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Oralidade, Escrita, Mídia de Massa E Redes

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CAPÍTULO 2 Esfera Pública: de Habermas à Sociedade em Rede

2.1. Oralidade, Escrita, Mídia de Massa E Redes

Para que possamos estabelecer conexões pertinentes entre os fatos históricos relatados e nossas ponderações teóricas, escolhemos analisar, primeiramente, o conceito de esfera pública, a fim de tecermos articulações sobre a evolução da ambiência em que vem se processando os debates em momentos de protesto. Objetivamos, também, nessa etapa, verificar o papel da mídia, especialmente com a introdução da imprensa corporativa67, nas formas de comunicação entre os atores sociais em momentos de movimentos de protestos.

Assim, cabe lembrar inicialmente que, durante o processo histórico, tivemos a passagem da oralidade para a escrita, mais especificamente acentuada quando Johannes Gutemberg (1398-1468) cria os caracteres móveis e a tipografia, no século XV, uma substancial inovação tecnológica no campo das comunicações. Tal inovação teve papel fundamental nas bases para a moderna sociedade baseada no conhecimento e também para a disseminação dos processos de aprendizagem. Entretanto, foi em 1621, quase um século e meio mais tarde, que começaram a surgir os precursores dos jornais. Segundo De Fleur e Ball-Rokeach (1993), isso ocorreu na Alemanha, quando nos primeiros anos do século XVII, surgiu algo mais parecido com a ideia moderna de um jornal. Porém, estudiosos da história do jornalismo argumentam que muitos traços do jornal moderno (editorial, artigos, ilustrações e colunas políticas) já eram utilizados anteriormente.

Já a Era da Comunicação de Massa data do começo do século XIX, com o surto de jornais atingindo os leitores comuns e com o aparecimento da mídia elétrica (telégrafo e telefone). Consolidou-se no começo do século XX, mas foi alavancada pela Revolução Industrial, no século XVIII, que perturba a estrutura social das nações europeias, com a chegada da automação, avanços científicos, evolução dos meios de transporte, novas possibilidades de fluxos de mercadorias e novos meios de comunicação. A descoberta da capacidade de geração de energia elétrica multiplicou a velocidade e o volume de informações. Os navios receberam motores mais rápidos, houve o encurtamento de

67 A Mídia Corporativa ou, como proposto por Fuchs (2015, p. 24), a “Mídia Capitalista envolve empresas

que são privadas, pertencentes a indivíduos, famílias ou acionistas. Está culturalmente localizada na esfera pública, mas, ao mesmo tempo, faz parte da economia capitalista e, assim, não só produz informação pública, mas lucro monetário e financeiro ao vender audiência/usuários e/ou conteúdo”.

distâncias e as pessoas se aproximaram (RÜDGER, 2011). O telefone (1876), o rádio (1898), o telégrafo sem fio (1895) e o primeiro cinematógrafo (1894) ampliaram os horizontes, dando novas feições à comunicação (idem).

A partir da Modernidade, como proposto por Thompson, em sua clássica obra A

Mídia e a Modernidade (2014), os indivíduos vão se conectando por meio de relações

cada vez mais distantes no espaço e também no tempo. Emerge uma esfera pública que vai agregando elementos das novas tecnologias da comunicação. Mas, a despeito do processo histórico de evolução dos meios de comunicação, que não merecerá maior aprofundamento, o que nos interessa ressaltar é que, com a introdução dos meios técnicos (telégrafo, telefone, imprensa, televisão, cinema e, posteriormente, a internet.), a interação face a face foi sendo complementada por outras formas de comunicação e sociabilidade, a ponto de o autor considerar que:

O intercâmbio de informação e conteúdo simbólico no mundo social acontece, em proporção sempre crescente, em contextos de interação e quase interação mediadas, mais do que em contextos de interação face a face entre indivíduos que compartilham de um ambiente comum. (THOMPSON, 2014, p. 124).

O autor reforça a relevância do intercâmbio de informação por meio da interação mediada e Castells (1999b) sustenta que os meios técnicos que proporcionam essa troca de informações operaram, num primeiro momento, da tipografia até a televisão, a partir de um centro emissor para uma multiplicidade receptora na periferia. Na contemporaneidade, o cenário altera-se, quando chegamos à Sociedade em Rede, os novos meios de comunicação social são interativos, ou seja, funcionam de muitos para muitos, ou de um para muitos, em um espaço descentralizado. Ocorre a transição da comunicação de massa para a intercomunicação interativa:

[...] o processo de comunicação interativa que tem o potencial de alcançar uma audiência de massa, mas em que a produção é autogerada, a recuperação da mensagem é autodirigida, e a recepção e recombinação do conteúdo oriundo das redes de comunicação eletrônica são autos selecionadas (CASTELLS, 2015, p. 29).

Para Castells (1999a, 2003; 2015), estamos vivendo a Revolução Informacional68, um processo que vem sofrendo avanços e, mais especificamente, em meados de 1990, foi acelerado pelo advento da internet, uma das mais importantes conquistas no cenário das

68 Castells (1999b, 2015) nos fala da transição entre os modos de desenvolvimento rural, industrial e

informacional. Para ele, conhecimento e informação são as fontes principais de produtividade e crescimento nas sociedades avançadas.

novas tecnologias da informação, seguida pela banda larga, pela web 2.069, pela

inteligência artificial que nos lança à ambiência da internet das coisas70. O autor

argumenta que o que estamos vivenciando são transformações que justificam uma nova revolução, tal qual a Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX. A Revolução Informacional estaria permeando as relações sociais contemporâneas e, por isso, ele denomina nossa sociedade como Sociedade da Informação (CASTELLS, 1999 a, b).

Castells vai mais além em sua obra O Poder da Comunicação 2015 e sustenta que, na atualidade, “[...] as relações de poder, base das instituições que organizam a sociedade, são amplamente construídas na mentalidade das pessoas através de processos de comunicação”. (ibid., p. 29). E para tratar da questão dos recentes movimentos de protesto que eclodiram pelo mundo na segunda década dos anos 2000 (como a Revolução Egípcia, 201171 e Occupy Wall Street, 201172, entre outros), ele propõe que estamos vivenciando uma nova experiência nas relações que se estabelecem com o Estado. Os movimentos sociais exerceriam o contrapoder e se constituiriam “[...] mediante um processo de comunicação autônoma, livre de controle dos que detêm o poder institucional” (CASTELLS, 2013, p. 14).

Nessa perspectiva, observamos a esfera pública contemporânea em nossa pesquisa. As interações se estabelecem permeadas pelo poder da comunicação (CASTELLS, 2015) na sociedade em rede, hiperconectada. O uso que os grandes conglomerados de mídia têm feito da internet, bem como as apropriações que os políticos e governos estabelecem ao atuar nas redes sociais online serão observadas: algoritmos que nos direcionam a conteúdos específicos, políticas públicas excludentes em termos de educação digital, censura ao livre acesso às redes digitais em alguns países etc. Para

69 “A computação social da Web 2.0 aporta uma modificação essencial no uso da web. Enquanto em sua

primeira fase a web é predominantemente para leitura de informações, esta segunda fase cria possibilidades de escrita coletiva, de aprendizagem e de colaboração na e em rede (LEMOS; LÉVY, 2010, p. 52).

70 Internet das Coisas se refere a uma revolução tecnológica que tem como objetivo conectar os itens usados

no dia a dia à rede mundial de computadores.

71 A Revolução Egípcia foi composta por uma série de manifestações que ocorreram em janeiro e fevereiro

de 2011 no Egito, que tinham diversos fatores de fundo: injustiça, violência policial, desemprego, sexismo, entre outros. Foi articulada pelas redes sociais e ganhou o espaço público, até que, em 11 de fevereiro de 2011, o presidente Hosni Mubarak renunciou. Houve ampla comemoração da população na Praça Tahrir, no centro de Cairo.

72 Movimento de protesto contra a desigualdade econômica e social, a corrupção e a indevida influência

das empresas - sobretudo do setor financeiro - no governo dos Estados Unidos. Iniciado em 17 de setembro de 2011, no Zuccotti Park, no distrito financeiro de Manhattan, na cidade de Nova York. Foi referência para outros movimentos em todo mundo. As manifestações foram a princípio convocadas pela revista canadense Adbusters, inspirando-se nos movimentos árabes pela democracia, especialmente nos protestos na Praça Tahrir, no Cairo, que resultaram na Revolução Egípcia de 2011. A denúncia de que o megainvestidor George Soros seria um financiador do movimento foi desmentida pela própria agência que divulgara a versão.

refletir sobre essas e outras questões, o método de investigação adotado entrelaça a economia, a cultura e a política, a fim de explicitar a dinâmica da esfera pública como categoria central para entender as sociedades contemporâneas.

Mas, ao mesmo tempo, em todo o percurso, as redes sociais online são percebidas como forças de um contrapoder, uma esfera digital em que atuam atores sociais que outrora estavam excluídos dos processos de comunicação massivos: mídias alternativas, cidadãos comuns, entre outras minorias que lutam por interesses específicos que nem sempre estão presentes na agenda institucional. As novas mídias digitais exercem um papel central nos movimentos sociais contemporâneos, “[...] circulando a informação, abrindo espaços para críticas sociais e facilitando novas formas de mobilização social” (TUFTE, 2013, p. 63) Acentralidade da mídia é notada tanto nas relações de poder quanto nas de contra poder, mas não mais sob a perspectiva da comunicação de massa, mas, da

autocomunicação de massas73 (CASTELLS, 2013; 2015).

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