Parte III – O Lugar e a imbricação às redes técnicas – Esta terceira parte se refere à categorização do lugar Anchieta no contexto da Microrregião
O DISCURSO E A PRÁXIS INVERTIDA
5.1 A retórica e o mito da “sustentabilidade”
nesta luta ideológica pela legitimação ou deslegitimação do discurso. Os conteúdos da própria mídia são então lança- dos em uma versão mais ampliada do mercado a que se incorporam de tal forma que as duas coisas se tornam im- possíveis de distinguir.
(JAMESON, 2006, p. 284)
É importante salientar as diversas interfaces do discurso utilizado pelo poder público em parceria com o privado para viabilizar a implantação dos projetos vinculados ao Plano 2025. Estratégias de marketing, especialmen- te aquelas veiculadas pelo setor de telecomunicações de maior penetração na sociedade capixaba, vêm sendo realizadas enfaticamente, subordinando o planejamento das ações a uma justiicativa de “desenvolvimento susten- tável”. Poucos conceitos têm sido tão amplamente utilizados nas políti- cas públicas como esse; e no entanto, seu aparente consenso revela mais imprecisão do que clareza em torno do seu signiicado. À primeira vista, trata-se de um desgaste típico do jargão que, repetido à exaustão, acaba por esvaziá-lo de signiicado. Algumas das indagações do próprio Plano 2025 nos leva a uma relexão sobre o seu discurso: Como estará o Espírito Santo em 2025? Como evoluirão os níveis de pobreza e de desigualdade social? (Plano 2025, 2006, p.16 e 37). Apesar das preocupações pertinen- tes, quando o Plano 2025 se refere ao termo “sustentabilidade”, de que se trata, para quem se viabiliza e de que maneira?
A adoção do conceito de desenvolvimento urbano sustentável faz-se mui- tas vezes com base nas práticas do planejamento e respectivas propostas de intervenção, sem grandes questionamentos acerca das formulações te- óricas que lhe servem de suporte, o que se traduz no distanciamento entre a análise social/urbana crítica e a do planejamento urbano. O discurso ambiental se mistura com o do planejamento e da intervenção sobre o ambiente construído. Diversas matrizes discursivas têm sido associadas à noção de sustentabilidade, desde que o documento “Nosso Futuro Co- mum”, também conhecido como “Relatório Brundtland”7 , a lançou no debate internacional e popularizou a expressão. É importante considerar que a discussão leva necessariamente à noção de que há sempre um con- lito inerente ao termo, uma contradição entre a vertente ambiental e a 7 COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO, 1998
urbana.
A suposta imprecisão do conceito de sustentabilidade sugere que não há mais hegemonia estabelecida entre os diferentes discursos. A visão socio- política tem se restringido ao esforço das ONGs, mas precisamente na atribuição de precedência ao discurso da equidade com ênfase no âmbito das relações internacionais. Para Ascerald (1999, p.82-83), o discurso eco- nômico foi o que, sem dúvida, melhor se apropriou da noção até aqui. A recusa do antagonismo entre o meio ambiente e a economia fará também da busca da sustentabilidade urbana a ocasião de fazer valer a potência simbólica do mercado como instância de regulação das cidades. Ascerald conduz sua relexão sobre o debate da sustentabilidade, considerando três representações distintas, com base na articulação entre a reprodução das estruturas urbanas e sua base especiicamente material:
• Cidade sustentável: será aquela que, para uma mesma oferta de servi- ços, minimizará o consumo de energia fóssil e de outros recursos ma- teriais, explorando ao máximo os luxos locais e satisfazendo o critério de conservação de estoques e redução de volumes de rejeitos; a con- cepção da sustentabilidade como trajetória progressiva é normalmente acompanhada de uma base social de apoio a projetos de mudança técnica, pela via da educação ambiental, de projetos comunitários. • Insustentabilidade: é a incapacidade adaptativa de reprodução das
estruturas urbanas diante da ruptura das condições materiais e de grandes assimetrias entre a localização espacial dos recursos e a da população.
• Metabolismo urbano: refere-se à resiliência das estruturas urbanas, ou seja, à capacidade adaptativa dos ecossistemas urbanos de supera- rem a sua condição de vulnerabilidade ante os choques externos. Muitos teóricos que estudam a questão optam por trabalhar com o ar- gumento da “insustentabilidade” do conceito, especialmente se inserido no contexto dos países em desenvolvimento. A noção de sustentabilida- de seria incongruente com o desenvolvimento, pois o capitalismo gera desigualdades. A insustentabilidade exprime, assim, a incapacidade das políticas urbanas de adaptar a oferta de serviços urbanos à quantidade e
à qualidade das demandas sociais, provocando um desequilíbrio entre ne- cessidades cotidianas da população e os meios de satisfazê-las com investi- mentos em redes e infra-estrutura. Prevalece a ideia da impossibilidade de uma solidariedade capitalista. Por outro lado, se a expressão é vista como algo desejável, abre-se, portanto, uma luta simbólica pelo reconhecimento da autoridade para falar em sustentabilidade. Poderíamos dizer, então, sus- tentáveis as práticas que se pretendam compatíveis com a qualidade futura postulada como desejável. Tal consideração nos remete a processos de legitimação/deslegitimação de práticas e atores sociais.
Hoje, a vanguarda da análise social crítica pertence aos estudos culturais, especialmente na literatura americana, onde as análises enfatizam as con- tradições da sociedade expressas nas diferenças de raça, étnico-cultural, entre outras. Tal abertura trouxe um novo signiicado para a orientação da ação política. Os estudos urbanos contemporâneos fazem uma distinção entre a área do planejamento e a da análise social crítica. Tal distinção está associada aos caminhos percorridos pelo planejamento urbano, que, ao institucionalizar-se, se tornou excessivamente burocratizado e pouco permeável às diferenças cada vez mais acentuadas. Paradoxalmente, esse mesmo planejamento vem, progressivamente incorporando o discurso da sustentabilidade urbana, o que torna imprescindível uma clara explicitação do conceito de sustentabilidade quando associado a algum plano estraté- gico do poder público.
Um divisor de águas importante nessa discussão entre a análise ambiental e as ciências sociais diz respeito à aceitação ou não do atual projeto de modernidade (capitalista ocidental), que tem no discurso sobre desenvol- vimento (sustentável) a sua mais abrangente tradução. De um lado, vários autores, ainda que de forma crítica, desenvolvem mecanismos de articula- ção entre os diversos agentes em conlito (COLBY,1990;BARBIER,1987), tendo como ponto de partida a “versão oicial” de que há uma preocu- pação com a redistribuição, com as desigualdades e com a identiicação de novos caminhos. Por outro lado, situam-se abordagens que rejeitam a modernidade em sua versão hegemônica, como por exemplo, a de Esco- bar (1995, apud COSTA) que, além de desconstruir o desenvolvimento sustentável como discurso, busca compreender as novas formas de in- ternalização da natureza pelo capital na atualidade. Escobar desenvolve
a idéia de um capitalismo pós-moderno em que a natureza é reinventada, por meio de linguagens, como a dos sistemas e da biotecnologia. Além da conquista simbólica da natureza e das comunidades, há a conquista dos saberes e dos conhecimentos locais (COSTA, 2000, p.62-63).
Feitas essas análises comparativas das abordagens teóricas, tem sentido reforçar uma das hipóteses iniciais da tese, segundo a qual o discurso do desenvolvimento sustentável foi facilmente assimilado pelo planejamento urbano, mas não pela análise espacial crítica. Parece haver consenso, pelo menos entre os autores mais críticos, a idéia de que a prática do plane- jamento urbano só tende a manter o status quo e a reforçar um projeto de modernidade/ globalidade. Em síntese, pode-se dizer que o campo dos estudos ambientais vem experimentando o alargamento de suas bases conceituais e a multiplicação da quantidade de estudos e áreas do conheci- mento envolvidas. Entretanto, os estudos mostram que, em grande parte das experiências locais e regionais do planejamento, a dimensão espacial / urbana permanece subestimada, sendo, às vezes, inexistente, ou até mes- mo negada em sua interface ambiental. Vários outros aspectos de maior relevância giram em torno do conceito de sustentabilidade, como a ideia de autonomia da comunidade no processo de planejar; porém o conceito por ser abrangente, capaz de alinhavar iniciativas e propostas de diversas origens, tende a ser banalizado e transformado em peça de retórica.
É pelo lugar que vemos o mundo e ajustamos nossa inter- pretação, pois nele o recôndito, o permanente, o real triun- fam, afi nal, sobre o movimento, o passageiro, o imposto de fora...
Mas, se o lugar nos engana, é por conta do mundo.
Santos apud Leite (2004b, p.51)
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Ao se pensar o Polo Industrial de Anchieta como um objeto técnico, não há como deixar de associá-lo ao lugar Anchieta79 - uma pequena cidade litorânea com signos representativos da história jesuítica - e também ao mundo. Os objetos têm um papel importante na produção das ações, e a maneira pela qual dispomos os objetos técnicos, altamente carregados de ideologia, não nos permite pensar o lugar sem olhar para o mundo. Essa condição faz com que a história do lugar passe, cada vez mais, para além de seus limites físicos. Isso signifi ca dizer que a simultaneidade entre ações locais/globais, mais do que determinar a natureza do lugar, hoje, esclarece a articulação entre as diversas escalas territoriais.
O lugar representa e fi xa relações e práticas, produzindo uma identidade complexa que diz respeito ao mesmo tempo ao local e ao global. Para Augé (2004) o lugar, antes de tudo, é necessariamente histórico a partir do momento em que, conjugando identidade e relação, ele se defi ne por uma estabilidade mínima. Por isso é que aqueles nele vivem podem aí se reconhecerem.
O lugar antropológico é ambíguo. Ele é apenas a idéia, par- cialmente materializada, que têm aqueles que o habitam de sua relação com o território, com seus próximos e com os outros. Essa idéia pode ser parcial ou mitifi cada. Ela varia com o lugar e o ponto de vista que cada um ocupa. Não importa: ele propõe e impõe uma série de marcas que, sem dúvida, não são aquelas da harmonia selvagem ou do paraí- so perdido, mas cuja ausência, quando desaparecem, não se preenche com facilidade.
(AUGÉ, 2004, p.54)
Podemos dizer que o lugar envolve a idéia de uma construção, tecida pro relações sociais que se realizam no plano do vivido, o que garante uma
79 A cidade de Anchieta, antiga aldeia indígena de Riritiba, é uma ocupação das mais antigas do