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1 SOCIEDADE DE RISCO

1.4 A SOCIEDADE DE CONSUMO

Mesmo com a necessidade de uma conscientização quanto à imprescindibilidade de um novo modelo social, pautado na sustentabilidade, tem-se que a existência de uma sociedade de consumo ainda é fator a ser enfrentado e, mais do que isso, um paradigma econômico e social predominante no mundo que precisa urgentemente ser remodelado, se não superado.

Na sociedade de consumo há, sobremaneira, um desejo socialmente expandido de aquisição de coisas supérfluas, daquilo que excede o necessário à subsistência humana, esbarrando, sobretudo, no luxo95. Nesse modelo de vida, a estrutura social é marcada pela insaciabilidade e constante insatisfação “onde uma

e a velocidade de reajuste em relação aos padrões cambiantes do mundo "lá fora"”. (BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2001. p. 77.

95 RETONDAR, Anderson Moebus. A reconstrução do indivíduo: a sociedade de consumo como contexto social de produção de subjetividades. Sociedade e Estado, Brasília, v. 23, n. 1, p. 137-160, jan./abr. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/se/v23n1/a06v23n1.pdf>. Acesso em:

4 dez. 2018.

necessidade preliminarmente satisfeita gera quase automaticamente outra necessidade, num ciclo que não se esgota, num continuum onde o final do ato consumista é o próprio desejo de consumo”96.

Isso se deu, historicamente, com a expansão em larga escala da produção capitalista, “especialmente depois do impulso recebido da gerência científica e do

“fordismo”, por volta da virada do século XIX ao XX, que necessitou da construção de novos mercados e da “educação” de novos públicos consumidores por meio da publicidade e da mídia”97. Em razão do advento de uma cultura massificada e consumerista, a ideia de felicidade foi subvertida, posto que “na sociedade de consumo, ser feliz deixou de representar um meio como se vai e passou a ser percebido como um fim a que se chega”98. E isso é mais perceptível quando Bauman afirma que “a soma total da felicidade humana cresce conforme uma quantidade maior de dinheiro troca de mãos”99.

No curso do século XIX, a economia de mercado passou a existir e se desenvolver efetivamente, sendo seu avanço e triunfo “decorrentes de uma racionalização contábil e da reorganização nas esferas jurídica, política e administrativa”. Nesse momento, a racionalização e reorganização, atreladas à existência de farta mão-de-obra [e barata], foram fatores essenciais à formação de uma conjuntura para a sedimentação de um modelo de produção capitalista no ocidente100.

No início do século XX, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial e, posteriormente, da Segunda Guerra, o novo contexto econômico e social sugeriu – já na esteira do desenvolvimento da sociedade de consumo – duas sequelas: (1) a primeira, associada ao terror da guerra, medo, destruição e mortes, diz respeito a um

96 RETONDAR, Anderson Moebus. A reconstrução do indivíduo: a sociedade de consumo como contexto social de produção de subjetividades. Sociedade e Estado, Brasília, v. 23, n. 1, p. 137-160, jan./abr. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/se/v23n1/a06v23n1.pdf>. Acesso em:

4 dez. 2018.

97 FEATHERSTONE, Mike. Cultura de consumo e pós-modernismo. São Paulo: Studio Nobel, 1995.

p. 32.

98 VOLPI, Alexandre. A história do consumo no Brasil. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007. p. 90.

99 BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2004. p. 87.

100 GONÇALVES, Sérgio Campos. Cultura e sociedade de consumo: um olhar em retrospecto. In Revista, a. 3, n. 5, p. 18-28, 2008. Disponível em:

<http://livros01.livrosgratis.com.br/ea000713.pdf>. Acesso em: 16 nov. 2020.

sentimento de aversão às ideologias que colocam o sujeito a serviço de ações utópicas teleológicas, que culminariam em mais dor e sofrimento; e, (2) a segunda relaciona-se ao surgimento e ao aprimoramento de técnicas industriais de produção e ao mercado. À medida que a indústria passa a produzir, agora, em larga escala, artefatos militares para promover a morte, a guerra produz a demanda. Da mesma forma, ainda, existe “produção e mercado para produtos dos mais diversos gêneros e, entre eles, os culturais, os quais são veiculados através do teatro, da literatura, das artes plásticas, pelo rádio e, mais tarde, pela televisão”101.

Na sociedade atual [do risco e de consumo], vive-se em um espaço-tempo de contínuo desenvolvimento de um processo de criação de necessidades, no qual o modelo capitalista apresenta à sociedade e à individualidade dos sujeitos extensa variedade de consumíveis (ou seja, produtos, serviços e informações) que, em razão da globalização, são compartilhados e exauridos imediatamente.

O consumo, na atualidade, poderia ser encarado até mesmo como parte da natureza do sujeito102, uma vez que o capitalismo imprimiu na sociedade a ideia de que é necessário consumir para adquirir aquilo que é minimamente necessário à subsistência e sobrevivência humana, sem prejuízo, contudo, da criação e modificação dessas “necessidades” de acordo com interesses do mercado capitalista103. O supérfluo passa a ser igualmente imprescindível, alimentando um loop temporal, coordenado pela ausência de reflexibilidade e nutrido pela insaciabilidade de “novas” e “melhores” necessidades. O tempo e o espaço se [re]dimensionam para

101 GONÇALVES, Sérgio Campos. Cultura e sociedade de consumo: um olhar em retrospecto. In Revista, a. 3, n. 5, p. 18-28, 2008. Disponível em:

<http://livros01.livrosgratis.com.br/ea000713.pdf>. Acesso em: 16 nov. 2020.

102 É que “A questão do “indivíduo” – enquanto elemento estrutural deste processo – torna-se, então, patente, tendo em vista que a “ele” se reporta a consolidação de marcas identitárias, que somente se fixam através de sua “adesão” ou não a tais marcas, encontrando-se estas associadas aos objetos dispostos hierarquicamente no interior do sistema de consumo”. (RETONDAR, Anderson Moebus. A reconstrução do indivíduo: a sociedade de consumo como contexto social de produção de subjetividades. Sociedade e Estado, Brasília, v. 23, n. 1, p. 137-160, jan./abr. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/se/v23n1/a06v23n1.pdf>. Acesso em: 4 dez. 2018.)

103 Tanto que “necessidade” pode ser compreendida a partir de um conceito relativo. Isso porque, “as necessidades não são constantes porque elas são categorias da consciência humana desde que a sociedade se transforma, a consciência da necessidade transforma-se também. O problema é definir exatamente em que a necessidade é relativa, e entender como as necessidades surgem. As necessidades por serem definidas a respeito de um número de diferentes categorias de atividade – permanecendo estas completamente constantes no tempo (alimento, habitação, cuidados médicos, educação, serviço social e ambiental, bens de consumo, oportunidades de lazer, amenidades de vizinhança, facilidades de transporte).” (HARVEY, David. A justiça social e a cidade. São Paulo:

Hucitec, 1980. p. 87.)

uma ruptura do presente e do local, enquanto a (in)capacidade de distinção e racionalização entre a necessidade real e o que é criado e incutido em nossas vidas pelo mercado, nos aproxima de um buraco negro, esboçado pela fragilidade dos sentimentos e do atual modelo de estado.

Jean Baudrillard, segue uma linha semelhante, ao dispor que todas as sociedades “desperdiçaram, dilapidaram, gastaram e consumiram sempre além do estrito necessário, pela simples razão de que é no consumo do excedente e do supérfluo que, tanto o indivíduo como a sociedade, se sentem não só existir, mas viver”104. O sistema de consumo, nessa linha, opera mediante um processo estratégico, contínuo, de criação de necessidades. Para Zanirato e Rotandaro, dentro deste ciclo de consumo:

Os indivíduos inseridos nessa lógica, com a vida voltada para o consumo, acabam por acelerar esse processo à medida que apresentam a constante preocupação de "estarem e permanecer à frente" da tendência de estilo, ou seja, de pertencerem ao grupo de referência dos "pares", dos "outros que contam", daqueles que através da aprovação ou da rejeição traçam a tênue linha entre sucesso e fracasso. Esse "estar à frente da tendência de estilo" oferece uma espécie de bônus duplo, pois deixa o consumidor momentaneamente atualizado, ao mesmo tempo que lhe confere uma salvaguarda que evita deixá-lo para trás no futuro (se é que isso é possível).105

Após o estabelecimento das necessidades básicas [ou primárias], a evolução histórica da sociedade à atual de consumo, trouxe, igualmente, “o desenvolvimento de necessidades no domínio do lazer e da cultura, o consumo dos sentidos associados a objectos e situações”[sic]. A construção das identidades individuais passa a ser [re]construída a partir de novas experiências: de massificação dos bens e serviços de consumo à quebra dos laços sentimentais nas relações interpessoais. Nas palavras de Teresa Barata Salgueiro, ainda, “com o avanço da modernidade e os aumentos da complexidade social, o consumo passa a desempenhar um papel decisivo na construção das identidades”106.

104 BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Coimbra: Ed. 70, 2001. p. 38.

105 ZANIRATO, Sílvia Helena; ROTONDARO, Tatiana. Consumo, um dos dilemas da sustentabilidade.

Estudos Avançados, São Paulo, v. 30, n. 88, set./dez. 2016. Disponível em:

<https://doi.org/10.1590/s0103-40142016.30880007>. Acesso em: 16 nov. 2020.

106 BARATA SALGUEIRO, Teresa. Oportunidades e transformação na cidade centro. Finisterra, v. 41, n. 81, p. 9-32, 2006. Disponível em: <https://doi.org/10.18055/Finis1460>. Acesso em: 16 nov. 2020.

É que, se, em um primeiro momento, a ideia de padronização delimitou a sociedade de consumo, na qual “a diferenciação marcava-se pela proximidade com o estilo de vida e padrão de consumo de algum grupo bem estabelecido e legitimado na sociedade, que se tornava um grupo de referência”, no contexto contemporâneo, o elemento a destacar o consumismo, ao que parece, seria a diferenciação pela identificação107. Dito de outro modo, segundo Anderson Moebus Retondar:

Seria plausível afirmar que, no plano da sociedade de consumo contemporânea, marcada por uma cultura ao mesmo tempo altamente fragmentada e objetiva, a questão do “indivíduo” enquanto agente do processo social torna-se imperativa por um motivo especial: ele passa a ser a principal referência para a constituição de identidades, isto é, passa a constituir uma das principais referências a partir da qual grupos e segmentos sociais se formam, de acordo com a absorção de marcos de identificação como símbolos, signos, imagens e representações que se encontram dispostos em um sistema de consumo que compreende desde o mercado até as estruturas de comunicação social, como a indústria cultural e a publicidade108. Bauman, categoricamente, afirma que nossa sociedade é uma sociedade de consumo. Isso porque, segundo ele, “quando falamos de uma sociedade de consumo, temos em mente algo mais que a observação trivial de que todos os membros dessa sociedade consomem; todos os seres humanos, ou melhor, todas as criaturas vivas “consomem” desde tempos imemoriais”109. O autor, adiante, vai além, ao defender que a sociedade de consumo não se configura apenas pelo consumo desenfreado e imediato de bens e serviços. Segundo o teórico, para os sujeitos integrantes da sociedade de consumo (ou seja, ou consumidores), “estar em movimento — procurar, buscar, não encontrar ou, mais precisamente, não encontrar ainda — não é sinônimo de mal-estar, mas promessa de bem-aventurança, talvez a

107 RETONDAR, Anderson Moebus. A reconstrução do indivíduo: a sociedade de consumo como contexto social de produção de subjetividades. Sociedade e Estado, Brasília, v. 23, n. 1, p. 137-160, jan./abr. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/se/v23n1/a06v23n1.pdf>. Acesso em:

4 dez. 2018.

108 RETONDAR, Anderson Moebus. A reconstrução do indivíduo: a sociedade de consumo como contexto social de produção de subjetividades. Sociedade e Estado, Brasília, v. 23, n. 1, p. 137-160, jan./abr. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/se/v23n1/a06v23n1.pdf>. Acesso em:

4 dez. 2018.

109 BAUMAN, Zigmunt. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999. p.

87.

própria bem-aventurança. Seu tipo de viagem esperançosa faz da chegada uma maldição”110.

O autor ainda afirma que o jogo do consumidor não se traduz pela avidez de adquirir, de possuir, de acumular riqueza no seu sentido material, palpável, “mas a excitação de uma sensação nova, ainda não experimentada”, uma vez que “os consumidores são primeiro, e acima de tudo, acumuladores de sensações; são colecionadores de coisas apenas em um sentido secundário e derivativo”111. A esse processo, Bauman apresenta a definição de “estado de perpétua suspeita e pronta satisfação”. Em suas palavras:

Para aumentar sua capacidade de consumo, os consumidores não devem nunca ter descanso. Precisam ser mantidos acordados e em alerta sempre, continuamente expostos a novas tentações, num estado de excitação incessante — e também, com efeito, em estado de perpétua suspeita e pronta insatisfação. As iscas que os levam a desviar a atenção precisam confirmar a suspeita prometendo uma saída para a insatisfação: “Você acha que já viu tudo? Você ainda não viu nada!”112

Diante disso, a sociedade de consumo é um fenômeno que precisa ser encarado para a concretização da sustentabilidade. O modelo de vida capitalista, em que uma mercadoria desejável e desejada, é a matéria prima de que são feitos os objetivos dos seres humanos113, tornou-se insubsistente em si mesmo, porquanto, ao passo em que o sujeito, nesse modelo de vida, encontra sua felicidade em pouco tempo, ela se torna insaciável e o leva a consumir novamente para alimentar o “vício”, em um ciclo contínuo.

É importante refletir que um novo modelo de vida humana, pautado no Estado de Direito Sustentável114 – à medida que o ciclo de consumo é alimentado –, mais se afasta de ser concretizado, notadamente porque, paralelamente às mazelas da sociedade de consumo, um mundo de felicidade e utopias imediatas é alimentado

110 BAUMAN, Zigmunt. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999. p.

91.

111 BAUMAN, Zigmunt. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999. p.

91.

112 BAUMAN, Zigmunt. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999. p.

91-92.

113 BAUMAN, Zygmunt. Vida para o consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2008. p. 22.

114 O conceito operacional será abordado no segundo capítulo da tese.

e fortificado em escala mundial, o que, por sua vez, revela-se em insatisfação e busca pela superação desse estado, ou seja, o ciclo se torna constante, pois não há momento algum em que o sujeito se sacia por aquilo que procurava.

Assim, as mazelas trazidas pela modernidade e pelo consumismo desenfreado e, como soma desses dois movimentos, os riscos, incertezas e liquidez dos sentimentos e do próprio modelo de Estado atual, nos evidencia que, muito mais do que encontrar soluções técnicas, um dos principais desafios da sociedade contemporânea é o de conseguir a mudança de hábitos, valores e atitudes. E isso, importa afirmar, não é nada fácil, “pois implica reconhecer que as formas de consumo não são sustentáveis”115. Se o caminho para a construção de um Estado de Direito Sustentável passa pela materialização da própria sustentabilidade, ou seja, da transformação do discurso em prática, a ruptura de velhos paradigmas e um novo olhar à prestação jurisdicional se mostra essencial, de modo a superar o fascínio pelo consumo e a pressão do mercado capitalista.

1.5 OBSOLESCÊNCIA PLANEJADA: UMA REPROGRAMAÇÃO DA SOCIEDADE