3.3 O trabalho de Humberto Maturana como fundamentação das teorias
3.3.1 A teoria da Autopoiese – conceitos fundamentais
A chamada Teoria de Santiago45 tem sua premissa básica na auto-organização
como característica dos sistemas vivos. Este conceito rompe com a idéia secular da filosofia clássica de que a existência de algo organizado pressupõe, necessariamente, que existe por trás um organizador externo, uma transcendência capaz de, mesmo de fora, organizar a vida. Ao contrário, a auto-organização aponta que matéria e vida se organizam, no dizer de ASSMAN (1998), desde dentro.
Mas, o que são sistemas vivos?
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“Um sistema é vivo porque é um sistema autopoiético, e é uma unidade no espaço físico porque é definido como unidade nesse espaço por meio e através de sua autopoiese. Conseqüentemente, toda transformação que um sistema vivo experimenta, conservando sua identidade, deve acontecer de uma maneira determinada por sua autopoiese definitória e subordinada a ela; portanto, num sistema vivente, a perda de sua ‘autopoiese’ é sua desintegração como unidade, e a perda de sua identidade, vale dizer, morte”. (MATURANA e VARELA, 1997, p. 108)
Isto é, os seres vivos para Maturana e Varela são como sistemas que produzem continuamente a si mesmos. Cabe aqui a metáfora usada pelos autores supracitados de que os seres vivos são máquinas autopoiéticas e que se distinguem de outras pela sua capacidade de se “autoproduzir”. São as redes de relações internas que definem uma máquina autopoiética e que garantem a autonomia organizacional dos seres vivos.
A teoria da autopoiese constitui uma tentativa explícita de se capturar, numa definição de vida, o que é comum a todos os seres vivos. Isto é, estar o tempo todo se renovando, se reinventando, estar conhecendo e interagindo.
O efeito das interações pode ser percebido como uma forma de atualização das estruturas e formam, em seu conjunto, um sistema aprendente (ASSMAN, 1998). O uso de terminologias, como definido, determinado ou subordinado, não deve induzir o pensamento de que esses sistemas são eminentemente estáveis ou não podem ampliar o seu próprio ciclo de ação. Isso tudo acontece num movimento contínuo e não-linear, lidando constantemente com o aleatório e podendo, através de suas ações, ampliar o ciclo que os produziu. O que ocorre é um processo de contínua mudança estrutural, chamada de deriva transformadora, que acopla o meio e o sistema vivo, através de um processo de co-produção entre o homem e o mundo. Sendo assim,
“um sistema vivente pode ser caracterizado como uma unidade de interações, e como indivíduo, em virtude de sua organização autopoiética, que determina que toda troca nele aconteça subordinada à conservação, fixando limites que determinam o que lhe pertence e o que não lhe pertence em sua materialização específica.” (idem,p. 79).
Os sistemas vivos, entendidos como auto-organizados, têm uma outra especificidade básica: podem ser vistos através da conexão fundamental entre sistemas vivos e sistemas cognoscitivos, bem como de processos de conhecimento e processos
vitais. Portanto, viver e aprender são processos interligados que não podem ser concebidos separadamente.
“(...) No que diz respeito aos sistemas vivos e aos seus processos cognitivos, as estruturas, funcionando segundo uma lógica circular complexa, ao visarem à preservação da organização do ciclo, contemplam um processo complementar de adaptação das estruturas ao ambiente, que, procurando conservar do ciclo o que for possível, ao mesmo tempo produz novas possibilidades com vistas à continuidade da organização, embora com mudanças operadas na estrutura: neste sentido, há um movimento de auto-organização da estrutura organizada com vistas à manutenção da organização, sendo que, neste processo produza novas estruturas e processos, autocriando-se” (COLLARES, 2000, p. 53).
Depreende-se então que, a partir da autopoiese, o sistema vivo é capaz de interagir cognitivamente e assim seu estado interno pode modificar e provocar novas interações. Isto é, na sua organização autopoiética, o ser vivo influencia e sofre influências do meio e dos outros indivíduos. Isto é,
“a auto-organização de um sistema significa a ordem da sua estrutura e suas funções não impostas pelo seu entorno, mas estabelecidas pelo próprio sistema. Esta afirmação não significa que o sistema esteja separado do seu entorno, pelo contrário, interage continuamente com ele sem que este determine sua auto-organização” (ASSMANN, 1998, p.58).
A organização autopoiética se realiza primeiramente pela sua capacidade de construir significados próprios, tendo como referência sua identidade autoproduzida. Isso não significa que são abandonadas as informações do exterior, mas que através das propriedades intrínsecas da autonomia as informações do exterior são acolhidas no entorno interpretativo da organização autopoiética. Ocorre, portanto, o fenômeno do conhecer entendido como “(...) a ação efetiva, ou seja, efetividade operacional no domínio de existência do ser vivo” (MATURANA 1995, p.71). O fenômeno do conhecer é um todo integrado, sendo que não há descontinuidade entre o social e o humano e suas raízes biológicas, conforme esquema a seguir:
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FIGURA 2 - Fenômeno do conhecer segundo Humberto Maturana (1995).
Todo conhecer é uma ação da parte daquele que conhece, dependendo de sua estrutura, sendo que toda esta estrutura está ligada a uma organização que é determinada como base biológica. O indivíduo, através de suas observações, reconhece semelhanças e estabelece relações entre as coisas que vê, ordenando-as. Sendo assim, o processo de assimilação de uma informação está relacionado com o modo de como essa informação é vista pela dinâmica autopoiética do indivíduo.
Dessa forma, o processo do conhecimento pode ser estimulado pela realidade, mas não determinado por ela. O conhecimento é intrínseco e individual, ocorrendo num movimento autopoiético composto por teia individual sem níveis hierárquicos. Isto é, o conhecimento não se organiza em função das exigências externas e sim de exigências internas, do próprio indivíduo, na sua organização autopoiética. É na sua organização autopoiética que aparece a organização sistêmica do indivíduo, garantindo a sua individualidade.
Os seres vivos, mesmo sendo iguais em sua organização, são diferenciados pelas suas estruturas. Todo sistema vivo é determinado por sua estrutura, isto é, pela forma como seus componentes se relacionam entre si num determinado momento (MARIOTTI, 2000). O fato dos sistemas vivos estarem submetidos ao determinismo estrutural não significa que eles sejam previsíveis, ou melhor, predeterminados. O modo específico da organização do ser vivo é constituído de uma organização única, sendo que o ser e o fazer de uma unidade autopoiética são inseparáveis, permitindo visualizar sua autonomia a partir de sua organização autopoiética. A autopoiese do vivo permite- nos entender o modo como ocorre o fenômeno social.
Atividade Molecular + Atividade Biológica + Atividade Social FENÔMENO DO CONHECER
O pressuposto para ocorrer o fenômeno social é a comunicação. Sempre que um sistema influencia o outro, este passa por uma mudança de estrutura. Automaticamente o sistema influenciado dá ao primeiro uma interpretação de como percebeu essa mudança, estabelecendo o diálogo. É no momento em que se estabelece o diálogo que ocorre a interação entre os sistemas, por ter formado um contexto consensual. A interação ocorre no domínio lingüístico. A linguagem, conforme MATURANA (2001, p.27) “não se dá no corpo como um conjunto de regras, mas sim no fluir em coordenações consensuais de conduta”. A linguagem produz um mundo por não ser simplesmente a transmissão de informação e/ou a descrição do universo, mas por permitir através do domínio de interações cooperativas uma contínua transformação do mundo lingüístico.
A linguagem não se dá apenas através de símbolos, signos e/ou conjunto de regras, mas é uma interação de coordenações de ações entre o emissor e o receptor, sendo estas ações levadas em consenso. A linguagem ocorre no espaço de relações e pertence a um âmbito das coordenações de ação, como um modo de fluir nelas. A comunicação somente existe a partir da linguagem, ou melhor, só existe quando há uma coordenação de comportamento envolvendo as pessoas que estão na linguagem.
“Somos como somos em congruência com o nosso meio e que nosso meio é como é em congruência conosco, e quando essa congruência se perde não somos mais” (idem, p.63). Isto significa que, se dois ou mais seres vivos se encontram em interações recorrentes, há uma mudança estrutural congruente entre eles, ou seja, ocorre comunicação. Esta mudança ocorre independente da vontade do indivíduo, e a linguagem, por ser uma coordenação consensual de conduta, faz parte desse processo de mudança. Esse processo se dá quando surge o consenso na convivência. O consenso emerge da aceitação do outro como legítimo, isto é, do amor.