Lucia Santaella
3. Causação final e semiose
Como já foi visto anteriormente, para Peirce, os prin- cípios da flecha do tempo são paradigmáticos de qualquer processo evolutivo tanto na natureza quanto na mente. O que ele buscava era a definição de um processo irreversí- vel que fosse suficientemente abstrato capaz de englobar o mental e o físico. Esse processo abstrato geral, capaz de abraçar todos os reinos, no amplo arco que se estende do físico até o psíquico, ele encontrou na noção de lei da men- te cuja forma de expressão se dá através da causação final, conforme desenvolvi essa questão em vários trabalhos já publicados (1992, 1994, 1996, 1999, 2004, 2009).
Para sintetizar o que já foi discutido nesses outros tra- balhos, basta dizer que o conceito de causação final abraça, numa lógica única e complexa - aquela da triadicidade -, as ideias co-extensivas de tempo, pensamento, inteligência, vida, crescimento e evolução. Desse modo, a chave para a causalidade final está nos conceitos relacionados com a ter- ceiridade, isto é, continuidade, generalidade, lei, mente, lei da mente, aquisição de hábito e mudança de hábito.
A forma prototípica de causação final é aquela da men- te. "A mente tem seu modo universal de ação, a saber, por causação final. Ser governada por causas finais é a própria essência do fenômeno psíquico em geral (CP 1.269, ver também 2.66 e 7.559). Embora tenha na mente, na ativida- de psíquica, sua forma privilegiada de manifestação, a cau- sação final não se restringe ao psiquismo (CP 1.269), nem se limita ao reino biológico. Tanto quanto os organismos biológicos, as máquinas, tais como os computadores, tam- bém exibem a causalidade final. Assim sendo, haverá mente ou causação final onde houver triadicidade. Onde houver tendência para a mudança de hábito, para aprender, para o crescimento, ou evolução, aí haverá mente, não importando quão rudimentar essa ação possa ser.
Em síntese, a causação final é inerente a qualquer ativi- dade direcionada para um fim. Trata-se da forma geral de um processo, a tendência para um estado final, "o traço ge- ral de tal tendência em qualquer meio que possa ocorrer" (Ransdell, 1977, p. 163). Que os processos vivos exemplifi- cam algumas dessas formas foi plenamente reconhecido sob rótulos tais como "cibernética", "homeostase", e particular- mente "teleonomia".
Portanto, quando se fala em causação final ou ação inte- ligente, no contexto do pensamento de Peirce, não se deve entender esse adjetivo dentro de limites antropocêntricos, pois se trata de um conceito que recobre o campo semânti- co de termos tais como inteligência, mente, pensamento --- que não são privilégios da espécie humana. Onde houver tendência para aprender, para processos de autocorreção, para mudanças de hábito, onde houver ações direcionadas para um fim, haverá inteligência, onde quer que ela ocorra: no grão do pólen que fertiliza o óvulo de uma planta (W1, p. 333), no voo de um pássaro, no sistema imunológico, em um robô, na perversidade do inconsciente, ou na razão e
ação humanas. É por isso que a causalidade final deve ser compreendida lado a lado com conceitos cibernéticos, tal como feedback, em conceitos biológicos, tais como morfo- gênese, teleonomia, autopoiesis, ou mesmo em conceitos naturais, tais como caos determinista, estruturas dissipativas e sistemas auto-organizativos (Short, 1983, Ransdell, 1983).
Para que as pontas desse percurso fiquem mais bem amarradas, é preciso agora dizer que a forma lógica da causação final está dada na semiose ou ação do signo. Em muitas ocasiões Peirce afirmou que a forma mais simples da terceiridade está no signo. Nessa medida, o processo da ação do signo ou semiose está técnica e formalmente des- crito nas enumeráveis definições dos signos que Peirce nos legou. Não há nada exclusivamente antropológico na se- miose, visto que essa lógica é capaz de descrever processos biológicos e mesmo físicos de qualquer espécie, contanto que sejam irreversíveis e apresentem uma tendência assin- tótica para a finalização de um estado de coisas (Emmeche, 1991, Hoffmeyer e Emmeche, 1991). Muito provavelmente toda ação sígnica tem algo de antropomórfico, na medida em que envolve sempre a causação através de abstrações ou formações gerais, cuja forma típica é encontrada no auto- controle que a mente humana pode exercer sobre a con- duta. Mas o que surge aqui é simplesmente uma das formas típicas da causação final, talvez a mais complexa, mas não sua forma exclusiva. Assim, a liberalização por que Peirce fez passar termos como "mente", "inteligência" e "pensa- mento" teve por finalidade tornar evidente a continuida- de que existe entre a mente humana e outros processos movidos por um propósito; estes exibem alguma forma de mentalidade, que inclui, entre outras, o comportamento de micro-organismos, a evolução biológica, e mesmo o cres- cimento dos cristais. Esta postulação está perfeitamente de acordo com teoria das estruturas dissipativas (Prigogine e
Stengers, 1984), nas quais a causação final reside na tendên- cia para a ordem que Prigogine encontrou até mesmo em tipos rudimentares de reações químicas.
Como se pode ver, o conceito peirceano da mente, como sinônimo de causação final e expresso na lógica da semiose, é um conceito muito amplo e liberal. Mas é justamente essa liberalização que coloca esse conceito em sintonia com algumas das mais recentes preocupações na física, biologia, inteligência artificial e o habilita para nos auxiliar a pensar as revoluções tecnológicas atuais que funcionam não ape- nas como amplificação de nossas funções corporais e de nossas capacidades perceptivas e sensórias, mas também de nossas forças cerebrais. O modelo lógico básico da semiose, que se expressa na definição de signo, não é apenas um mo- delo para a descrição da mente, pensamento, inteligência, continuidade e crescimento, ele é também consequente- mente um modelo para o entendimento da evolução, visto que Peirce acreditou que processos evolutivos em geral são manifestações da mente, entendida no sentido alargado que ele deu a essa palavra. O que, na época de Peirce, soava como um aparente absurdo, é exatamente aquilo que está soando como mais atual no debate contemporâneo sobre a nova antropomorfia pós-humana.
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