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A semiosfera como síntese

No documento PORTCOM (páginas 53-57)

Lucia Santaella

2. A semiosfera como síntese

O conceito de semiosfera foi cunhado por Lótman e encontra-se desenvolvido no seu livro The Universe of the

do questionamento a que Lótman submeteu o conhecido modelo comunicacional de uma mensagem, que é trans- mitida de um emissor a um receptor através de um canal. Para Lótman, esse esquema não é funcional porque, para funcionar, um processo comunicativo tem de “estar imerso num espaço semiótico”. Em analogia com a biosfera, “de- vemos falar de semiosfera, que podemos definir como o espaço semiótico necessário à existência e funcionamento das linguagens, e não a soma total das diferentes linguagens; [...] fora da semiosfera não pode haver comunicação nem linguagem” (ibid., p. 123-124). Em suas próprias palavras:

Qualquer linguagem está imersa num espaço se- miótico e só pode funcionar na interação com esse espaço. A unidade da semiose, o menor mecanismo de funcionamento, não está numa linguagem sepa- rada, mas no todo do espaço semiótico da cultura em questão. Esse é o espaço que chamo de semios- fera. A semiosfera é o resultado e a condição para o desenvolvimento da cultura; justifico esse termo em analogia com biosfera, como Vernadsky o definiu, a saber, a totalidade e o todo orgânico da matéria viva e também a condição para a continuidade da vida. [...] A semiosfera está marcada por sua hetero- geneidade. As linguagens que preenchem o espaço semiótico são várias e elas estão relacionadas umas com as outras num espectro que vai da completa traduzibilidade mútua à completa intraduzibilidade mútua. A heterogeneidade é definida tanto pela di- versidade de elementos quanto por suas diferentes funções” (ibid., p. 125).

Enquanto no entendimento de Lótman, o conceito de semiosfera limita-se ao universo da mente e cultura hu- manas, o biossemioticista dinamarquês Jesper Hoffmeyer,

apropriou-se do nome, semiosfera, mas ampliou sobrema- neira o conceito de Lótman para abraçar também o mun- do bioecológico. Hoffmeyer diz que entende a semiosfera como uma esfera semelhante à atmosfera, à hidrosfera e à biosfera. Ela penetra em cada canto dessas outras esferas incorporando todas as formas de comunicação: sons, chei- ros, movimentos, cores, formas, campos elétricos, radiação térmica, ondas de todos os tipos, sinais químicos, toques, e assim por diante. Em suma: signos da vida. [...] Todas as plantas e animais – todos os organismos chegam a isso: – a vida, antes de mais nada, num mundo de significação. Tudo que um organismo sente significa algo para ele: alimento, voo, reprodução – ou ainda, desespero. Pois certamente os seres humanos também habitam a biosfera” (1996, p. VII).

Em suma, no decorrer do seu livro, Hoffmeyer nos mostra “como nós humanos vivemos, do mesmo modo que todos os outros animais, plantas, protistas, fungos e bactérias, dentro da semiosfera”. Assim sendo, a biosfera deve ser vista à luz da semiosfera e não o contrário (ibid., p. VIII). Para isso, o autor segue o crescimento da semiosfera desde os seus primór- dios, setecentos mil anos depois do big bang até os animais e plantas de hoje. Segue também a semiosfera no coração dos organismos, lá onde enxames de células se aninham numa cacofonia de mensagens. Demonstra ainda como foi possível que esses enxames de células finalmente se transformassem em enxames pensantes dentro dos seres humanos até o pon- to de falarem uns com os outros, diferenciando entre o bem e o mal (Santaella e Nöth ibid.: 200-201).

A proposta de Hoffmeyer não é muito distinta da propos- ta de Pierre Lévy (2000, p. 65), quando este afirma a existên- cia de um único processo evolutivo desde a primeira célula até a inteligência coletiva do ciberespaço. A diferença entre ambos está apenas no instrumento de que se servem para justificar o arco íris contínuo que vai da célula às tecnologias

comunicacionais. Enquanto para Hoffmeyer, a continuidade é fruto de processos semióticos, ou seja, comunicacionais, de transmissão e troca de mensagens, para Lévy, a linha evolutiva se explica pela hierarquia dos processos de codificação que vão do DNA, passam pelo sistema nervoso e formas de ex- periência, até chegar nos sistemas de codificação da lingua- gem e da cultura cujas etapas evolutivas seguiram o seguinte percurso: a escrita, o alfabeto, a imprensa, o ciberespaço, cada estágio, cada camada integrando a sua precedente e condu- zindo a uma nova diversificação e expansão do universo cul- tural. Ainda para Lévy, quanto mais há comunicação e inter- conexão, mais rápida e rica a vida cultural se torna, devido à ampliação da variedade de gêneros (ibid., p. 63).

A tecla em que Hoffmeyer e Lévy estão batendo, de que a semiose e a comunicação já têm início no mundo bioló- gico, do qual a fala e cultura humanas são uma amplificação e complexificação, já está se tornando internacionalmente consensual. Frente a isso, o passo que estou querendo dar, à luz de Peirce, implica um lance mais ousado do que os de Hoffmeyer e Lévy e também muitíssimo mais ousado do que o de Lótman. Tomando como base o sinequismo ou antidualismo radical da metafísica idealista objetiva de Peir- ce, estou propondo a ruptura com todas as divisões dualistas herdadas de Descartes, lançando a tese da inexistência de se- paração não apenas entre a biosfera e a esfera da cultura, mas muito mais do que isso, lanço a tese de que, embora haja miríades de distinções de graus entre elas, não há distinção de espécie entre a bio-eco-antropotecnoesferas e a fisioes- fera. Embora possa parecer ousada, essa minha tese em nada contradiz a afirmação peirceana de que “o universo inteiro está permeado de signos, se é que ele não seja composto ex- clusivamente de signos” (CP 5.448, n. 1), afirmação esta que tanto tem assombrado as almas inveteradamente cartesianas, mesmo daqueles que se dizem conhecedores de Peirce.

Para que essa tese não seja tomada como uma simples generalização pansemioticista, ou como um holismo ralo, plantado levianamente nas terras úmidas das metáforas, é necessário explicitar o sentido que Peirce deu a semiose, cuja lógica, que é a lógica triádica dos signos, pode dar suporte ao alargamento do conceito de semiosfera para cobrir todos os domínios que vão do físico, passam pelo ecobiológico, até o domínio do antropológico, cultural e tecnológico. O arco é, sem dúvida extenso, mas estou con- victa de que ele se sustenta em conceitos e argumentos e não apenas em aprazíveis metáforas.

No documento PORTCOM (páginas 53-57)