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Categorias interpretativas e pressupostos ideológicos

No documento Losurdo - Hegel Marx e a Tradicao Liberal (páginas 142-146)

CONSERVADOR OU LIBERAL? UM FALSO DILEMA

7 Categorias interpretativas e pressupostos ideológicos

Agora, independentemente de Hegel, pode ser útil retomar as categorias usadas por alguns dos protagonistas do debate político daqueles anos. Isso sempre com o objetivo de verificar a validade histórica do dilema formulado explicitamente por Bobbio, mas tacitamente apropriado também por intérpretes aparentemente muito distantes dele. Liberal ou conservador? Chateaubriand, cujo “liberalismo” Uting confronta com o de Hegel, se define “conserva­ dor”, como resulta do fato de que, nos anos da Restauração, dirige um órgão de imprensa de título explícito: Le Conservateur.59 Desse ponto de vista, resta verificar se a indubitável distância dos Princí­

pios em relação ao diretor do jornal em questão significa distância

do liberalismo ou do conservadorismo.

Ao contrário do liberal, o conservador “preza mais o Estado que o indivíduo, mais a autoridade que a liberdade” etc.? Mas, para

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Chateaubriand, a luta se trava entre “parti royaliste" e “parti ministe-

riel”, e é esse último que, na prática, se identifica com o liberal, en­ quanto o primeiro, com Chateaubriand à frente, insiste nos limites da coroa e do executivo para conduzir o mais a fúndo possível o processo de Restauração. Na Alemanha, Stahl escreve: “Hegel é ex­ cessivamente pelo domínio do alto, mais do que pelo livre desen­ volvimento de baixo e a partir de dentro. A sua teoria não é nem

ultramonárquica nem ultraliberal, mas sim ultragovernamental”-60 Como para Chateaubriand, também para Stahl o ser “ministerial” ou “ultragovernamental” não é absolutamente sinônimo de adesão ao absolutismo monárquico e tampouco às idéias da reação feudal. Nesse meio tempo, a situação política evoluiu: o partido liberal, na sua luta contra os ultra nostálgicos do ancien régime, não tem mais necessidade de apoiar-se na coroa e no aparelho governamental e burocrático (que, além disso, na Prússia, depois de 1840, ressen­ tem-se fortemente da influência dos Junker) e, assim, na visão de Stahl, os partidos se tornaram três, mas permanece válido que “mi­ nisterial” ou “ultragovernamental” não é sinônimo nem de reacio­ nário nem de conservador.

Até aqui, o debate girou sobre a questão mais propriamente política. Se, além disso, enfrentarmos a questão social, as coisas se tornam ainda mais complexas. Se, em Hegel, o termo liberal oscila entre significado positivo e significado negativo, em Saint-Simon tem uma acepção constantemente negativa. E, de fato, aos “libe­ rais” são contrapostos os “industriais”, as camadas propriamente produtivas.61 E Saint-Simon, que contrapõe o princípio da “organi­

sation” ao princípio do laissez-faire, laissez-aller, é comparado por Constant a De Maistre e Lamennais.62 Por outro lado, como é sa­ bido, Constant acusa repetidamente Rousseau de ter fornecido, com seu Contrato social, armas ao “despotismo”.6i Segundo o teó­ rico liberal, a disposição das forças em luta opõe, portanto, de um lado, o liberalismo e, de outro, o absolutismo e o despotismo, nos quais acabam confluindo tanto a tradição rousseauniana-jacobina quanto o nascente movimento socialista. Esse esquema predo­ mina, dir-se-ia definitivamente, após a revolução de 1848. Para Tocqueville, o jacobinismo (com a sua política econômica de inter­ venção na propriedade privada) e o “socialismo moderno” não são

senão a retomada de motivos típicos do “despotismo monár­ quico”, motivos, além disso, que já encontramos em larga parte na cultura iluminista, e não apenas nos utopistas, como Morelly, mas até nos “economistas”, eles também prisioneiros do mito nefasto da “onipotência do Estado”.64 A partir desse momento, tudo o que não pode ser inserido na tradição “liberal” em sentido estrito é si­ nónimo de despotismo, segundo urna férrea linha de continuidade que vai de Louis XIV a Louis Blanc. Tal esquema triunfa sempre depois de 1848, mesmo na Alemanha, e está muito presente em Rudolf Haym, o autor do requisitório contra Hegel, acusado de ter formulado uma teoria “estatista” incompatível com as necessidades da liberdade moderna. Como se vê, deparamo-nos novamente com a mesma acusação e na mesma linha de demarcação entre li­ berdade e despotismo.

Ainda nos dias de hoje, Dahrendorf não apenas considera “ili­ beral” a crítica que o hegeliano Lassalle faz da teoria do Estado como simples guardião da propriedade privada, indiferente ao drama da miséria e à questão social, mas, a partir de Lassalle, vê todo o movimento operário alemão (e não apenas alemão) caracte­ rizado por “traços fundamentalmente ¿liberáis”.65

E bem se compreende a inserção de Hegel ao lado de autores e movimentos tão diversos: Tocqueville vê a Franca, profundamente permeada pela cultura iluminista e que se encaminha para a revolu­ ção, nutrir uma pro fúnda “paixão pela igualdade”, mas não pela “liberdade”; pois bem, essa França almeja como ideal uma socie­ dade “sem outra aristocracia a não ser aquela dos funcionários pú­ blicos, uma administração única e onipotente, guia do Estado e tutora dos privados”.66 Como não pensar no pathos com que Hegel saúda a burocracia como “classe universal”? Outra característica da tradição de pensamento “despótica”, sempre segundo Tocqueville (mas também para Haym e os liberais-nacionais alemães), é a pre­ tensão de remediar, do alto, a miséria com a intervenção do Es­ tado, por exemplo garantindo o “direito ao trabalho”.67 Mas essa é precisamente a postura tendencial de Hegel, que teoriza uma polí­ tica estatal claramente intervencionista e que, como vimos, chega inclusive a proclamar o “direito à vida” (mediante o trabalho). Ora, é esse esquema (de Constant, Tocqueville, Haym) que correspon-

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dia às exigências imediatas de luta política, enquanto apresentava a burguesia liberal como única verdadeira intérprete da causa da li­ berdade e do progresso, ao passo que rechaçava, no campo do ab­ solutismo e da reação, todas as outras forças políticas; é esse mesmo esquema propagandista que constitui, em última análise, o pressuposto do dilema (liberal ou conservador?) que continua do­ minando o debate sobre Hegel.

Desse modo, não é dificil reconhecer a gênese política e ideoló­ gica da alternativa formulada por Bobbio: em favor do “vértice da pirâmide (o monarca)” ou da “base (o povo)”? Mas é precisamente uma personalidade como Stahl (cujas orientações políticas já vimos) que formula a alternativa nos termos em que Bobbio a formula. De fato, após ter criticado Hegel como “ultragovernamen- tal”, o ideólogo da conservação (e, sob certos aspectos, até mesmo da reação) político-social, denuncia o grave erro do filósofo nestes termos: “Tudo deve ser realizado mediante o ordenado poder obje­ tivo, isto é, através do governo, e o povo aceita isso com consciência e portanto livremente, mas não pode acontecer o contrário, a sa­ ber, que a obra se cumpra a partir dos mais íntimos impulsos (da subjetividade) dos indivíduos, das associações, do povo, das corpo­ rações, e o governo se limite a dirigir, sancionar ou moderar, e as corporações freiem ou corrijam o governo”.68 Stahl fala de “povo”, mas, na realidade, entende as “corporações”, ou seja, os “lobbies" aristocráticos e burgueses.. Hegel, ao contrário, está plenamente consciente de que o apelo ao “povo” pode, de acordo com as cir­ cunstâncias, assumir conteúdos diversos e contrastantes: “vontade do povo é uma bela palavra” mas pode, porém, ser “usada com le­ viandade e mesmo “profanada” (W, IV, 528).

No fúndo, é por sua concretude histórica, por sua atenção aos conteúdos político-sociais, que Hegel é criticado por Bobbio. Mas, de tal concretude, nos anos da Restauração, davam prova, se não na visão geral da história, de qualquer modo nas imediatas toma­ das de posição política, também os expoentes da burguesia liberal, que, como vimos, na maioria das vezes, não subscrevem a limita­ ção do poder da coroa reivindicada pelos ultras da reação. Ao me­ nos naquele momento, a burguesia liberal se mostrava plenamente consciente da divisão do “povo” em classes e, portanto, não hesi­

tava em rechaçar as palavras de ordem “liberais” lançadas momen­ tânea e instrumentalmente pela aristocracia feudal. E somente depois da derrota dessa última que a burguesia liberal formula a al­ ternativa nos termos em que Bobbio a formula, procurando absor­ ver no “povo” a classe politicamente derrotada e contrastando as reivindicações sociais do proletariado mediante a redução da luta política do tempo à luta entre liberdade e absolutismo, entre inicia­ tiva de baixo e iniciativa do alto (a temida intervenção do poder po­ lítico sobre a propriedade), entre indivíduo e Estado.

Por que então não substituir a dupla de conceitos conserva­ dor/liberal pela de direita/esquerda? Ao “centre gauche”, no qual coloca Royer-Collard, Chateaubriand contrapõe o “côte' droit in-

dépendant” , 69Portanto, ele parece fazer tendencialmente coincidir o

“parti ministeriel” com a esquerda, e o “parti royaliste” com a direita. Com base nesses critérios, Hegel deveria ser colocado à esquerda ou na centro-esquerda, dada a sua clara adesão ao “parti ministeriel” (e, por outro lado, como já vimos, Cousin aproxima Hegel de Royer-Collard). Mas aqui não se trata de substituir um esquema por outro, e sim de relativizar ambos, tomando consciência dos pressupostos ideológicos que eles comportam, e concentrar a aten­ ção nos concretos conteúdos políticos e sociais das imediatas toma­ das de posição e da mais geral visão filosófica de Hegel.

Notas

No documento Losurdo - Hegel Marx e a Tradicao Liberal (páginas 142-146)