3 ESTIGMATIZAÇÃO E EXCLUSÃO DA LOUCURA
3.4 Exclusão da Loucura
3.4.1 Reflexos urbanos-territoriais da exclusão da loucura
O lugar da loucura no curso dos séculos sempre se apresentou como uma delicada questão, conforme destaca Michael Focault: “deixada sozinha e destacada de seus antigos parentescos, entre os muros desgastados do internamento, a loucura se constitui num problema — colocando questões que até então nunca havia formulado [...]” (FOCAULT, 1972).
Realidade que se agrava no contexto urbano, ambiente construído na lição de Harvey (1996), considerado como
[...] a totalidade das estruturas físicas – casas, ruas, fábricas, escritórios, sistemas de esgoto, parques, equipamentos culturais, etc. [...], uma massa de recursos físicos construídos pelo homem à sua própria imagem, apropriada, em linhas gerais, às finalidades de produção e do consumo [...]
Onde, portanto, o capital exerce grande influência na organização do espaço, a despertar o interesse no conceito de territórios e desterritorialização, que são com frequência trabalhados com base em uma visão política, econômica e cultural. E, a partir de tais definições, busca-se entender os aspectos capazes de impactar a organização social-urbana no espaço, no que se refere à alocação de pessoas que não apresentam habilidade para produzir, em especial, os portadores de doenças mentais.
Deste modo, em primeiro momento, almeja-se compreender a noção de território, que para Rogério Haesbaert, ultrapassa o viés econômico, político e cultural, a se identificar como a dominação simbólica de grupos sociais sobre os espaços em que vivem, com nítido caráter político-disciplinar, que revela a apropriação e ordenação do espaço como forma de domínio e disciplinarização dos indivíduos.
Tais noções estão em consonância com os paradigmas da “Escola de Chicago” que teve particular influência nos estudos sobre as doenças mentais, denominados como “ecológicos”, que procurava relacionar as chamadas patologias sociais (delinquência, prostituição) ao modo de viver nas cidades.
O espaço é tido como um local de construção social (VERAS, 2015, p.77), reflexo das relações intersubjetivas, de um modo de vida, a sobreposição de diversas sintonias, linguagens, como afirma Canevacci (2004, p.18) “a cidade se caracteriza pela sobreposição de melodias e harmonias, ruídos, sons, regras e improvisações cuja soma total, simultânea ou fragmentária comunica o sentido da obra”.
Selma Lancman, ao discorrer sobre o tema, lembra que há que se observar a existência de uma produção de comportamento relacionada ao meio ambiente que, por sua vez, propicia uma ação recíproca de modificação das pessoas dentro do espaço (LANCMAN, 1995, p.40).
Conforme observado no capítulo 02, a principal opção de tratamento das pessoas portadoras de transtornos mentais graves foi o asilo, o isolamento. Asile, madhouse, asylum,
hospizio, são alguns dos nomes que denominam as instituições cujo fim é abrigar, recolher ou
dar algum tipo de assistência aos "loucos". As denominações variam de acordo com os diferentes contextos históricos em que foram criados. O termo manicômio surge a partir do século XIX e designa mais especificamente o hospital psiquiátrico, já com a função de dar um atendimento médico sistemático e especializado.
No Brasil, conforme foi descrito no capítulo anterior, a segregação desses indesejáveis ganhou impulso quando da vinda da família real Portuguesa para a cidade do Rio de janeiro (1808). De acordo com as Posturas da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, de 1832, os considerados loucos deveriam ser mantidos sob a guarda das famílias ou responsáveis, ou recolhidos às casas de saúde apropriadas. As cadeias, e mesmo as precárias enfermarias da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, para onde passaram a serem levados os alienados sem posses e violentos, logo ficaram pequenas demais para comportar todos.
A segregação dos portadores de transtornos mentais, foi medida replicada por todo país, onde centenas de hospitais psiquiátricos foram construídos em locais de difícil acesso, afastados dos centros urbanos, constituindo-se como um mundo a parte, onde os direitos e garantias individuais não ganhavam eco, prestando-se, na realidade, não como centro de cuidados e promoção de bem-estar, mas sim como depósito de pessoas que não se adequavam aos padrões exigidos para a vida em sociedade.
Situação que começa a receber tratamento diverso, quando os princípios da reforma psiquiátrica são implantados no país, a partir de 2001, quando se estabeleceu como meta o fechamento das unidades de internação psiquiátrica de longa duração existente no país.
A partir deste momento, o Estado passa a investir financeiramente na área da saúde mental, disponibilizando as residências terapêuticas, como meio alternativo de tratamento e concedendo benefícios financeiros aos egressos dos referidos nosocômios.
Fatores que se mostraram fundamentais para o sucesso da nova forma de cuidado da loucura trazida pelo legislador. Como ocorreu na cidade de Carmo, onde sem dúvidas o sucesso do projeto terapêutico teve como fator determinante os benefícios auferidos, condição que viabilizou o acesso dos ex-internos a diversos serviços e produtos, movimentando a economia local, contribuindo para que a sociedade lançasse um novo olhar sobre essas grupo.
Nota-se, portanto, que a reforma psiquiátrica, através de uma lei, provocou uma grande mudança nos padrões de comportamento do Estado e da sociedade frente à loucura.
Conforme visto, desde 1852, a internação era o caminho para tratar portadores de transtornos mentais graves. A família, a sociedade e o poder público valiam-se dessas instituições para absterem-se de responsabilidade frente aos seus.
A partir de 2001, inicia-se a caminhada em direção a redistribuições de papéis. Ao doente mental nega-se a possibilidade de exílio. Através da força do direito, a sociedade se vê obrigada a adotar nova postura, abraçar os enfermos e lhe dispensar cuidado de forma digna.
Hoje, a meta é que portadores de transtornos mentais ocupem o mesmo espaço dos demais indivíduos, de acordo com seu grau de autonomia e, recebam tratamento ambulatorial nas proximidades de sua residência, que sejam inseridos no mercado de trabalho e desenvolvam de forma autônoma, na medida de suas habilidades, as tarefas do cotidiano.
Dentro desta lógica, apenas em situações extremas as pessoas devem ser submetidas a internações, de regra, em hospitais gerais56, que mantenham leitos psiquiátricos (saúde
56 Emergências psiquiátricas podem ser caracterizadas como uma condição em que há um distúrbio de
pensamento, emoções ou comportamento, na qual um atendimento médico se faz necessário imediatamente, objetivando evitar maiores prejuízos à saúde psíquica, física e social do indivíduo ou eliminar possíveis riscos à sua vida ou à de outros . Fazem parte dessa clientela tanto indivíduos que possuem história de um transtorno psiquiátrico crônico, que se apresentam num momento de recaída, como pacientes sem história psiquiátrica pregressa, apresentando uma crise aguda. [...] também podem ser definidas como qualquer alteração de comportamento que não pode ser manejada de maneira rápida e adequada pelos serviços de saúde, sociais ou judiciários existentes na comunidade. [...]A necessidade de uma proposta terapêutica mais ampla e humanizada estimulou o surgimento de unidades de internação psiquiátrica em hospitais gerais (UIPHG). Esta proposta permitiu uma redução de estigmas e preconceitos, bem como uma aproximação com as outras especialidades médicas, determinando um cuidado mais universal aos pacientes. Por mais que as internações psiquiátricas em hospitais gerais tenham vantagens na avaliação diagnóstica e no manejo clínico dos pacientes em relação às internações tradicionais, ainda existem obstáculos para a implantação de UIPHG No Brasil, a resistência à implantação das UIPHG era percebida na própria administração pública, bem como nos gestores e equipes
mental). Isto apenas pelo período de tempo necessário para receber medicação, adequada a viabilizar sua estabilização, se elaborar um plano de trabalho intensivo que procure intervir sobre os fatores desestabilizantes do sujeito, que assim poderá retornar ao convívio familiar e social.
No conjunto de melodias da cidade, parafraseando Canevacci, também ressoa o canto da loucura, ocupando seu lugar e conferindo significado ao espaço urbano em que vive. Findo o tempo do exílio, do asilo, da indignidade.
E assim após nos debruçarmos sobre o processo de estigmatização da loucura e sua exclusão, seguiremos com a análise do Estatuto da Inclusão, Lei nº 13.146, de 2015, que tem por função estabelecer, no campo jurídico, o suporte necessário para a integração do portador de transtornos mentais à sociedade.
médicas dos próprios hospitais. Consequentemente, existem poucas UIPHG e a maioria destas se encontra nas regiões brasileiras mais desenvolvidas economicamente. SEPs ligados a hospitais gerais incorporam esta proposta de tratamento mais amplo, mantendo um direcionamento baseado em evidências para os cuidados de saúde, pois avaliam e buscam o manejo de comorbidades clínicas, além dos transtornos psiquiátricos primários. SEPs em hospitais gerais são os serviços de escolha para o encaminhamento de casos que necessitem de um melhor suporte clínico e cirúrgico, como síndromes de abstinência alcoólica, tentativas de suicídios, estados confusionais agudos, além de pacientes psiquiátricos acometidos por doenças clínicas e cirúrgicas que necessitem de retaguarda de unidades de tratamento semi-intensivo ou intensivo. Idealmente, uma rede de saúde mental estruturada deverá ter SEP e UIPHG conjugadas, preferencialmente na mesma unidade hospitalar. Esta relação pode individualizar o tratamento ofertado aos pacientes, como, por exemplo, priorizar o prontoatendimento de casos de primeiro surto psicótico, evitando-se as sequelas de uma duração prolongada entre o início do surto e o início do tratamento. Entretanto, a carência de leitos disponíveis em hospitais gerais e a consequente falta de vagas para internação psiquiátrica faz com que os SEPs que dão suporte às UIPHG fiquem sobrecarregados de casos com comorbidades clínicas, cujo tempo de internação é prolongado. Em grandes metrópoles, acompanhando o aumento da demanda das emergências de outras especialidades clínicas e cirúrgicas, os SEPs acabam funcionando como unidades hospitalares, ao manter pacientes internados por tempo mais prolongado que o convencional (BARROS, 2010).