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CAPÍTULO VI
Gabinete Itaboraí (1868-1870)
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houvesse um ministério que inspirasse confiança ao general, de modo que o general era antes político do que militar! Era preciso que as finanças do país se compusessem e melhorassem.
Como Deus é grande, senhores, castigando a soberba, vanitas vanita-tum et omnia vanitas! Sacrificou-se, senhores, a dois homens necessários, seculares, uma política, uma situação, uma maioria! Complicou-se o estado de guerra com uma reação profunda no país, reação que podia dar em uma guerra civil se não fosse a prudência do Partido Liberal. Foram repelidos os liberais, por incapazes, não havendo entre eles um guerreiro, um finan-ceiro. Entretanto, senhores, a guerra continuou; o general, por quem se sa-crificou a política, deixou a guerra, que é feita por outro que nada exige, que nada impõe. As finanças do país continuam da mesma maneira. Nem pode deixar de ser assim, porque no estado de guerra não se melhoram finanças.
E o que é pior em tudo isto, senhores, é que se deixa entrever no fundo do quadro a caudilhagem, fatal ao sistema representativo; porque a caudilha-gem não é senão a decadência dos partidos; não é senão o princípio do Baixo Império. E senão, vede a Espanha: da decadência dos partidos resultou a caudilhagem; daí os pronunciamentos militares, e daí a revolução.
Faz esta referência a Itaboraí:
Permita-me V. Exa., Sr. presidente, que eu diga alguma coisa em relação à organização do gabinete. Foi chamado o nobre Sr. visconde de Itaboraí, nome venerando, notável por sua probidade incontestável, por sua inteli-gência, por seus longos e valiosos serviços; mas, senhores, o nome de S. Exa.
está associado a toda a reação contra a liberdade desde 1837; foi de um dos que nos deu e manteve estas leis reacionárias que, no sentir dos brasileiros, desnaturalizam e desmentem a nossa forma de governo. Todavia, senhores, havia quem esperasse que o nobre Sr. visconde de Itaboraí, amestrado pela experiência, tendo militado na oposição com alguns liberais, se despren-desse deste exclusivismo que mata a nossa terra e empreendespren-desse uma orga-nização com política larga.
O Sr. F. Octaviano: – O que aconselhava a guerra, segundo disse o Sr.
Paranhos.
O Sr. Nabuco: – Esperava-se que ele imitasse, nestas circunstâncias, o seu falecido amigo, o marquês de Paraná. E notai que nestas circunstâncias o nome do Sr. visconde de Itaboraí não podia servir de garantia aos liberais, porque S. Exa. se ocupa exclusivamente das finanças e deixa à revelia a po-lítica; porque S. Exa., faço-lhe justiça, entende pouco da pequena política,
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que mata a grande política, e é facilmente iludido; é um caráter moderado, mas não tem vontade forte para impor aos seus, o que era condição essencial para dominar esta situação.
Inicia com esse discurso o que será, desde então, a sua delenda Carthago, a emancipação dos escravos:
Não posso deixar de falar em uma omissão que vejo no discurso da Coroa, relativa à emancipação dos escravos no Brasil. Se ainda a Coroa não tivesse tratado deste negócio, não tínhamos direito de exigir que o minis-tério o incluísse no discurso da Coroa; mas houve dois discursos da Coroa em dois anos sucessivos tratando da emancipação; havia como que um com-promisso aos olhos dos países civilizados, uma espécie de sucessão moral, que todos os ministérios devem guardar, a menos que não seja contrária a sua opinião. São os nobres ministros de opinião contrária! Nada quererão fazer? Digam francamente. Mas podeis resistir? Tendes força para resistir à pressão do mundo civilizado, que nos olha e estranha como único país cristão onde existe a escravidão?
O discurso tinha ainda um tom inflamado, um agouro de revolução, como o Manifesto:
Quanto a mim felicito ao Partido Conservador, gaude de bona fortuna, como diz o poeta satírico; vivei longos anos, porque certamente o Partido Liberal não pode querer o poder senão com as condições que estão inscritas no seu programa; é compromisso que ele tomou aos olhos do país. A vossa satisfação não me admira, porque os livros santos dizem que há tempo de rir e há tempo de chorar, e diz a história política que há tempo em que o povo vê indiferente os seus parlamentares caminharem para o exílio, como há tempo em que o povo, como acordando do letargo, arrasa as bastilhas e o despotismo que elas significam.93
93 Com o título Dois homens, dois princípios, Octaviano escreve um editorial na Reforma confrontando o discurso de Nabuco e o de Saião Lobato, que lhe responde: “Se toda a nação estivesse ontem reunida em torno dos dois contendores, a abdicação da ditadura era infalível... Os dogmas liberais têm aspereza, é verdade, mas essa aspereza é o único meio de salvar a monarquia. A cortesania dos princípios conservadores, sincera ou fin-gida, é um anacronismo fatal: faz convergir para o Imperador os olhos do povo, quando este procura responsáveis para as situações angustiosas. A antiga monarquia envolvia--se na nuvem do direito divino. A monarquia constitucional só tem o escudo da respon-sabilidade dos ministros.”
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Itaboraí responde a esse discurso com vivacidade e até com acrimônia;
esquece o respeito que sempre mereceu a Nabuco desde que este estreara no Parlamento. Da réplica, ver-se-á a retaliação do presidente do Conselho, e o modo por que Nabuco a aparou. Não podia estar na intenção dele ofender a Itaboraí com a análise que fizera das suas qualidades e deficiências para o que chamou a pequena política; atacado, porém, defende o seu passado e traça deste modo o quadro da sua suposta versatilidade (sessão de 3 de agosto):
“Houve na opinião do nobre senador” (continuou o nobre presiden-te do Conselho referindo-se a mim) “grande erro em chamar para presi-dente do Conselho um homem que não sabe praticar a grande política.”
Sr. presidente, eu não disse isto; o que disse foi o seguinte: “Notai que o nome do Sr. visconde de Itaboraí não podia servir de garantia aos liberais, porque S. Exa. se ocupa exclusivamente das finanças e deixa à revelia a polí-tica; porque S. Exa., faço-lhe justiça, entende pouco da pequena política que mata a grande política.” Já vê o Senado que o nobre presidente do Conselho virou às avessas o que eu tinha dito, para ter o gosto de me dirigir as ameni-dades que vou recordar ao Senado (lê): “Concorda que não estava no caso de desempenhar a difícil tarefa que lhe foi incumbida; mas não creia o nobre senador que tenha muita pena de não saber praticar a grande política, se ela consiste, como lhe parece, em saber inventar frases cabalísticas, aforismos sem sentido e teorias de ocasião para justificar certas evoluções políticas que são logo abandonadas.” Mas, Sr. presidente, quais são as frases cabalís-ticas, os aforismos sem sentido, se é que há aforismos sem sentido, qual esta política de ocasião, para pretextar evoluções políticas que são logo abando-nadas? O nobre presidente do Conselho, tão distinto pela sua lealdade, não quis dizer quais eram essas frases, esses aforismos, essa política de ocasião, essas evoluções políticas. Já vê o Senado que o vago das expressões dá cará-ter de injúria à alusão: pois bem, eu a entrego à consideração do Senado; ele que julgue se o que eu disse merecia a resposta desabrida do nobre senador.
Eu sou o primeiro a reconhecer a minha incapacidade; posto que com os produtos dela auxiliei muito o ministério de que fez parte o nobre pre-sidente do Conselho em 1850. Mas dou de mão ao que diz respeito à minha capacidade, para tratar do que diz respeito à versatilidade do meu caráter
Dantas escreve a Nabuco: “Não exagero, porque diversos amigos daí escreveram-me, tais como o Saraiva, Pompeu, Paranaguá, dizendo que na tribuna do Senado nunca se falou melhor nem se obteve maior triunfo.” Esse discurso de 17 de junho foi publicado em opúsculo na Bahia, com o título Reformas, precedido de uma introdução de Leão Veloso.
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político; neste terreno tenho grande satisfação, porque estou à sombra, em companhia de muitos caracteres ilustres que têm figurado comigo nessas evoluções.
Quais são, senhores, essas evoluções políticas? Não me lembra que te-nha feito senão uma mudança política; deixei de ser conservador desde 1853, o Senado sabe as razões por que deixei de ser conservador; elas constam de muitos discursos meus. Deixei de ser conservador porque entendi que, ten-do cessaten-do a agressão material contra a sociedade, devia cessar a defesa, e não tinha mais razão de ser a política de resistência que caracterizava prin-cipalmente o Partido Conservador; entendi que era tempo de parar as rea-ções contra a liberdade, cessando as leis de ocasião e de exceção. Desde esse tempo até hoje, cada vez me confirmo mais em uma ideia, e é que o homem de Estado, o homem político, em vez de arrostar a torrente da democracia, que na linguagem de Royer-Collard transborda e assoberba todas as altu-ras, deve tratar de dirigi-la para que não seja fatal ao país.
Sabe o Senado que não passei rapidamente do Partido Conservador para o Partido Liberal; caminhei lentamente, sempre com esta condição que se vê em todos os meus discursos: “Legitimai-vos pelas ideias”. Eram as ideias a condição e o vínculo de minha adesão. Pois bem, senhores, esta con-dição está preenchida com o programa do Partido Liberal; no dia 16 de ju-lho tomei o posto que me indicaram o meu patriotismo e a minha consciên-cia, para salvar o sistema representativo no meu país, e o sol de 16 de julho estava no zênite e não no ocaso.
Ora, já vê o Senado que de 1853 para 1868 decorreram quinze anos; foi uma longa transformação, e durante este tempo não fui tido como conserva-dor, não concorri aos seus clubes, aos seus grêmios; mas fui hostilizado até como eleitor de paróquia, e a eleição de senador, eu a devo, pela maior parte, aos amigos com os quais me acho. Ora, tendo novas ideias e convicções con-trárias, por que havia de ficar adstrito aos mesmos homens, ao mesmo par-tido? Pertencer a um partido é o mesmo que ser servo da gleba?
É notável, senhores, este fato; passa um liberal para os conservadores, ninguém inquire a legitimidade da sua transição, é logo elevado à categoria de chefe, ao posto de ministro; entretanto passa um conservador para libe-ral, e todos os dias é esta recriminação que não interessa à causa pública.
(O Sr. Saraiva: – E não foi só um que passou, foi um exército) E bem diz o nobre senador: não passei isoladamente; passei com muitos amigos, todos penetrados de convicções e do desejo de servir ao país.
Sr. presidente, lembro-me que um dos luzeiros do Partido Conserva-dor, o finado senador Vasconcelos, acusado de versatilidade política, assim
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se exprimia: “A sociedade varia; o vento das tempestades não é sempre o mesmo, e como há de o político, cego e imutável, servir ao seu país?...”94