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A Teoria do Poder da Comunicação de Castells

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CAPÍTULO 2 Esfera Pública: de Habermas à Sociedade em Rede

3.4. Movimentos em rede ou novíssimos movimentos sociais e o poder da comunicação

3.4.1. A Teoria do Poder da Comunicação de Castells

Como já pontuamos, a virada do século XXI trouxe novos problemas e novos desafios. O ativismo desloca-se do nacional para o global, com o apoio das Tecnologias da Informação e Comunicação. Os movimentos de classe já não estão no epicentro das manifestações e foram dando lugar a outros movimentos simbólicos (feminismo, pacifismo, ambientalismo). Muitas vezes, os

Novíssimos Movimentos Sociais (GOHEN, 2014) são muito mais de minorias do que de grandes coletivos e, em grande parte, ocorrem por meio de ações pacíficas, como as últimas manifestações do cenário político brasileiro. Digo em grande parte, porque convivemos também, desde o 11 de setembro com uma sequência pelo mundo de atores que usam do terrorismo como forma de mobilização coletiva (vide os recentes episódios na Inglaterra, em Paris, na Espanha) (ATENTADO..., 2017 online). Além disso, em vários países do Ocidente os movimentos sociais se burocratizaram e se converteram até mesmo em partidos.

Hoje, em ampla medida, a produção e circulação de conhecimentos, visando à democratização do Estado, parece ser o tema central dos debates sobre grande parte dos movimentos sociais de nossa época. Melucci (2001), com sua tese sobre a “sociedade da informação”, é um dos teóricos que têm auxiliado a compreensão dos movimentos contemporâneos. Castells, ao observar a “sociedade em rede” (1999), também nos auxilia na análise dos conflitos do nosso tempo e dá à comunicação centralidade no processo.

Esses novíssimos movimentos sociais são retrato de nossa época no que tange à política, cultura, economia. Para compreender esses fenômenos, em primeiro lugar, cabe lembrar, como sustentado por Harvey (2005), que a globalização89 e a guinada em direção ao neoliberalismo90

enfatizaram, ao invés de diminuir, as desigualdades sociais e o poder de classe foi sendo restituído às elites. As políticas neoliberais dos anos 90, bem como a globalização, aprofundaram a marginalização, o desemprego e os conflitos sociais, gerando condições para “[...] uma forte cultura urbana do protesto e a reorganização dos movimentos de reivindicação social” (VIZER, 2007 p. 43), que hoje presenciamos em nossa sociedade, ainda que em novos formatos (mais pacíficos, em rede). Pensando em termos de América Latina, que é onde se situa o Brasil, apesar da implantação de sistemas democráticos no final do século XX, após anos de ditaduras que assombraram a região (décadas de 1960, 1970 e 1980), os problemas de dívida externa, inflação, corrupção por parte dos governantes, concentração extrema de riquezas, violência e desemprego continuaram levando os

89A globalização, afirma Giddens (1991), é produto da modernidade, na medida em que consiste, basicamente, no

alongamento das relações entre formas sociais e eventos locais e distantes propiciado pelo desencaixe e pela reflexividade. “A globalização pode assim ser definida como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa. Este é um processo dialético porque tais acontecimentos locais podem se deslocar numa direção anversa às relações muito distanciadas que os modelam. A transformação local é tanto uma parte da globalização quanto a extensão lateral das conexões sociais através do tempo e do espaço” (GIDDENS, 1991, p.70).

90 Neoliberalismo é um conceito que tem sido empregado por autores que advogam em favor em favor de políticas

de liberalização econômica, como privatizações, austeridade fiscal, desregulamentação, livre comércio e o corte de despesas governamentais, a fim de reforçar o papel do setor privado na economia (HARVEY, 2005; 2008; PAULANI, 1999).

cidadãos ao aprofundamento da desigualdade social. Como bem ponderou Freire, os discursos neoliberais não tiveram êxito em “[...] acabar com as classes sociais e decretar a inexistência de interesses diferentes entre elas, bem como não têm força para acabar com os conflitos e lutas entre elas”. O que acontece é que a luta é uma categoria histórica e social. (FREIRE, 1992, p. 21).

O processo democrático, por aqui, enfrenta ainda grandes desafios: partidos políticos desacreditados e uma decorrente crise de confiança nas instituições. Para Bauman (QUEROL, 2016 online), o que está acontecendo “é o colapso da confiança”. Na percepção do sociólogo, há a “crença de que os líderes não só são corruptos [...], mas também incapazes”. Para atuar nesse cenário é necessário “poder: ser capaz de fazer coisas; e política: a habilidade de decidir quais são as coisas que têm que ser feitas”. Mas, na visão do sociólogo, entretanto:

A questão é que esse casamento entre poder e política nas mãos do Estado- nação acabou. O poder se globalizou, mas as políticas são tão locais quanto antes. A política tem as mãos cortadas. As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas [...] A crise contemporânea da democracia é uma crise das instituições democráticas (BAUMAN apud QUEROL, 2016, online).

Além disso, no caso do Brasil, vale lembrar que de um Estado-Nação de base agrícola migramos para uma realidade urbana, que tem concentrado grupos sociais muito distintos, “aproximando o que antes era disperso, num processo que se desenvolveu [não só no Brasil] na América Latina, em menos de meio século” (GOMEZ DE LA TORRE; REICHERT; 2011 p. 151). Como bem observam os autores, o intercâmbio fomentado pelo desenvolvimento dos centros urbanos e das tecnologias da informação e da comunicação tem ganhado força e direcionado a processos que envolvem exclusão, desigualdade e inclusão das diferenças.

Percebe-se, assim que, entre outros fatores, o cenário no qual os movimentos no Brasil ocorrem, hoje, tem como características relevantes: a globalização da economia e da cultura; mobilidade e fluxo transnacional de trabalhadores, pessoas, capital, informação e serviços; políticas neoliberais que imperam e desregulam o emprego, reduzem salários, trazem crise à empregabilidade, para citar alguns pontos. Agrega-se a tal contexto uma questão subjacente, em que há novas percepções de mundo, em termos de relações e precarização de trabalho, direitos no campo da saúde, educação e mobilidade urbana.

Assim, embora no Brasil, historicamente, sempre tenham existido movimentos sociais de diferentes tipos – movimentos por melhoria de condições de trabalho, os que defendem os direitos humanos relativos a segmentos sociais a partir de determinadas características de natureza humana

(gênero, idade, raça etc.), voltados a resolver questões decorrentes de desigualdades que afetam grandes contingentes populacionais (movimentos de transporte, moradia, saúde etc.), movimentos político-ideológicos (PERUZZO, 2013), surgem, hoje, novas formas de enfrentamento para resolver essas recorrentes questões do cenário nacional. Ainda que as demandas dos atores sociais se reconfigurem através dos tempos, e novas expectativas sejam incorporadas ao repertório deliberativo, notamos que os movimentos sociais permanecem vivos, mesmo que com proposições variadas.

Dentro dessa lógica, para observarmos o contexto dos “novíssimos movimentos sociais” (GOHN, 2014), ou os movimentos da “sociedade em rede” (CASTELLS, 2013), partimos da perspectiva baseada na interação entre poder e contrapoder, proposta pelo autor (CASTELLS, 2015). Para Castells, o poder vem das instituições e o contrapoder da sociedade civil. Assumimos que o papel da sociedade civil, nesse contexto, “não está diretamente relacionado com a conquista do poder institucionalizado, nem com a gestão da economia, mas com a geração de influência para a viabilização das demandas sociais, por meio das associações democráticas (sejam de esquerda ou de direita) e da discussão sem constrangimentos na esfera pública. (TAYLOR, 2010, p. 2). Nessa perspectiva, a comunicação ganha centralidade ao propiciar debates e influenciar na tomada de decisões tanto dos representantes políticos, quanto dos atores que circulam pela esfera civil.

Entendemos que o poder é “o processo mais fundamental na sociedade, já que a sociedade é definida em torno de valores e instituições e o que é valorizado e institucionalizado é definido pelas relações de poder” (CASTELLS, 2015, p. 57). O contrapoder ao qual nos referimos está muito mais ligado à geração de influência através do debate do que propriamente à ocupação de espaços nas instituições políticas e de governo. A Teoria fundamentada no poder apresentada por Castells, na obra O Poder da Comunicação (2015), parte da premissa de que as relações de poder são constitutivas da sociedade e que os sistemas políticos na atualidade estão mergulhados numa crise de confiança (BAUMAN apud QUEROL 2016; MOÍSES, 2010; GUIDDENS, 2017), da qual já tratamos em item anterior. Na percepção de Castells, essa crise de confiança tem sido corroborada pela intercomunicação individual, que deu a possibilidade aos atores sociais de desafiarem o Estado e as instituições em geral. O autor, percebe-se, dá à comunicação um papel relevante no processo.

Mas o poder (aqui falamos do poder institucional, que vem das autoridades, da polícia, do governo, das grandes corporações da mídia que dominam o mercado), como nos lembra o autor, nesse jogo de interesses que envolvem os movimentos sociais, pode ser exercido por meio da coerção, ou da possibilidade de coerção. No primeiro caso, podemos exemplificar o que vimos em muitos momentos nos protestos recentes que ocorreram no Brasil, quando houve uso de força policial, por

parte do Estado. No segundo caso, podemos citar, especialmente, o episódio em que ocorreu a “construção de significado com base em discursos por meio dos quais os atores sociais orienta [ram] suas ações” (CASTELLS, 2015, p. 57). Nessa segunda perspectiva podemos lembrar a tentativa da mídia de desqualificar os movimentos de protesto, utilizando os principais grupos de comunicação do país na primeira metade do mês de junho de 2013, ou na “guerra” travada na esfera midiática91,

em 2016, quando os grandes grupos de comunicação entraram nas disputas pelas articulações em torno do impeachment da ex-presidente Dilma.

Como a democracia envolve interesses, percebemos que, durante muitos episódios que assistimos no decorrer dos movimentos no Brasil, predominaram, na esfera pública, demandas específicas (derrubada de representantes do Congresso Nacional de seus cargos: Eduardo Cunha, por exemplo; derrubada de projetos em andamento no Congresso, como o da PEC 37; destituição de representantes do governo, como o processo de impeachment da presidente, ou a destituição de Lula do cargo de ministro92, entre outros exemplos). Mas, embora as relações de poder se estabeleçam para

que esses interesses sejam viabilizados, sempre com um maior grau de influência de uma parte sobre a outra, nunca há um poder absoluto, “ou um grau zero de influência daqueles submetidos ao poder em relação àqueles em posições de poder” (CASTELLS, 2015, p. 57).

Nessa conjuntura, os processos de comunicação são decisivos em estruturar essa interação. Porém, o pesquisador não percebe o uso das tecnologias na comunicação dos atores sociais durante os protestos como determinante. Para ele, os movimentos de protesto são processos mais complexos e ancorados nas relações sociais, nos contextos sociais e institucionais (CASTELLS, 2015; SORJ, 2014), perspectiva com a qual nos alinhamos. “A dinâmica e os efeitos da comunicação mediada dependem da cultura, da organização e da tecnologia de sistemas de comunicação específicos”, pontua o autor (CASTELLS, 2015, p. 29). Percebe-se assim, que, para além de um determinismo tecnológico, o autor sustenta sua teoria em:

Determinantes estruturais do poder social e político na sociedade em rede; determinantes estruturais do processo de comunicação de massa sob as condições

91 Esfera midiática: Em nosso trabalho entendemos que a esfera pública é compreendida por várias esferas

interconectadas: esfera política, esfera midiática, esfera civil. A esfera midiática, na sociedade contemporânea, tem forte influência sobre as demais.

92 Sobre o episódio da nomeação de Lula pela então presidente Dilma para ministro da Casa Civil, cabe ressaltar que, à

época, o ex-presidente já era alvo da Operação Lava Jato. Se assumisse, teria foro privilegiado. Com foro privilegiado, o ex-presidente só seria julgado direto em última instância, ou seja, todo processo teria que ser remetido ao Supremo Tribunal Federal. A lei brasileira entende que há pessoas que exercem cargos e funções de especial relevância para o Estado, sendo que, assim, devem ser julgadas por órgãos superiores (é o caso do presidente da República e seus ministros). Entretanto, alguns ministros do supremo, que seriam responsáveis pelo julgamento de Lula, foram nomeados por ele e por Dilma Rousseff, durante seus governos (na época três haviam sido nomeados por Lula e 5 por Dilma). (FAGUNDEZ; MENDONÇA; 2016, online).

organizacionais, culturais e tecnológicas de nossa época; e o processamento cognitivo dos símbolos apresentados pelo sistema de comunicação à mente humana à medida que ele se relaciona com uma prática social politicamente relevante. (CASTELLS, 2015, p. 25).

Um dos pontos relevantes apontados por Castells (2015) é que, diferentemente da esfera institucional deliberativa (Congresso Nacional, por exemplo), que é sistematicamente tendenciosa em relação à dominação existente, a esfera da comunicação seria moldada pelos múltiplos insumos que receberia de uma diversidade de fontes, assim como por interações. Assim, para explicar os protestos dos últimos anos no Brasil e no mundo, apoiamo-nos amplamente, ao nos debruçarmos em nossa pesquisa empírica no Capítulo V, em Castells e em sua teoria apresentada na obra O Poder da

Comunicação (2015). Nossa perspectiva é de que “as relações de poder são constitutivas da sociedade

porque aqueles que detêm o poder constroem as instituições segundo seus valores e interesses” (CASTELLS, 2013, p. 10). Essa visão nos acompanha por estar alinhada ao que estamos assistindo no Brasil, onde um governo de esquerda foi envolvido em tramas de corrupção e lavagem de dinheiro, o que levou a sociedade ao dissabor de uma profunda crise, que se estabeleceu em 2013, chegou à destituição de uma presidente em 2016, e se agrava com denúncias que cercam o atual presidente, ex- vice-presidente de Dilma, empossado no lugar da governante deposta e político ainda em exercício.

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