Minha utilização da teoria da complexidade para entender os riscos dos mercados de capitais é uma consequência direta de meu envolvimento com o LTCM, o fundo multimercado que entrou em colapso em 1998 após as estratégias de operação de derivativos darem absurdamente errado.
Após o colapso e o resgate, tive uma conversa com um dos sócios que gerenciavam a empresa. Eu conhecia os mercados
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perts em mercados financeiros. Haviam passado suas carreiras aprendendo física teórica e não sabiam mais sobre os merca- dos de capitais do que qualquer cidadão preocupado com seu plano de aposentadoria complementar.
Eu era diferente dos meus colaboradores. A grande maio- ria deles era composta por físicos tentando aprender sobre mercados de capitais e eu era um expert em mercados de ca- pitais que estudou física. Um dos líderes da equipe em Los Alamos, um engenheiro da computação do MIT chamado David Izraelevitz, disse em 2009 que eu era a única pessoa que ele conhecia com profundos conhecimentos em Finanças e Física que, combinados, poderiam descobrir os mistérios acer- ca do que causa o colapso dos mercados financeiros.
Considerei essas palavras um grande elogio. Sabia que uma teoria da complexidade financeira bem desenvolvida e testada demoraria décadas para ser criada e dependeria da contribuição de muitos pesquisadores, mas fiquei grato de sa- ber que estava contribuindo ao campo com um pé num labora- tório de física e outro plantado em Wall Street. Meu trabalho nesse projeto, e o trabalho de muitos outros, continua até hoje.
■ As Semelhanças entre Hoje e 1998
É importante ter em mente que duas crises nunca são exata- mente iguais. Porém, o passado pode nos ensinar muito e há alguns elementos do presente que realmente se assemelham a crises passadas. Em 2015, os estragos de 2008 ainda estão frescos na memória de muitas pessoas. Faz sete anos, mas não há nada como a experiência de perder tudo – muitas pessoas viram seus fundos de aposentadoria desaparecer.
E não foram apenas os preços de ações que foram afetados, o mercado imobiliário também sofreu. As pessoas perderam suas casas e muitos estudantes que saíram da universidade com grandes dívidas não conseguiram emprego. O que está e prever colapsos. Comecei a dar palestras e a escrever sobre
o tema; tive diversos artigos publicados em jornais científicos. Construí sistemas com parceiros que utilizavam a Teoria da Complexidade, e outras disciplinas relacionadas, para identifi- car os eventos geopolíticos nos mercados de capitais antes que fossem conhecidos pelo público.
Finalmente, recebi convites para trabalhar como professor e consultor nas melhores universidades e laboratórios no ramo da Teoria da Complexidade, como a Johns Hopkins University, a Northwestern University, o Los Alamos National Laboratory, a Singularity University e o Applied Physics Laboratory.
Nesses lugares, continuamente promovi a ideia de esfor- ços interdisciplinares para solução dos maiores mistérios dos mercados de capitais. Eu sabia que um só campo não poderia fornecer todas as respostas, mas uma combinação de conhe- cimentos de vários campos poderia render insights e propor- cionar avanços na arte do gerenciamento de risco financeiro.
Propus que uma equipe composta por físicos, modeladores computacionais, matemáticos aplicados, advogados, econo- mistas e sociólogos aperfeiçoasse os modelos teóricos que eu e outros havíamos desenvolvido.
A proposta foi bem recebida pelos cientistas com quem eu havia trabalhado, mas foi rejeitada e ignorada pelos economistas. Invariavelmente, os melhores economistas con- sideravam que não tinham nada a aprender com físicos e que os modelos econômicos e financeiros padrão forneciam boas explicações para as cotações de títulos e para as dinâmicas dos mercados de capitais.
Sempre que os grandes economistas eram confrontados com um evento 7 Sigmas no mercado, eles o consideravam como um outlier e faziam pequenos ajustes em seus modelos, sem reconhecer que eles não funcionavam.
Com os físicos, o problema era outro. Eles desejavam colaborar com os problemas econômicos, mas não eram ex-
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Em 1997 e 1998, as taxas de juros nos Estados Unidos subiram. Muitas pessoas tinham feito empréstimos em dó- lares e investido em mercados como o da Tailândia. Havia muitos projetos – campos de golfe, hotéis, mercado imobi- liário, tours etc. Mas o problema não foi só na Tailândia. Alguns Tigres Asiáticos fixaram sua moeda em relação ao dólar americano.
Se você fosse um investidor de dólares e comprasse o baht tailandês para fazer alguns investimentos no país, o governo prometia manter seu valor em relação ao dólar. Os investido- res pensaram: “Que ótima ideia! Isso elimina todo meu risco cambial e ainda tenho a vantagem de fazer empréstimos ba- ratos e colocá-los em um mercado em acelerado crescimento. Posso faturar muito!”. Foi uma versão anterior do que chama- mos de carry trade. À medida que as taxas de juros se elevaram nos Estados Unidos, houve uma fuga de capitais. Investidores tentavam tirar seu dinheiro da Tailândia, que, por sua vez, ten- tava defender sua moeda.
Então, a Tailândia começou a vender os dólares de suas reservas e a comprar bahts para manter a fixação em relação ao dólar. Ficou claro, após um tempo, que o Banco Central Tailandês não poderia continuar fazendo isso – a demanda de retirada de dólares era tão alta que começou a esmagar as reservas do país.
Finalmente, a Tailândia quebrou seu vínculo com o dólar e desvalorizou a sua moeda, o que fez com que investidores perdessem dólares em relação a bahts, causando pânico gene- ralizado. Todos queriam sair de lá.
A crise não ficou circunscrita à Tailândia. De repente, in- vestidores começaram a olhar para os países próximos com moedas fixadas em relação ao dólar. Tais investimentos pare- ceram bons antes, mas, agora, ficava claro que os países não suportariam a situação por muito tempo. Abaixo da Tailândia, estava a Indonésia.
acontecendo agora, na minha opinião, é mais parecido com a crise de 1997-1998 do que com a de 2007-2008.
Vamos pular a bolha da internet, no ano 2000 – claramen- te foi uma bolha com um crash de mercado associado, mas não com uma forte recessão. Tivemos uma recessão modesta naquela época que contribuiu para a instabilidade gerada pe- los atentados de 11 de setembro. Foi doloroso para aqueles que tinham ações de internet (pontocom), mas não foi uma crise financeira mundial de verdade do mesmo tipo das crises de 1998 e 2008.
Quais são as características de 1998 que estão se repetindo? O interessante sobre aquela crise é que ela havia se iniciado mais de um ano antes, em 1997, na Tailândia, e caiu no meu colo no LTCM em setembro de 1998, em Greenwich, Connecticut. A crise demorou 15 meses para atravessar o mundo.
Como um pequeno problema, em 1997, na Tailândia, chegou a Greenwich, Connecticut, após 15 meses do mar- co zero? Contágio. Turbulências em uma área se espalham para outras áreas dos mercados financeiros aparentemente não relacionadas.
O episódio também é um bom exemplo de como as cri- ses levam tempo para estourar. Esse é um aspecto muito im- portante porque, com os noticiários especializados, Internet, Twitter, Facebook, Instagram, bate-papos e e-mails, há uma tendência de que as pessoas se concentrem no que é instan- tâneo e ignorem as tendências. Eu chamo isso de “a maldição da capacidade de atenção de dois segundos”. Se há uma crise prestes a acontecer, ela levará de 12 a 18 meses para estourar.
Todos os dias, as pessoas acordam e pensam: “Nenhuma notícia ruim hoje, acho que está tudo bem”. Isso pode ser um erro. Não espere que as coisas sobre as quais falo nesse livro nos peguem de surpresa amanhã de manhã. Pode levar um ano, que nem é tanto tempo assim. Certamente, agora não é cedo demais para se preparar.
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Mas é claro que fazendo isso a alavancagem aumenta, uma vez que, quando se começa a criar derivativos, podem-se criar cinco, seis ou dez vezes o número de títulos e deixar que todos façam a mesma aposta. Quando a Rússia entrou em colapso em 1998, todos ficaram chocados.
Além de não pagar a dívida externa – uma coisa é não pagar a dívida externa em dólar – , a Rússia não pagou a dívida inter- na em rublos. Na teoria, não há por que fazer isso, uma vez que o país pode, simplesmente, imprimir mais rublos. Ainda assim, o país permitiu que sua moeda entrasse em colapso.
O colapso recente do rublo russo foi o pior desde 1998, quando ele despencou ainda mais rapidamente e iniciou um pânico financeiro mundial. Todos queriam seu dinheiro de volta e tiveram que vender títulos com bom desempenho para levantar dinheiro para as chamadas de margem dos títulos com desempenho ruim.
De repente, títulos com bom desempenho deixaram de o ter – todos estavam se livrando deles para tentar levan- tar dinheiro.
Há outro exemplo dessa dinâmica dos estágios iniciais do pânico de 2007-2008. Eu estava no Japão em setembro de 2007, logo após o início da crise do crédito hipotecário. Foi um ano antes da quebra do Lehman Brothers. Lembre-se que as quebras do Lehman Brothers e da AIG não acontece- ram até setembro de 2008. Ali estava eu, em setembro de 2007, um ano antes, em Tóquio, cujo mercado de ações se encontrava em queda. Eu me lembro de uma conversa com um amigo japonês. Ele disse: “Nós não entendemos o que está acontecendo. Vocês, americanos, têm um problema com o crédito hipotecário, mas não entendemos por que isso afeta o mercado de ações japonês”.
O mercado de ações de Tóquio estava em queda porque ambos os mercados estavam conectados. Quando alguém está com problemas financeiros, não vende o que quer, vende o que Logo, houve uma corrida ao banco na Indonésia. Todos
queriam seu dinheiro de volta. Isso levou a cortes, desempre- go, projetos falidos, falências de empresas e revoltas. Pessoas estavam literalmente sendo mortas, havia sangue nas ruas. Depois, a Coreia do Sul foi atingida.
Isso aconteceu ao longo dos meses de junho, julho, agos- to e setembro. A crise se espalhava, atingindo país por país, como uma epidemia de Ebola. Na verdade, a matemática do contágio financeiro é exatamente a mesma da propagação de doenças. O FMI se envolveu e começou a criar projetos de resgate financeiro. Em dezembro, parecia que a situação se estabilizava e, no início de 1998, o LTCM formulava planos para expandir operações na Ásia.
Com toda a turbulência, haveria boas barganhas na Indonésia – o objetivo era comprar a Asia Pulp & Paper. Estávamos longe de pensar que seríamos os próximos a cair. Na verdade, considerávamos que, com nossos $4 bilhões em dinheiro, negócios na Ásia poderiam ser uma grande opor- tunidade. Não preciso dizer que não tínhamos ideia do que estava por vir.
É claro que, quando a primavera chegou aos Estados Unidos, a crise atingiu a Rússia. Até hoje, as pessoas pensam na LTCM como a empresa que perdeu tudo com títulos da dívida russa.
Essa informação não é correta. Nós realmente perdemos cerca de $100 milhões com a Rússia, mas o total de perdas foi de $4 bilhões, sem mencionar os $1 trilhão em swaps que tí- nhamos com o resto de Wall Street. A Rússia foi somente uma parcela da perda.
Em agosto de 1998, havia muitos derivativos porque as pessoas queriam comprar securities da Rússia. Não era fácil comprá-las diretamente, então, o Credit Suisse e outros co- meçaram a criar cestas de derivativos em que o retorno seria indexado pelo desempenho de certos títulos russos.
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de acordo com seus próprios interesses, porque está de um dos lados de uma transação que não quer ver cair por terra.
O recado é simples: não subestime o poder do contágio.