CONSERVADOR OU LIBERAL? UM FALSO DILEMA
7 Categorias interpretativas e pressupostos ideológicos
Agora, independentemente de Hegel, pode ser útil retomar as categorias usadas por alguns dos protagonistas do debate político daqueles anos. Isso sempre com o objetivo de verificar a validade histórica do dilema formulado explicitamente por Bobbio, mas tacitamente apropriado também por intérpretes aparentemente muito distantes dele. Liberal ou conservador? Chateaubriand, cujo “liberalismo” Uting confronta com o de Hegel, se define “conserva dor”, como resulta do fato de que, nos anos da Restauração, dirige um órgão de imprensa de título explícito: Le Conservateur.59 Desse ponto de vista, resta verificar se a indubitável distância dos Princí
pios em relação ao diretor do jornal em questão significa distância
do liberalismo ou do conservadorismo.
Ao contrário do liberal, o conservador “preza mais o Estado que o indivíduo, mais a autoridade que a liberdade” etc.? Mas, para
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Chateaubriand, a luta se trava entre “parti royaliste" e “parti ministe-
riel”, e é esse último que, na prática, se identifica com o liberal, en quanto o primeiro, com Chateaubriand à frente, insiste nos limites da coroa e do executivo para conduzir o mais a fúndo possível o processo de Restauração. Na Alemanha, Stahl escreve: “Hegel é ex cessivamente pelo domínio do alto, mais do que pelo livre desen volvimento de baixo e a partir de dentro. A sua teoria não é nem
ultramonárquica nem ultraliberal, mas sim ultragovernamental”-60 Como para Chateaubriand, também para Stahl o ser “ministerial” ou “ultragovernamental” não é absolutamente sinônimo de adesão ao absolutismo monárquico e tampouco às idéias da reação feudal. Nesse meio tempo, a situação política evoluiu: o partido liberal, na sua luta contra os ultra nostálgicos do ancien régime, não tem mais necessidade de apoiar-se na coroa e no aparelho governamental e burocrático (que, além disso, na Prússia, depois de 1840, ressen tem-se fortemente da influência dos Junker) e, assim, na visão de Stahl, os partidos se tornaram três, mas permanece válido que “mi nisterial” ou “ultragovernamental” não é sinônimo nem de reacio nário nem de conservador.
Até aqui, o debate girou sobre a questão mais propriamente política. Se, além disso, enfrentarmos a questão social, as coisas se tornam ainda mais complexas. Se, em Hegel, o termo liberal oscila entre significado positivo e significado negativo, em Saint-Simon tem uma acepção constantemente negativa. E, de fato, aos “libe rais” são contrapostos os “industriais”, as camadas propriamente produtivas.61 E Saint-Simon, que contrapõe o princípio da “organi
sation” ao princípio do laissez-faire, laissez-aller, é comparado por Constant a De Maistre e Lamennais.62 Por outro lado, como é sa bido, Constant acusa repetidamente Rousseau de ter fornecido, com seu Contrato social, armas ao “despotismo”.6i Segundo o teó rico liberal, a disposição das forças em luta opõe, portanto, de um lado, o liberalismo e, de outro, o absolutismo e o despotismo, nos quais acabam confluindo tanto a tradição rousseauniana-jacobina quanto o nascente movimento socialista. Esse esquema predo mina, dir-se-ia definitivamente, após a revolução de 1848. Para Tocqueville, o jacobinismo (com a sua política econômica de inter venção na propriedade privada) e o “socialismo moderno” não são
senão a retomada de motivos típicos do “despotismo monár quico”, motivos, além disso, que já encontramos em larga parte na cultura iluminista, e não apenas nos utopistas, como Morelly, mas até nos “economistas”, eles também prisioneiros do mito nefasto da “onipotência do Estado”.64 A partir desse momento, tudo o que não pode ser inserido na tradição “liberal” em sentido estrito é si nónimo de despotismo, segundo urna férrea linha de continuidade que vai de Louis XIV a Louis Blanc. Tal esquema triunfa sempre depois de 1848, mesmo na Alemanha, e está muito presente em Rudolf Haym, o autor do requisitório contra Hegel, acusado de ter formulado uma teoria “estatista” incompatível com as necessidades da liberdade moderna. Como se vê, deparamo-nos novamente com a mesma acusação e na mesma linha de demarcação entre li berdade e despotismo.
Ainda nos dias de hoje, Dahrendorf não apenas considera “ili beral” a crítica que o hegeliano Lassalle faz da teoria do Estado como simples guardião da propriedade privada, indiferente ao drama da miséria e à questão social, mas, a partir de Lassalle, vê todo o movimento operário alemão (e não apenas alemão) caracte rizado por “traços fundamentalmente ¿liberáis”.65
E bem se compreende a inserção de Hegel ao lado de autores e movimentos tão diversos: Tocqueville vê a Franca, profundamente permeada pela cultura iluminista e que se encaminha para a revolu ção, nutrir uma pro fúnda “paixão pela igualdade”, mas não pela “liberdade”; pois bem, essa França almeja como ideal uma socie dade “sem outra aristocracia a não ser aquela dos funcionários pú blicos, uma administração única e onipotente, guia do Estado e tutora dos privados”.66 Como não pensar no pathos com que Hegel saúda a burocracia como “classe universal”? Outra característica da tradição de pensamento “despótica”, sempre segundo Tocqueville (mas também para Haym e os liberais-nacionais alemães), é a pre tensão de remediar, do alto, a miséria com a intervenção do Es tado, por exemplo garantindo o “direito ao trabalho”.67 Mas essa é precisamente a postura tendencial de Hegel, que teoriza uma polí tica estatal claramente intervencionista e que, como vimos, chega inclusive a proclamar o “direito à vida” (mediante o trabalho). Ora, é esse esquema (de Constant, Tocqueville, Haym) que correspon-
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dia às exigências imediatas de luta política, enquanto apresentava a burguesia liberal como única verdadeira intérprete da causa da li berdade e do progresso, ao passo que rechaçava, no campo do ab solutismo e da reação, todas as outras forças políticas; é esse mesmo esquema propagandista que constitui, em última análise, o pressuposto do dilema (liberal ou conservador?) que continua do minando o debate sobre Hegel.
Desse modo, não é dificil reconhecer a gênese política e ideoló gica da alternativa formulada por Bobbio: em favor do “vértice da pirâmide (o monarca)” ou da “base (o povo)”? Mas é precisamente uma personalidade como Stahl (cujas orientações políticas já vimos) que formula a alternativa nos termos em que Bobbio a formula. De fato, após ter criticado Hegel como “ultragovernamen- tal”, o ideólogo da conservação (e, sob certos aspectos, até mesmo da reação) político-social, denuncia o grave erro do filósofo nestes termos: “Tudo deve ser realizado mediante o ordenado poder obje tivo, isto é, através do governo, e o povo aceita isso com consciência e portanto livremente, mas não pode acontecer o contrário, a sa ber, que a obra se cumpra a partir dos mais íntimos impulsos (da subjetividade) dos indivíduos, das associações, do povo, das corpo rações, e o governo se limite a dirigir, sancionar ou moderar, e as corporações freiem ou corrijam o governo”.68 Stahl fala de “povo”, mas, na realidade, entende as “corporações”, ou seja, os “lobbies" aristocráticos e burgueses.. Hegel, ao contrário, está plenamente consciente de que o apelo ao “povo” pode, de acordo com as cir cunstâncias, assumir conteúdos diversos e contrastantes: “vontade do povo é uma bela palavra” mas pode, porém, ser “usada com le viandade e mesmo “profanada” (W, IV, 528).
No fúndo, é por sua concretude histórica, por sua atenção aos conteúdos político-sociais, que Hegel é criticado por Bobbio. Mas, de tal concretude, nos anos da Restauração, davam prova, se não na visão geral da história, de qualquer modo nas imediatas toma das de posição política, também os expoentes da burguesia liberal, que, como vimos, na maioria das vezes, não subscrevem a limita ção do poder da coroa reivindicada pelos ultras da reação. Ao me nos naquele momento, a burguesia liberal se mostrava plenamente consciente da divisão do “povo” em classes e, portanto, não hesi
tava em rechaçar as palavras de ordem “liberais” lançadas momen tânea e instrumentalmente pela aristocracia feudal. E somente depois da derrota dessa última que a burguesia liberal formula a al ternativa nos termos em que Bobbio a formula, procurando absor ver no “povo” a classe politicamente derrotada e contrastando as reivindicações sociais do proletariado mediante a redução da luta política do tempo à luta entre liberdade e absolutismo, entre inicia tiva de baixo e iniciativa do alto (a temida intervenção do poder po lítico sobre a propriedade), entre indivíduo e Estado.
Por que então não substituir a dupla de conceitos conserva dor/liberal pela de direita/esquerda? Ao “centre gauche”, no qual coloca Royer-Collard, Chateaubriand contrapõe o “côte' droit in-
dépendant” , 69Portanto, ele parece fazer tendencialmente coincidir o
“parti ministeriel” com a esquerda, e o “parti royaliste” com a direita. Com base nesses critérios, Hegel deveria ser colocado à esquerda ou na centro-esquerda, dada a sua clara adesão ao “parti ministeriel” (e, por outro lado, como já vimos, Cousin aproxima Hegel de Royer-Collard). Mas aqui não se trata de substituir um esquema por outro, e sim de relativizar ambos, tomando consciência dos pressupostos ideológicos que eles comportam, e concentrar a aten ção nos concretos conteúdos políticos e sociais das imediatas toma das de posição e da mais geral visão filosófica de Hegel.