ar, como a forma do desconten-tamento da oposição: “Você nunca dirá uma verdade”, escrevia ele a André Fleury (22 de outubro) “como a que disse a respeito das consequências da república na França. Não é a primeira vez que a França, vencida pelas armas, fica vencedora pelas ideias. Eu, como monarquista que sou, temo muito pelas monarquias.” Sobretudo em nosso país ele conhecia bem a influência, a re-percussão, das revoluções estrangeiras. O fato de se constituir a França em República, com a queda do Império em Sedan, fazia desse ano de 1870 um ano crítico para as instituições brasileiras. 1789, como 1830, como 1848, como a revolução espanhola de 1868, sobretudo pela aparição de Castelar (o qual conquistará para a ideia republicana o espírito e o coração dos moços), foram vibrações que, todas, abalaram a nossa ordem política; a republicanização da França em 1870 acrescentava um terceiro e poderoso foco aos dois outros que atraíam permanentemente o Brasil para a república: a constituição ame-ricana e a adoção da forma republicana por toda a América, com exceção dele somente.

na pessoa de V. M.’ – ‘Ora,’ disse-lhe, rindo-se, o Imperador, ‘se os brasileiros não me qui-serem para seu Imperador, irei ser professor.’”

Num opúsculo meu, Agradecimento aos pernambucanos (1891), à margem desta frase:

“Nada abalava as duas ideias do Imperador: que não se devia tocar na imprensa e que as opiniões republicanas não inabilitavam nenhum cidadão para os cargos que a Constitui-ção fizera só depender do mérito”, ele escreveu: “Assim foi.”

112 “Estamos aqui com o Clube Republicano”, escrevia-me ele (19 de novembro), “o qual, criado por surpresa, todos os dias decai; foi uma grande adversidade para o Partido Li-beral, que assim se vai cada dia desmantelando e desorganizando mais.”

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