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4 A ATUAÇÃO DO JUIZ E A EFETIVAÇÃO DE UM ESTADO DE

4.2 A SUSTENTABILIDADE COMO PRINCÍPIO ESTRUTURANTE DO

Nesse ponto da pesquisa defender-se-á a sustentabilidade como conceito imanente ao ordenamento constitucional, com força suficiente à sua caracterização como princípio orientador do sistema normativo, de aplicabilidade ampla em várias áreas. Obviamente que não se pretende essa demonstração sem uma necessária análise teórica capaz de dar-lhe consistência jurídica, como condição de eficácia e adequação.

A conceituação de sustentabilidade sistêmica como princípio jurídico de característica interdisciplinar, cujo sentido e alcance devem ser extraídos da Carta Republicana, irradia seus efeitos para todo o ordenamento.

O alemão Häberle defende “que é tempo de considerar a sustentabilidade como elemento estrutural típico do Estado que hoje designamos Estado Constitucional”464. Canotilho vai além ao vaticinar que “a sustentabilidade configura-se como uma dimensão autocompreensiva de uma constituição que leve a sério a salvaguarda da comunidade política em que se insere”465.

Alguns autores aludem o surgimento de um novo paradigma secular, de igual gênese daqueles que se sucederam no desenvolvimento do constitucionalismo (humanismo no século XVIII, questão social no século XIX, democracia social no século XX e, agora, a sustentabilidade no séc. XXI). Para Canotilho:

Tal como outros princípios estruturantes do Estado Constitucional – democracia, liberdade, juridicidade, igualdade – o princípio da sustentabilidade é um princípio aberto carecido de concretização conformadora e que não transporta soluções prontas, vivendo de ponderações e de decisões problemáticas. É possível, porém, recortar, desde logo, o imperativo categórico que está na génese do princípio da sustentabilidade e, se se preferir, da evolução sustentável:

os humanos devem organizar os seus comportamentos e ações de forma a não viverem: (i) à custa da natureza; (ii) à custa de outros seres humanos; (iii) à custa de outras nações; (iiii) à custa de outras gerações. Em termos mais jurídico-políticos, dir-se-á que o princípio da sustentabilidade transporta três dimensões básicas: (1) a

464 HÄBERLE, Peter. Nachhaltigkeit und Gemeineuropäisches Verfassungsrecht. In: KAHL, Wolfgang (Org.). Nachhaltigkeit als Verbundbegriff. Tübingen: Mohr Siebeck, 2008. p. 200.

465 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. O princípio da sustentabilidade como princípio estruturante do direito constitucional. Tékhne: Revista de Estudos Politécnicos, Barcelos, v. 8, n. 13, p. 7-18, jun.

2010.

sustentabilidade interestatal, impondo a equidade entre países pobres e países ricos; (2) a sustentabilidade geracional que aponta para a equidade entre diferentes grupos etários da mesma geração (exemplo: jovem e velho); (3) a sustentabilidade intergeracional impositiva da equidade entre pessoas vivas no presente e pessoas que nascerão no futuro466.

De forma enfática, Bosselmam defende a necessidade da aplicação do princípio da sustentabilidade enquanto princípio jurídico basilar da ordem jurídica local e internacional467. Argumenta que o princípio da sustentabilidade deve contribuir com a ecologização dos demais princípios e, desde que devidamente impulsionado pela força real da sociedade civil, servirá também como caminho para uma governança com sustentabilidade ecológica e social.

Nesse contexto, Kahl aduz que não é fácil determinar o conteúdo jurídico468 do princípio da sustentabilidade. Afirma que alguns autores consideram-no como um

“conceito de moda e em moda” favorecedor de ocultações ideológicas (era e é a tese de muitos neoconservadores norte-americanos). Outros rotulam-no de “conceito holístico” inteiramente assente em conceitos também holísticos como são os da globalização, integração, justiça intergeracional, participação, equidade geracional.

Outros ainda veem nele um “conceito-chave”, um “conceito represa” que, à semelhança do princípio do Estado de direito e do princípio democrático, pressupõem operações metódicas de otimização e concretização.

O jurista alemão enfatiza que sustentabilidade procura captar aquilo que a doutrina atual designa por “três pilares da sustentabilidade”: (i) pilar I – a sustentabilidade ecológica; (ii) pilar II – a sustentabilidade econômica; (iii) pilar III – a sustentabilidade social. Neste sentido, a sustentabilidade perfila-se como um

“conceito federador” que, progressivamente, vem definindo as condições e pressupostos jurídicos do contexto da evolução sustentável. No direito internacional, a sustentabilidade é institucionalizada como um quadro de direção política nas

466 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. O princípio da sustentabilidade como princípio estruturante do direito constitucional. Tékhne: Revista de Estudos Politécnicos, Barcelos, v. 8, n. 13, p. 7-18, jun.

2010.

467 BOSSELMANN, Klaus. The principle of sustainability: transforming law and governance.

Farnham: Ashgate, 2008. p. 79 e ss.

468 KAHL, Wolfgang. Einleitung: Nachhaltigkeit als Verbundbegriff. In: ______ (Org.). Nachhaltigkeit als Verbundbegriff. Tübingen: Mohr Siebeck, 2008. p. 12 e ss.

relações entre os Estados (exemplos: Convenção sobre as mudanças climáticas, Convenção sobre a biodiversidade e Convenção sobre o patrimônio cultural).

O princípio da sustentabilidade aponta para a necessidade de novos esquemas de direção. Engendra-se como novo paradigma indutor a redefinir as pautas axiológicas em plano local, nacional e, até mesmo, transnacional.

A sustentabilidade alcança a lógica estruturante do Estado Constitucional da atualidade e, desse modo, passa a atuar como princípio de orientação, transformando-se em regra de conduta dos cidadãos, governantes, estados, poderes, enfim, de toda a sociedade em geral, impingindo-lhes consciência social, econômica e ambiental de seus atos. Assim sendo, as leis, as políticas públicas e as decisões governamentais serão influenciadas pela sustentabilidade, mediante a implementação de ações concretas para um desenvolvimento sustentável, harmonioso e mais humano. Não será diferente com o cidadão sustentável, comprometido com o consumo necessário (não supérfluo), com a utilização de energias limpas e renováveis, bem como de produtos biodegradáveis, a reciclagem de resíduos sólidos, a preservação do meio ambiente e o respeito à igualdade entre as pessoas, sem discriminações em razão de religião, orientação sexual, cor, raça, aderindo às políticas inclusivas e que minimizem as diferenças sociais e econômicas entre as pessoas.

Do conceito a ser esmiuçado na tese, depreender-se-á que a sustentabilidade correlaciona-se com vários princípios constitucionais. Partindo-se do modelo teórico-discursivo de Alexy, é possível afirmar que a proteção ao meio ambiente, a inclusão social, o desenvolvimento econômico, a preservação da memória cultural e histórica, bem como a gestão pública participativa ganham destaque nessa interação principiológica469. Obviamente que o sentido coerente desses princípios é que serão aplicados em situações jurídicas concretas, pelo norteamento ponderativo dado pelo princípio da sustentabilidade.

Embora não mencionada expressamente na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, Freitas reconhece que a “sustentabilidade, no sistema

469 ALEXY, Robert. Teoria de los derechos fundamentales. Madrid: Centro de Estudos Constitucionales, 1993. p. 592.

brasileiro, é, entre valores, um valor de estatura constitucional”470. Para assim concluir, anota que já no preâmbulo da CRFB/1988 surge o “desenvolvimento”471, que só pode estar vinculado à noção de sustentabilidade. Prossegue mencionando os artigos 3º, inciso II (o desenvolvimento é moldado pela sustentabilidade, e não o contrário)472; 170, inciso VI (consagração expressa da defesa do meio ambiente como princípio de regência da atividade econômica)473; 174, § 1º (planejamento do desenvolvimento equilibrado)474, 192 (o sistema financeiro tem que promover o desenvolvimento que serve aos interesses da coletividade)475; 205 (educação visando ao pleno desenvolvimento da pessoa)476; 218 (desenvolvimento científico e tecnológico com o dever de observância dos limites ecológicos)477, e o artigo 219 (incentivo ao desenvolvimento cultural e socioeconômico, ao bem-estar da população e à

470 FREITAS, Juarez. Sustentabilidade: direito ao futuro. 2. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2012. p. 109-110.

471 “Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.”

472 “Art. 3º. Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: [...] II - garantir o desenvolvimento nacional [...].”

473 “Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: [...] VI - defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação [...].”

474 “Art. 174. Como agente normativo e regulador da atividade econômica, o Estado exercerá, na forma da lei, as funções de fiscalização, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para o setor privado. § 1º A lei estabelecerá as diretrizes e bases do planejamento do desenvolvimento nacional equilibrado, o qual incorporará e compatibilizará os planos nacionais e regionais de desenvolvimento.”

475 “Art. 192. O sistema financeiro nacional, estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do País e a servir aos interesses da coletividade, em todas as partes que o compõem, abrangendo as cooperativas de crédito, será regulado por leis complementares que disporão, inclusive, sobre a participação do capital estrangeiro nas instituições que o integram.”

476 “Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.”

477 “Art. 218. O Estado promoverá e incentivará o desenvolvimento científico, a pesquisa, a capacitação científica e tecnológica e a inovação. [...].”

autonomia tecnológica do país)478, em conjunto normativo completado pelo artigo 225479.

Para complementar as assertivas, Freitas defende:

O ponto é que, quando a Constituição fala em desenvolvimento como valor supremo e como objetivo fundamental, quer necessariamente adjetivá-lo como sustentável, intertemporal e durável. Melhor do que isso: pretende que a sustentabilidade fixe os pressupostos (sociais, econômicos, ambientais, jurídico-políticos e éticos) da conformação do desenvolvimento constitucionalmente aceitável480.

Na seara do direito comparado, abordar-se-á o modelo português, onde o princípio da sustentabilidade recebeu uma consagração expressa no texto constitucional. Naquele ordenamento, está configurado (i) como tarefa fundamental no artigo 9.º/e (“defender a natureza e o ambiente, preservar os recursos naturais e assegurar o correcto ordenamento do território”); (ii) como princípio fundamental da organização econômica no artigo 80.º/d (“Propriedade pública dos recursos naturais…”); (iii) como incumbência prioritária do Estado nos artigos 81.º/a (“…promover o aumento do bem-estar social (…) no quadro de uma estratégia de uma estratégia de desenvolvimento sustentável”), 81.º/m (“Adoptar uma política nacional de energia (…) com preservação dos recursos naturais e equilíbrio ecológico”) e 81.º/n (“Adoptar uma política nacional da água, com aproveitamento, planeamento e gestão racional dos recursos hídricos”); (iiii) como direito fundamental no artigo 66.º/1 (“Todos têm o direito a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado”);

(iiiii) como dever jusfundamental do Estado e dos cidadãos, no artigo 66.º/2 (“Para assegurar o direito ao ambiente, no quadro de um desenvolvimento sustentável, incumbe ao Estado, por meio de organismos próprios e com o envolvimento e a participação dos cidadãos…”); e, (iiiiii) como princípio vetor e integrador de políticas públicas no artigo 66.º/2/c, d, e, f, g (política de ordenamento do território, política cultural, política economica e fiscal, política educativa, política regional).

478 Art. 219. O mercado interno integra o patrimônio nacional e será incentivado de modo a viabilizar o desenvolvimento cultural e sócio-econômico, o bem-estar da população e a autonomia tecnológica do País, nos termos de lei federal. [...].”

479 “Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. [...]”

480 FREITAS, Juarez. Sustentabilidade: direito ao futuro. 2. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2012. p. 110.

Igualmente, em direito comparado, na Constituição da Espanha, dentre tantos outros que retratam o princípio da sustentabilidade, destaca-se, como exemplo, apenas o artigo 45-1, o qual assinala que “todos tienen el derecho a disfrutar de um medio ambiente adecuado para el desarollo de la persona, así como el deber de conservarlo”481.

A sustentabilidade também assume particular relevo em disposições textuais do direito da União Europeia referentes ao ambiente (conforme artigo 191.º e segs. e, em geral, todo o Título XX do Tratado sobre o funcionamento da União Europeia). Nelas, estabelecem-se linhas da política da União destinadas à prossecução da preservação, proteção e melhoria da qualidade do ambiente, da utilização prudente e racional dos recursos naturais, da promoção de medidas destinadas a enfrentar os problemas regionais ou mundiais do ambiente, e, designadamente, do enfrentamento das alterações climáticas.

Nesse contexto, o ponto nevrálgico a ser enfrentado na tese de douturado, com igual força, é se a atividade judiciária pode (e até que ponto) contribuir para a efetivação da sustentabilidade, erigida à categoria de princípio constitucional.

Para Bodnar, na implementação justa da sustentabilidade, a distribuição equitativa dos benefícios, riscos e malefícios gerados pelo desenvolvimento – como critério referencial de justiça social e ambiental – deve ser uma meta constante a ser atingida por intermédio da atuação da jurisdição482.

Na visão do mesmo autor:

O princípio da sustentabilidade deve ser um princípio fundacional da jurisdição ambiental e requer, desta, base cognitiva holística e sistemática. Holística, pela necessidade da consideração de todas as variáveis (direitos e valores) envolvidas direta e indiretamente, e sistemática, pela identificação da função de cada uma das variáveis e

481 Todos têm o direito de desfrutar de um ambiente adequado para o desenvolvimento da pessoa, bem como o dever de preservá-lo (Tradução livre).

482 BODNAR, Zenildo. A sustentabilidade por meio do direito e da jurisdição. Revista Jurídica Cesumar, v. 11, n. 1, p. 325-343, jan./jun. 2011. Disponível em:

<https://periodicos.unicesumar.edu.br/index.php/revjuridica/article/view/1885>. Acesso em: 25 fev.

2021. p. 332.

da maneira e intensidade pela qual interagem para uma adequada valoração reflexiva483.

Se uma das vocações da sustentabilidade é preocupar-se com a necessidade de assegurar condições adequadas de vida digna também para as futuras gerações, não é impróprio falar-se em justiça intergeracional, cuja vinculação ética e jurídica se estabelece com aqueles que estão por vir. Trata-se de um novo e revolucionário conteúdo que se agrega à teoria da justiça que densifica e fortalece os vínculos com o futuro484.

A sustentabilidade, como já visto anteriormente, ganha diferentes contornos que apresentam particularidades, quando enfocada em suas diversas dimensões. Não se pretende, por exaustivo, nesta etapa da pesquisa, novamente dissertar sobre cada uma delas, mas tão somente relembrar quais são: social, econômica e ambiental.

Como o objetivo é apresentar um conceito sistêmico de sustentabilidade, como princípio de índole constitucional, orientador do sistema normativo, cada uma de suas dimensões estará, conforme o seu grau de influência na questão a ser dirimida, em maior ou menor proporção representada. Se estamos tratando de uma catástrofe ambiental decorrente de conduta humana, com certeza a dimensão ambiental terá maior preponderância do que as dimensões social e econômica para a solução da controvérsia posta ao juiz. Não quer se dizer, com isso, que as dimensões de menor preponderância – social e econômica, no exemplo – não terão importância para o deslinde da causa, uma vez que, conforme salientado, na aplicação do princípio da sustentabilidade de forma sistêmica, também deverão ser ponderados pelo julgador.

483 BODNAR, Zenildo. A sustentabilidade por meio do direito e da jurisdição. Revista Jurídica Cesumar, v. 11, n. 1, p. 325-343, jan./jun. 2011. Disponível em:

<https://periodicos.unicesumar.edu.br/index.php/revjuridica/article/view/1885>. Acesso em: 25 fev.

2021. p. 335.

484 A justiça intergeracional, portanto, deve ser a diretriz ou o princípio vetor que ilumina os rumos das ações humanas. Deve-se assegurar para as futuras gerações uma quantidade de bens, não apenas suficiente para a mínima subsistência humana, mas o necessário para a garantia da vida plena em todas as suas formas, nos aspectos, ecológico, social e econômico. Este é, além de um desafio, o compromisso e o dever fundamental da atual geração. (BODNAR, Zenildo. A sustentabilidade por meio do direito e da jurisdição. Revista Jurídica Cesumar, v. 11, n. 1, p. 325-343, jan./jun. 2011.

Disponível em: <https://periodicos.unicesumar.edu.br/index.php/revjuridica/article/view/1885>.

Acesso em: 25 fev. 2021. p. 338.)

Afinal, se é correto afirmar que a sustentabilidade está relacionada ao equilíbrio necessário entre a satisfação das necessidades atuais e a viabilidade da existência das gerações futuras, não menos certo é que, por essa razão, possui caráter sistêmico e interdisciplinar.

4.3 A COOPERAÇÃO INSTITUCIONAL COMO MECANISMO DE CONSAGRAÇÃO