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O INTELECTUAL, A PROPRIEDADE E A QUESTÃO SOCIAL

No documento Losurdo - Hegel Marx e a Tradicao Liberal (páginas 195-200)

1 Categorias teóricas e opções políticas imediatas

Não podendo ser definido nem como conservador-reacionário, nem como liberal, Hegel deve ser considerado então revolucioná­ rio? Também nesse caso, antes de se deixar levar por uma resposta precipitada em um sentido ou no outro, é melhor dirimir os equí­ vocos ou as ambigüidades contidas na formulação da pergunta. Pode ser útil partir da polêmica que Ilting desenvolve contra Ritter: falar de “filosofia da revolução”, a propósito de Hegel, é um “equí­ voco grotesco”, pois é clara a opção do filósofo por uma política de reformas e de desenvolvimento gradual. Certamente, a falta de adequação das instituições ao “espírito do tempo” pode tornar ine­ vitável a ocorrência de desordens violentas, mas tal constatação também não ocorre em razão da propaganda de um programa revo­ lucionário, mas da comprovação do caráter necessário e benéfico das reformas.1 Não achamos que sobre esse ponto possam existir dúvidas: Hegel assume e sente sua opção reformista não apenas no plano político, mas também naquele mais propriamente emotivo, declarando explicitamente, após a eclosão da revolução de julho, estar cansado com as incessantes desordens que tinham marcado o

seu tempo (Pk. G., 932). E ainda antes da sua chegada a Berlim, em um texto, a Fenomenología do espírito, caracterizado pela confiante expectativa de uma renovação política, o filósofo sublinha estar longe dos estilos “revolucionários” (W , III, 47).

Considerando apenas a opção política imediata, não restam dú vidas. Mas é esse o único plano a ser levado em conta? Em polê­ mica contra Hegel, que salienta a necessidade de que a mudança político-constitucional ocorra de modo lento e gradual, Marx ob­ serva que “a categoria da transição gradual, em primeiro lugar, é historicamente falsa e, em segundo, não explica nada”.2 O jovem Marx, portanto, não tem dúvidas sobre o fato de que Hegel se co­ loca em posições gradualistas e reformistas, mas esse é apenas um aspecto do problema; o outro consiste no fato de que a crítica a tais posições é conduzida com argumentações e categorias que não ape­ nas pressupõem a lição de Hegel, mas que parecem ser literalmente extraídas do seu texto. Na Enciclopédia podemos ler: “A mudança gradual é o último refúgio superficial para poder atribuir tranqüili­ dade e duração às coisas” (§ 258 Z). Se a Filosofia do direito é domi­ nada, pelo menos no momento em que expõe um concreto programa político para a Alemanha, pela categoria da graduali- dade, provocando com isso o protesto e a crítica de Marx, a Lógica é dominada pela categoria do salto qualitativo e, portanto, suscita, a tal propósito, o consenso e o entusiasmo de Lenin.3

E claro: estamos na presença de dois planos diversos, que En gels procurou identificar e distinguir como “método” e “sistema”. Como tivemos oportunidade de ver no primeiro capítulo do pre­ sente trabalho, a duplicidade de planos é de algum modo percebida também pelos críticos reacionários. Naturalmente, tal distinção não identifica dois planos nitidamente separados, mas ela mesma tem caráter metodológico. Podemos dizer que o “método” reflete a experiência histórica da Revolução Francesa e das grandes pertur­ bações da época, e reflete ainda as exigências profundas da luta teó­ rica contra a ideologia da reação e da conservação; o “sistema” remete a escolhas políticas imediatas.4 Pode-se dar um exemplo. A celebração da categoria da gradualidade, antes de se tornar uma pa­ lavra de ordem do moderantismo liberal, é uma palavra de ordem dos ambientes conservadores e reacionários; na Prússia, os porta-

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vozes dos Junker se contrapõem em nome da “sábia gradualidade” às reformas, consideradas arrojadas, que desmantelam o edifício feudal prussiano depois da derrota de ]ena.

Mais tarde, a luta contra a codificação é igualmente conduzida por Savigny sob o signo da celebração da história como ininter­ rupto processo de continuidade, como “indissolúvel relação orgâ­ nica das gerações e das épocas, entre as quais pode ser pensada somente uma evolução e não um fim e um início absolutos”, sob o signo da polêmica contra aqueles reformadores que pretendiam “cortar todo fio histórico e iniciar uma vida completamente nova”. Ainda mais tarde, um ideólogo da Restauração como Baader explica a sua oposição às reivindicações do movimento liberal e constitucional, distinguindo Evolutionismus e Revolutionismus e ce­ lebrando o primeiro, ou seja, a categoria da gradualidade, e conde­ nando o segundo, isto é, a categoria do salto qualitativo e da ruptura revolucionária.7

Por trás disso está certamente a lição de Burke que, primeiro, contra as desordens revolucionárias da França, contrapõe o tran­ qüilo desenvolvimento da “natureza”, ou seja, aquela unidade de natureza e história que é a transmissão hereditária; essa última “for­ nece um princípio seguro de conservação e um princípio seguro de transmissão, sem excluir de modo algum um princípio de melhora­ mento”.8 É preciso acrescentar, porém, que, se esses são os primór­ dios, a categoria da gradualidade, como instrumento de luta ideológica contra a revolução, é elaborada sobretudo na Alemanha, o país que, dentre todos, é o que mais tem de acertar as contas com a realidade política e ideológica da nova França, e é obrigado a fazer isso tendo atrás de si, de um lado, uma estrutura político-social atrasada e, de outro, uma vigorosa tradição cultural e filosófica. Po­ der-se-ia dizer que, se a França, segundo Marx e Engels, é o país no qual com maior agudeza e radicalidade se desenvolveram e comba­ teram os conflitos político-sociais, a Alemanha é o país no qual mais a fundo foi pensada e travada a luta ideológica. Isso vale para os teóricos da reação, mas também para a luta contra a ideologia da reação, luta que encontra precisamente em Hegel o seu momento mais alto. Não só Hegel exprime, como vimos, plena consciência política do significado conservador da celebração da categoria de

gradualidade, mas empenha-se em confutar essa categoria também no plano teórico. A revolução e às reformas promovidas é contra­ posta, como ocorre em Burke, a gradualidade indolor do desenvol­ vimento natural? Mas não é verdade - rebate com força a Lógica - que a natureza não dê saltos, pois a categoria de salto qualitativo é o pressuposto da compreensão do processo natural.

A confutação ocorre também em um plano ulterior, mais avan­ çado: o desenvolvimento histórico é comparado ao natural, como faziam, dessa vez, os expoentes do romantismo reacionário? Pois bem, a Filosofia da história contrapõe desenvolvimento orgânico- natural e desenvolvimento histórico: o primeiro “tem lugar de modo imediato, sem antíteses e obstáculos” (au f unmittelbare,

gegensatzlose, ungehinderte Weise), ao passo que, ao contrário, “o es­ pírito é em si mesmo oposto a si mesmo”; se o desenvolvimento orgânico-natural é “o simples originar-se inócuo e pacífico”, o desenvolvimento histórico “é o trabalho duro e relutante contra si mesmo”, comporta “um duro, infinito combate contra si mesmo” (Ph. G., 151-2). Em outras palavras, não se pode entender o pro­ cesso histórico ignorando a categoria de “contradição” (Ph. G., 157) e de salto qualitativo. No que diz respeito a esse último, mesmo sè não é exclusivo do mundo histórico, é aqui que se mani­ festa plenamente, porque é somente aqui que se tem mudança no sentido pleno, sem qualquer retorno ou circularidade (Ph. G., 153); tanto mais que, no mundo histórico, a determinação quanti­ tativa tem uma importância nitidamente inferior àquela que as­ sume no mundo natural (Enc., § 99 Z).

A necessidade da luta contra a reação feudal estimula resultados teoréticos de grande relevo, que vão bem além do quadro histórico e das próprias e imediatas opções e propostas políticas de Hegel. E são precisamente esses resultados que passam a ser vistos com par­ ticular suspeita pela tradição de pensamento liberal, sobretudo de­ pois de 1848. A essa regra não fazem exceção as categorias de contradição e de salto qualitativo.

Mas o fenômeno aqui investigado é de caráter mais geral. Pense-se na polêmica de Hegel contra o saber imediato. A celebra­ ção do sentimento é a resposta conservadora ou reacionária ao

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bração Hegel faz uma reputação ao mesmo tempo teorética e polí­ tica: o saber imediato é capaz de subsumir e legitimar qualquer conteúdo, mesmo o mais desprezível e imoral (Enc., § 72); e, além disso, o saber imediato destrói a comunidade do conceito, que é o próprio pressuposto da comunidade política. A valência política da polêmica hegeliana contra o saber entendido como imediaticidade

[immediatezza], e como imediatidade privilegiada, é evidente: nos anos da Restauração, o catolicismo é denunciado pelo filósofo como instrumento ideológico fundamental da reação, precisa­ mente porque teoriza e estabelece a divisão entre iniciados e profa­ nos, ao passo que, no lado oposto, o grande mérito do Iluminismo francês está no fato de ter suprimido em política a classe dos profa­ nos (W, XX, 287). Portanto, a celebração do saber imediato, redu­ zindo o saber, segundo a denúncia já vista da Fenomenología, à “esotérica posse de alguns indivíduos”, reintroduz a classe dos pro­ fanos na ciência e na vida política.

Estamos também aqui na presença de um tema que, derivado das exigências da luta contra a ideologia da reação, resulta depois suspeito à burguesia liberal, tornada enfim classe dominante e empenhada em justificar os seus privilégios e a sua privilegiada “pe­ culiaridade” perante a contestação proveniente, dessa vez, do prole­ tariado. E Haym, de fato, considera “rude” e “grosseira” a visão hegeliana do saber e da dialética: “O que até agora somente o gênio científico parecia em condições de realizar, aparece no momento, repentinamente, como alguma coisa que podia ser apreendida por qualquer um que apenas estudasse a nova lógica. A moda do

Novum Organum, essa lógica pretendia ser um cânone universal­ mente utilizável, um instrumento a todos acessível de conheci­ mento científico mais vivo, ut ingenii viribus et excellentiae non

multum relíquatur”.

Na sua polêmica contra a celebração do saber imediato, Hegel sublinha a superioridade teorética do “conceito” filosófico e racio­ nal com respeito à “representação” religiosa. A religião vê ulterior­ mente redimensionada a sua pretensão de constituir um órgão privilegiado de conhecimento, pelo fato de que lhe é atribuído um conteúdo não diverso daquele próprio da filosofia, mesmo se pos­ suído de uma forma que ainda não se elevou a dignidade cognosci-

Ova. Mas é exatamente isso que Haym censura em Hegel, o qual, “aparentemente, conserva o que é especificamente religioso; na ver­ dade, o reduz a urna sombra”; não compreendendo que a religião é algo de “incomensurável” com respeito à razão, pretendeu aprisio­ nar “o sentimento vivo nas rígidas formas do intelecto”.10 Haym revaloriza explicitamente Jacobi por ter celebrado as forças do senti­ mento, da fé, da fantasia, enquanto, ao contrário, Hegel erra em se apresentar como o continuador do Iluminismo, como o fundador de um novo e ainda mais árido racionalismo, e isso sempre por causa da sua inaceitável pretensão de querer dilatar a razão em “ór­ gão universal da verdade”.11 Em um momento no qual o pathos da comunidade, caro à tradição revolucionária e jacobina, podia fun­ cionar como elemento de contestação do domínio econômico e político da burguesia, Haym destrói novamente a comunidade do conceito construída por Hegel em polêmica exatamente contra a ideologia da reação. A recusa da reinterpretação hegeliana da reli­ gião serve, por um lado, para reconstituir um saber privilegiado pe­ las “forças do engenho e da excelência” e, por outro, para colocar ao abrigo de qualquer crítica racionalista as crenças religiosas favo­ ravelmente difundidas entre a “multidão”, diante das quais é pre­ ciso mostrar respeito e “tolerância”, mesmo quando têm caráter “milagreiro, fabuloso, supersticioso”.

E ainda uma vez vem à tona a necessidade de distinção entre “método” e “sistema”. Independentemente das reiteradas garantias que Hegel dá de estar em plena conformidade com a ortodoxia, e mesmo, da pretensão por ele às vezes formulada de ser o verda­ deiro intérprete e guardião da ortodoxia, é um fato que o “método” empregado pelo filósofo resulta suspeito para Haym e para a bur­ guesia liberal pós-1848, assim como tinha resultado suspeito no seu tempo para a reação política e clerical. E se antes Hegel tinha sido acusado de ateísmo, agora é acusado por Haym de ter operado a “secularização da religião sob o domínio da filosofia”.1’ Em outras palavras, a filosofia hegeliana da religião, em sua inspiração de fundo, em seu “método”, portanto, mostra-se para Haym muito permeada pelo pathos iluminista e revolucionário da razão e, por isso mesmo, também excessivamente laica, dado que a pecu­ liaridade do sentimento religioso é sacrificada à universalidade da

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