DA HISTÓRIA
6 A repressão da aristocracia e a marcha da liberdade
Se, para Madame de Staél, “a aristocracia é melhor” do que a monarquia absoluta,59 para Hegel, ao contrário, “o ordenamento aristocrático é o pior” (Ph. G., 698). E evidente o distam iamento do filósofo em relação à tradição liberal e a Montesquieu (o teórico, segundo Marx, da “monarquia aristocrata-constitucional”).60 Faz- nos, eventualmente, pensar em Rousseau, também de opinião de que “a aristocracia é o pior entre os poderes soberanos”.61 Seja
como for, é nesse quadro que é preciso inserir o juízo fortemente crítico que, ao contrário de Montesquieu, Hegel formula acerca da Inglaterra. O fato é que o desenvolvimento histórico desse país se diferencia nitidamente do da França (que constitui, no caso, o mo delo de Hegel): aqui a liberdade política e a igualdade dos direitos dos citoyens, sancionadas pela revolução, intervêm depois que o ab solutismo monárquico, suprimindo em larga medida o excessivo poder e os privilégios nobiliárquicos, já tinha desempenhado uma função niveladora e, em certa medida, emancipadora. Na Ingla terra, ao contrário, a liberdade, ou melhor, as liberdades, se afir mam na onda da luta da aristocracia contra a Coroa. Hegel submete a uma precisa confrontação o desenvolvimento dos dois países: “De particular importância é o fato de que o rei de França ti vesse declarado que os servos da gleba, nos domínios da Coroa, podiam resgatar a si mesmos e a suas terras por baixo preço”. En quanto na França a existência de um forte poder central permitia que se alcançassem tais resultados e que fosse assegurada uma con dição de “tranqüilidade pública” mediante um duro golpe na “anarquia” feudal, na Inglaterra “os barões obrigaram o rei ]oão a jurar a Magna Charta, o fundamento da liberdade inglesa, isto é, sobretudo os privilégios da nobreza” (Ph. G., 865-6).
A respeito da Magna Charta, que constituía o ponto de referên cia da tradição liberal, a avaliação de Hegel é constantemente nega tiva: “Os barões da Inglaterra conseguiram do rei, com a força, a
Magna Charta, mas os cidadãos nada adquiriram com ela, e perma neceram na sua antiga condição” (Ph. G., 902). A legislação inglesa (declara ainda o ensaio sobre a Reformbill - “está fundada intei ramente sobre direitos, liberdades e privilégios particulares que soberanos e parlamentos conferiram, venderam, doaram (ou que lhes foram extorquidos) em circunstâncias particulares: a Magna
Charta, o Bill o f Rights ... são concessões extorquidas com a força, graciosos dons, pacta etc., e os direitos constitucionais permanece ram vinculados à forma privatista que tinham na origem...” (B. Schr., 468-9). É uma análise que podemos reencontrar em Burke, com juízo de valor invertido: “È impossível não observar como, desde a Magna Charta até a Declaração dos direitos, tenha sido a po lítica uniforme da nossa constituição erigir e afirmar a nossa líber
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dade como herança inalienável que nos foi transmitida pelos nossos antepassados, e transmissível à nossa posteridade...”.62 E exatamente a forma privatista denunciada por Hegel, cujo juízo de valor é idêntico àquele expresso pelos revolucionários adversários de Burke. Assim, por exemplo, Thomas Paine fala com desprezo da “assim chamada Magna Charta" e depois acrescenta: “Conside remos agora o ato designado Carta dos direitos. O que é isso, a não ser um contrato estipulado entre as partes do governo para dividir- se os poderes, os lucros e os privilégios?”.63
Para Hegel, o fio condutor da história moderna e do progresso da liberdade consiste no “processo de submissão da aristocracia” (Ph. G., 902). E a leitura que é feita da história moderna não gra vita, como em certos esquemas liberais, ao redor da oposição poder monárquico-liberdade do indivíduo, com o ocultamento, por tanto, dos reais sujeitos político-sociais envolvidos na luta. Com muito maior realismo e senso histórico, mais que da Coroa, Hegel fala de aristocracia (os barões e a nobreza), de um lado, e “povo” (que coincide, na prática, com o terceiro Estado), de outro, e do an tagonismo entre essas duas classes. A contradição não é tanto liberdade e autoridade, pois há também uma “liberdade dos ba rões” (Freiheit der Barone), que comporta a “absoluta servidão”
(absolute Knechtschaft) da “nação” (Nation; note-se o termo que faz pensar na comunidade dos citoyens invocada e celebrada pela Revo lução Francesa) e que impede a “libertação dos servos da gleba” (Befreiung der Hörigen; Ph. G., 902-3), ou seja, perpetua uma condição que, para Hegel, é substancialmente comparável àquela do escravo (Rf>k., § 66 A). “Liberdade” [Freiheit] e servidão-escravi- dão [Knechtschaft] não se excluem reciprocamente, como na tradi ção liberal, enquanto termos de uma contradição lógica que, portanto, não possibilita que estejam simultaneamente presentes numa mesma situação. Aqui, ao contrário, estão co-presentes, mesmo se unidos em uma relação de contradição, a qual, porém, não é lógica, mas sim real e objetiva. E possível uma confirmação: “O povo ... em toda parte libertou-se [befreit] mediante a repressão
[Unterdrückung] dos barões” (Ph. G., 902). Eis uma dupla de con ceitos de significado análogo àquela anteriormente examinada, Be
emancipação do povo (incluindo os ex-servos da gleba) ocorre si multaneamente à repressão da aristocracia, ou pelo menos com a repressão de seus privilégios. Mas a aristocracia, como já vimos, sente a perda do privilégio, que, por exemplo, fazia dela a única de positária da administração da justiça, “como violência inconveni ente, como opressão da liberdade [Unterdrückung der Freiheit] e despotismo” (Rph., § 219 A). Assistimos a uma aguda contradição e a uma áspera luta entre dois sujeitos político-sociais, e o povo deve se aliar com a Coroa para alcançar os seus objetivos de liber dade e para fazer com.que sejam diminuídos “os direitos privados dos senhores” (Pk. G., 902): “Os reis, apoiando-se nos povos, opri miram a casta da injustiça; ao contrário, onde se apoiaram nos ba rões ou onde estes mantiveram a sua liberdade contra os reis, permaneceram imutáveis os direitos, ou melhor, as injustiças posi tivas” (positive Rechte oder Unrechte; Pk. G., 903). É preciso notar, nesse trecho, a violenta carga antifeudal: fala-se da aristocracia não apenas como de uma “casta”, mas de uma Kaste der Ungerechtigkeit, cujos Rechte, celebrados enquanto “positivos” pelos ideólogos da reação e, outras vezes, respeitosamente vistos, com a mesma moti vação, por parte de uma certa tradição liberal, são, na realidade,
Unrechte, ilegalidades ou injustiças que não têm nenhuma razão de ser.
Para reprimir tudo isso, Hegel não hesita em invocar uma revo lução do alto ou, seja como for, um reforço dos poderes da Coroa. Uma prova, portanto, do “conservadorismo” do filósofo? Na reali dade, a celebração que Staêl faz da liberdade da França antes da monarquia absoluta não é outra coisa senão a retomada de um mo tivo caro ao publicismo aristocrata e nobiliárquico, e em solo fran cês tal celebração é contrastada por personalidades que tinham participado em posições democrático-radicais do processo revolu cionário.64 Mas convém sobretudo reler a análise lúcida e desapai xonada que brota de uma bela página de Tocqueville: “As nações que se voltam para a democracia começam, portanto, habitual mente, a ampliar as atribuições do poder real. O príncipe inspira menos ciúme e menos temor que os nobres ... A obra-prima da aristocracia inglesa é ter feito com que as classes democráticas da sociedade acreditassem por muito tempo que o inimigo comum de-
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las era o príncipe, conseguindo, portanto, tornar se a representante de tais classes, em lugar de ser a sua principal adversária”.65 Aqui a contradição principal ocorre não entre autoridade e liberdade, como em Bobbio, e substancialmente também em Ilting, mas entre aristocracia e povo, exatamente como em Hegel: e o apoiar-se no poder monárquico para dobrar a aristocracia não é sinónimo de conservadorismo (como em Bobbio, em Ilting e em todos os parti cipantes do processo anti-histórico voltado a condenar ou absolver Hegel em nome das categorias e dos preconceitos do liberalismo hodierno), mas sim de democratismo, de democratismo plebeu.