No seu discurso, de 12 de setembro, Octaviano, que sempre se sentiu in-clinado a fazer justiça, a honrar serviços esquecidos, distribuirá assim as diversas coroas dessa campanha.
Todos [disse ele] os que concorreram para o bem do seu país são dignos de louvor. Ao nobre senador pela província da Bahia [Zacarias], chefe do ga-binete de 1867, não se pode recusar que teve a coragem do homem de Estado, chamando à discussão pública as ideias emancipadoras e provocando no país esse movimento que hoje se vai assinalar por um ato legislativo.
É, posso dizer, a corona obsidionalis, em sentido inverso: não por ter
li-bertado um exército sitiado, mas por ter fechado o sítio da praça inimiga.
Capítulo VIII – Ascensão de Rio Branco. A lei de emancipação 171
Ao seu nobre colega o Sr. Nabuco de Araújo também é indisputável a glória pelo zelo com que no Conselho de Estado, na correspondência com os fazendeiros,136 e na tribuna, por meio de eloquentes discursos, fez amadu-recer as ideias e tomarem proporções de vontade nacional.
É a coroa de folhas de oliveira, dada àqueles que tinham contribuído para se obter o triunfo.
Ao Sr. senador por Goiás [Jequitinhonha tinha falecido em 1870, sem o quê Octaviano o não teria omitido nessa referência a Silveira da Mota]
não se pode negar que ousou propor medidas emancipadoras, quando era mesmo crime pensar em tais matérias.
É a corona vallaris, a do soldado que primeiro penetra no acampamento inimigo.
Mas é justiça confessar que cabe também ao atual presidente do Conse-lho uma boa parte de glória por ter ouvido a vontade da nação e procurado satisfazê-la, expondo-se à má vontade dos seus próprios correligionários.
É a laurea insignis.
137Faltam nessa distribuição muitos dos que não podem deixar de figurar no quadro da lei de 28 de setembro, outro esboço pelo menos pode ser ofe-recido, alterando-se os planos e algumas das proporções, e desenhando-se outras figuras. No fundo do quadro, por que não colocar o grupo dos pre-cursores, desde antes da Independência, os que primeiro lançaram as se-mentes, das quais não caiu uma só em rocha estéril – todas, absolutamente todas, germinando em outros espíritos e corações? Assim, são as ideias de
136 “(...) Olhando para o Sul lembro que da província de São Paulo os fazendeiros de mais de um município agrícola, ainda em frente das resistências do gabinete de 16 de julho, já se entendiam com o Sr. conselheiro Nabuco, apóstolo da emancipação, para combinarem um sistema de libertação gradual dos escravos.” (Mesmo discurso)
137 Octaviano concluía assim a sua referência a Rio Branco: “Um escritor contemporâneo, examinando com imparcialidade a história da reforma das leis dos cereais na Inglaterra, depois de confessar que ao ilustre Cobden e seus amigos se devia o progresso da razão pública em semelhante assunto, acrescenta: Mas nem por isso é menor o serviço prestado por Sir Robert Peel, tomando a si a difícil e espinhosa tarefa de lutar com seus amigos para aceitarem a reforma liberal. Se não fora o seu concurso, a reforma se faria, é verdade, porém mais tarde, com maior azedume, talvez com maiores exigências, e seguramente com o ve-xame e aniquilamento do Partido Conservador, partido essencial no mecanismo das insti-tuições democráticas.”
172 UM ESTADISTA DO IMPÉRIO
Wilberforce e de Buxton
138que movem a imaginação e o sentimento de José Bonifácio; as palavras de José Bonifácio são ecoadas por César Burlamaque em 1837; as sementes, novamente lançadas por este, germinam na consciên-cia jurídica de Caetano Alberto Soares (1845), e não morrem no Instituto dos Advogados, passam dele para Perdigão Malheiro (1863);
139ao mesmo tempo quase Montezuma (Jequitinhonha) e Silveira da Mota surgem no Senado e Tavares Bastos na imprensa: o primeiro, franco abolicionista, pode-se dizer, imediato; o segundo, humanitário, filantropo, procurando aliviar a sorte do escravo, constituir-lhe a família; o terceiro, liberal, economista, pregando as vantagens do trabalho livre. Entre esse grupo de precursores, preparadores
138 “Hoje em dia que os Wilberforces e Buxtons trovejam de novo no Parlamento a favor da emancipação progressiva dos escravos, agitam-se outra vez os inimigos da humanidade como outrora, mas espero da justiça e da generosidade do povo inglês que se conseguirá a emancipação, como já se conseguiu a abolição de tão infame tráfico. E por que os bra-sileiros somente hão de ficar surdos aos gritos da razão...? Eu também sou cristão e filan-tropo...” (Representação, 1823)
139 Por uma fatalidade, como com Zacarias, Perdigão Malheiro, que fora o doutrinador, o mestre da abolição, votará na Câmara em 1871 contra a reforma de que preparara o caminho, e procurará fazer crer à Anti-Slavery Society que nessa questão fora ele o aboli-cionista intransigente e o governo o sustentador da escravidão. Não há, porém, que levar em conta, na vida dos homens que foram os instrumentos de uma ideia, as aberrações, as incoerências que a não puderam frustrar. Votando contra a lei de 28 de setembro, Perdigão Malheiro foi apenas um voto perdido; publicando a sua grande obra, ele fora um iniciador, um criador, o autor de um movimento que nada podia mais deter.
O emérito jornalista conservador conselheiro Azevedo Castro, no prefácio à edição das Consultas de Perdigão Malheiro (B. L. Garnier, 1884), reivindica a pureza dos motivos de Perdigão Malheiro nessa contingência, e traça um belo perfil da sua têmpera e caráter.
Não há, porém, dúvida sobre a volta inteira que fez em 1871 o autor da Escravidão no Brasil. Talvez à concentração, à continuada tensão de espírito, enquanto arquitetava o seu livro, se tivesse seguido o cansaço da obsessão intelectual. Dão-se ironias assim no mundo moral, desses casos de apatia causada pela própria realização de uma aspira-ção da vida. É a fadiga dos grandes artistas, o seu tédio da obra-prima, que durante a execução lhe sorria cada dia com um encanto e sedução diferente. Segundo toda pro-babilidade, Perdigão Malheiro não foi, como se disse, um despeitado pela recusa, que lhe segredaram, do Imperador, quando o seu nome foi proposto para uma pasta; era um organismo embotado, consumido pela empresa que concluíra. Além dessa esterilização, desse enxugo da imaginação pela obra, houve talvez o ciúme do apaixonado solitário, quando viu, no dia da fortuna, o tropel da multidão banal e adventícia, que só coroa o sucesso. Supondo mesmo uma deficiência moral quando a causa estava vencedora, ela não diminui a importância do seu papel nos tempos da proscrição. A parábola dos tra-balhadores nos ensina que o trabalhador da undécima hora pode com justiça receber o mesmo salário que o que trabalhou desde o romper do dia; não nos diz se o que à última hora abandonou o serviço pode receber o salário por inteiro, mas que o serviço subsiste e que ele foi um benfeitor, é fora de dúvida.
Capítulo VIII – Ascensão de Rio Branco. A lei de emancipação 173
do caminho, semeadores da ideia – ao qual haveria que acrescentar outros nomes, como o de Silva Guimarães (Pedro Pereira), e os do grupo de 1871 – deve-se colocar o presidente do Conselho do gabinete de 3 de agosto, Zacarias, que primeiro inscreveu a reforma numa Fala do Trono; que a anunciou à civilização como uma certeza moral dependente só de tempo e oportunidade;
que desenvolveu o maior zelo em fazer elaborar o projeto de lei, que depois foi votado, mas que no Senado foi o mais sério adversário que Rio Branco encontrou.
No primeiro plano do grupo propriamente dito de 1871, a figura central, sobre cuja cabeça a Vitória sustenta a coroa de ouro, como nos triunfos anti-gos, não deve ser Rio Branco, mas D. Pedro II. Este nome, durante o reinado, a ficção constitucional mandava calar, mas a ficção já preencheu o seu fim, e a história, que não respeita ficções, há de reconhecer nele o principal im-pulsor e o principal sustentáculo da reforma de 1871, levada a efeito exclu-sivamente por força derivada dele e a princípio transmitida por ele.
140Têm--se feito diversas tentativas para escrever a história do Reinado atribuindo a glória dos fastos nacionais aos ministros, e ao Imperador somente a respon-sabilidade do mal. Isso, porém, é história ad usum; é história passada pela peneira dos preconceitos de partido ou de seita filosófica.
141Segundo essa nova censura, a emancipação é Rio Branco, a extinção do tráfico é Eusébio de Queirós, e D. Pedro II é a escravidão. Assim também José Bonifácio é a In-dependência, e D. Pedro I o infeliz acidente monárquico que a desvirtuou.
A verdade é que tanto a abolição do tráfico, como a liberdade dos nascituros, foi o resultado da ação perseverante e paciente do Imperador, vencendo re-sistências naturais, sociais e políticas, até encontrar, no momento oportuno, o homem para realizar a ideia pela qual ele então sacrificaria o trono. Isto
140 Por vezes, tenho expressado esse sentimento. Assim em 1891, no Jornal do Brasil, referindo-me ao sistema de exaltar Rio Branco e Eusébio Queirós para deprimir a D. Pedro II: “Esses grandes ministros da monarquia desprezariam esse gênero pérfido de celebridade apócrifa. Ninguém melhor do que eles sabia que eles não converteram nem convenceram ao Imperador, e que, pelo contrário, foi quase exclusivamente a vontade conhecida de Sua Majestade que venceu a resistência do partido a que eles pertenciam, e lhe impôs, por eles, a ousada iniciativa de que foram os admiráveis instrumentos.”
141 É ao positivismo que se deve principalmente entre nós essa criação deliberada de legen-das. Até então a história, se sempre influenciada pelo espírito de partido, nunca estivera sujeita ao espírito de seita; pelo menos, de modo assim sistemático, nunca se tinha feito dela meio de governo. O tipo perfeito desse gênero é a Biografia de Benjamin Constant publicada pelo Centro Positivista (Teixeira Mendes).
174 UM ESTADISTA DO IMPÉRIO
não diminui o mérito desses homens: uma grande reforma, que destruía um estado social secular, como era a escravidão, não podia quebrar a linha ou deixar de acompanhar o ritmo do reinado. Rio Branco é uma grande figura;
é sua, realmente, a glória que no sistema parlamentar compete ao estadista que assume a responsabilidade de uma grande política, superiormente a de-fende, e habilmente a faz triunfar; mas se Rio Branco teve a coragem e a reso-lução de Sir Robert Peel, é preciso não esquecer que na Inglaterra o primeiro--ministro se apoia quase somente no Parlamento e nos partidos, e que no Brasil se apoiava principalmente no soberano; que a maior parte da força, da confiança, da resolução que Rio Branco mostrou, lhe veio, não da Câmara e da opinião, mas da firmeza, da fé, da intuição nacional do monarca. Ele es-tava entre o primeiro-ministro inglês, que só depende da Câmara, e o chan-celer alemão, que só depende da Coroa, e por isso o seu nome só eclipsaria o de D. Pedro II nessa questão como o de Bismarck eclipsa o de Guilherme I, como o de Pombal eclipsa o de D. José, se a reforma fosse inspiração, mo-vimento, política sua, insuflada ou imposta ao monarca; ou de outro modo, como o de Sir Robert Peel eclipsa o da rainha Vitória na questão dos cereais, se ele se tivesse medido com o seu partido e com o Parlamento, sem a superio-ridade que dava ao governo em nossas câmaras o mandato ostensivo do Im-perador, o decreto em branco da dissolução. O ImIm-perador, quanto à lei de 28 de setembro, não tem na sua fé de ofício somente essa delegação a Rio Branco, a mesma que a São Vicente, e delegação, pela primeira vez no reinado, para o tempo que durasse sua ausência no estrangeiro, onde ele não podia, quase, receber sem humilhação a notícia do naufrágio da reforma; tem a sua inicia-tiva: de 1866, primeiro, quando fala em vão ao marquês de Olinda, mas desde logo, nesse mesmo gabinete, conquista a adesão de Nabuco, Saraiva, Paula Souza, e depois quando redige a resposta, a formal promessa aos abolicionis-tas franceses, e de 1867, porque só ele teria feito Zacarias aceitar e submeter a estudos no Conselho de Estado os projetos de emancipação de um adversá-rio político, como São Vicente; tem o zelo infatigável, a ansiedade, a resolu-ção que mostrou em 1867 e em 1868, tratando-se da elaboraresolu-ção do projeto de-finitivo, dos trabalhos da Comissão Nabuco, das discussões no Conselho de Estado, onde os que mais olhavam para ele na vida pública, como Paranhos, puderam conhecer desde logo o empenho, a energia, a perseverança com que entrava nessa campanha e o desagrado que lhe causariam, contrariando-a;
tem, por fim, a insistência com Itaboraí, desde que acaba a guerra; a
anima-Capítulo VIII – Ascensão de Rio Branco. A lei de emancipação 175
ção aos deputados que querem mover-se nessa questão; a inteligência com São Vicente de que ele seria o sucessor de Itaboraí para realizar a reforma;
a demissão de Itaboraí, em consequência do aditivo Nabuco criando o fundo de emancipação; a formação do gabinete São Vicente com esse programa; a carta branca que lhe dá para reorganizar o ministério, a instância com Bom Retiro e Rio Branco mesmo para auxiliarem a São Vicente nessa empresa, a substituição de São Vicente pelo visconde do Rio Branco com o mesmo pen-samento, o mesmo compromisso; por último, tem a regência de sua filha para deixar-lhe, como prefácio do futuro Reinado, a mais bela página do seu.
Nesses anos de 1866 – pode-se dizer de 1865, porque a ideia da emanci-pação deve ter começado a agitá-lo desde a sua volta do Rio Grande, deve ter sido nele uma sugestão da guerra, da primeira injúria que se nos atirava e ao nosso exército, de país de escravos – nesses anos de 1866 a 1871, só um mo-mento se pôde pensar que o Imperador abandonava a ideia da emancipação;
foi quando, em 1868, ele demitiu Zacarias, comprometido a promover a
re-forma, e chamou Itaboraí, que lhe era infenso. Mas ainda aí, nesse passo, ele
não se desviou do seu caminho senão aparentemente: no Conselho de Estado
vencera-se que só se trataria da emancipação depois de acabada a guerra, e
assim, quanto mais depressa acabasse a guerra, mais cedo se podia
empreen-der a reforma; a ideia do Imperador preferindo Caxias a Zacarias foi, antes
de tudo, apressar a terminação da guerra. Nesse momento ele não pensou
tal-vez na emancipação, mas, se pensou, foi uma razão de mais, a seu ver, para
seguir exatamente o mesmo rumo político. Já vimos nesse ponto a sua
de-fesa, quando o presente escritor mesmo formulou essa acusação contra ele de
ter retrocedido: retrocedeu para chegar mais depressa; sacrificou a Zacarias
para conservar Caxias; conservou Caxias “pelo desejo de terminar a guerra
com a maior honra e proveito em relação às nossas relações externas” – são
as suas palavras. Terminava a guerra, não só porque esse era o seu primeiro
empenho, como para poder tratar do segundo, que era a emancipação dos
es-cravos. É nas suas mãos que está a chave da nossa política; é ele quem traça
o roteiro da emancipação, servindo-se ora de um, ora de outro partido,
cap-tando, para a ideia que tem a peito, o ardor dos que lhe podem servir de
após-tolos, como a tolerância, e depois o concurso dos que, por um primeiro
mo-vimento, a rejeitam; é ele quem emprega primeiro os liberais e depois os
conservadores; quem anima, quem não vê dificuldades, quem se não deixa
aterrar, nem demover; por último, mas acima de tudo, é ele só o refém; é seu
176 UM ESTADISTA DO IMPÉRIO
o maior interesse que está em causa: o trono, que ele expõe, sem medo, nesse grande pleito de humanidade.
Logo após, é o lugar de Rio Branco, o lugar-tenente do Imperador, o primeiro-ministro que dentro das formas constitucionais, sem violência às tradições aceitas, à independência do Parlamento, sem ameaças de dissolu-ção, teve a fortuna de converter em lei, com o menor abalo social e a menor resistência possível, uma reforma dessa natureza. Nos Estados Unidos dir--se-ia dele que havia evitado uma guerra civil; em São Domingos que havia evitado uma guerra de raças. No Brasil, ele evitou uma dissolução da Câmara dos Deputados e uma eleição, como a do Ministério Dantas em 1884, no ter-reno da escravidão. Fora de toda questão, foi ele que resolveu o problema da emancipação gradual sem atritos nem resistências. O projeto de São Vicente teria enfurecido os proprietários; o projeto de Nabuco ou do Conselho de Estado ter-lhes-ia parecido igualmente espoliador (apesar de que foi exata-mente o que veio a acontecer: na execução, na realidade, o projeto Rio Branco ficou reduzido ao projeto Nabuco, a opção do senhor será letra morta); o pro-jeto Teixeira Júnior, por outro lado, teria levantado menor oposição entre os proprietários, que ele conciliava ainda mais do que o de Rio Branco, mas entre os emancipadores, a começar pelo Imperador, teria sido recebido como uma verdadeira manutenção da escravidão. Combinando o projeto do Conse-lho de Estado e o da Câmara dos Deputados, Rio Branco conseguiu um misto que os partidários da emancipação não julgaram dever recusar, por acharem nele as principais medidas que reclamavam, e que ao mesmo tempo tirava à libertação forçada das futuras gerações o aspecto carregado e sombrio que pudesse ter para os senhores.
O que Rio Branco faz em 1871 é adormecer a escravidão mediante a promessa de um título de 600$ por criança de oito anos que ela não qui-sesse conservar, e assim arrancar-lhe a liberdade legal dos nascituros, levá--la a renunciar ao seu princípio de renovação, de perpetuidade, o que equi-valia a dizer, de vida: ele, de algum modo, a ilude para penetrar nos seus domínios e não encara o Cérbero à moda de Hércules, não o subjuga e ar-rasta vencido para fora do Hades; adormece-o, à maneira de Orfeu, ou me-lhor, distrai-o, corrompe-o, atirando-lhe, como Eneias, o bolo da sibila, a apó-lice – Três Barras, ou Teixeira Júnior.
Se o primeiro lugar é do Imperador e o segundo de Rio Branco, dois
ho-mens devem figurar logo depois, ao lado um do outro: São Vicente e Nabuco.
Capítulo VIII – Ascensão de Rio Branco. A lei de emancipação 177
São Vicente em 1866 redige e entrega ao Imperador os primeiros projetos de emancipação; tem assim a iniciativa dos primeiros trabalhos da lei, talvez da oportunidade da ideia, talvez do modo de levá-la a efeito – a libertação do ventre –, talvez de ter passado a sua convicção ao Imperador (o que lhe deve-ria ser contado como um título primordial; quanto a mim, foi o Imperador que inspirou a Pimenta Bueno, e não Pimenta Bueno a ele); em 1867 e 1868, no Conselho de Estado, mantém-se firme; apesar de já não ser seu o projeto em discussão, mas de Nabuco, a emulação não se manifesta por um só mo-vimento ou palavra; em 1869, pressentem-se na sombra os seus passos; em 1870, é ele o centro da propaganda, do proselitismo que se faz entre os rising men da Câmara, do pronunciamento contra Itaboraí, que o Partido Conserva-dor não teria sacrificado, se não lhe visse o substituto, preferido pelo Impe-rador e encarregado da reforma que ele não queria realizar; depois, no seu ministério, assinala o seu propósito, o seu compromisso, e, quando não pode vencer as dificuldades internas do gabinete, colabora com o Imperador na es-colha do seu sucessor, faz vir a Rio Branco de Buenos Aires para entregar-lhe o poder; por último, em 1871, durante a discussão da lei, é ele quem sustenta o presidente do Conselho perante os conservadores, quem na reunião dos adversários do gabinete, que procuravam a reunião do partido, mostra-se in-transigente, quem mata qualquer veleidade de harmonia à custa do projeto.
Nabuco, por sua vez, desde 1866, quando São Vicente apresenta os seus projetos, simultaneamente, se não antes ,
142como ministro, pronuncia-se pela emancipação, é de parecer que o gabinete anuncie a reforma para depois de acabada a guerra; em 1867 e 1868 é, no Conselho de Estado, o líder da discussão, o redator, o relator do projeto que substitui os de Pimenta Bueno, e que, como se viu, foi a verdadeira minuta da lei de 28 de setembro; de 1868 a 1871 torna-se ele o principal propagandista da reforma, faz dela no Senado a sua preocupação constante, sua exigência única; põe-na na ordem do dia do Centro Liberal, no programa do partido de que é chefe, insiste por ela com o Imperador, com o Partido Conservador, em cada discurso, em cada palavra que escreve; na frase citada de Octaviano, é ele, nessa época de 1867 a 1871, quem, “no Conselho de Estado, na correspondência com os fazendeiros e na tribuna, por meio de eloquentes discursos, faz amadurecer a ideia e tomar proporções de vontade nacional”. Durante esses cinco anos o
142 Comparar à p. 230 do volume 3 (Livro Quarto, cap. IV – Reformas e projetos ministeriais) o projeto Paula Souza.
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