2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.4 A teoria dos frames e do MCI
Desde a década de 1980, os pesquisadores de referência na área da Linguística Cognitiva têm constatado certa mixórdia terminológica. Diversos são os termos que parecem referir-se ao mesmo fenômeno: modelo cognitivo idealizado (MCI), frame, domínio, conceito, esquema, script e gestalt são alguns dos exemplos mencionados por Kövecses (2006, p. 64). Aclarando um pouco a noção de “frame”, acompanhamos a descrição de Semino, Demjén e Demmen (2018), que o entendem como
“[...] uma parte importante do conhecimento cognitivamente fundado que (i) diz respeito a um aspecto particular do mundo, (ii) gera expectativas e inferências na comunicação e na ação, e (iii) tende a ser associada a determinadas escolhas lexicais e gramaticais na linguagem”27 (SEMINO;
DEMJÉN; DEMMEN, 2018, p. 627).
Por outro lado, o MCI tem enfoque mais cultural. O termo “modelo cognitivo idealizado” foi cunhado por Lakoff (1987) que o propôs aos moldes de uma estrutura complexa de quatro elementos principais, além de tentar uma comparação da estrutura toda com um “espaço mental”, da nomenclatura de Fauconnier (1994). Assim se formata a composição do MCI:
- estrutura proposicional, como nos frames de Fillmore;
- estrutura esquema-imagem, como na gramática cognitiva de Langacker; - mapeamentos metafóricos, como descrito por Lakoff e Johnson;
- mapeamentos metonímicos, como descrito por Lakoff e Johnson;
Cada MCI estrutura um espaço mental, como descrito por Fauconnier.28 (LAKOFF, 1987, p. 68)
O primeiro elemento da explicação lakoffiana faz menção à visão de Fillmore, certamente é esse o pesquisador responsável por popularizar o termo “frame” nos estudos linguísticos. Na abordagem intitulada “semântica de frames”, o idealizador entende o frame como “[...] um sistema de conceitos relacionados de tal forma que para entender algum deles
27 “a ‘frame’ tends to be defined as a portion of background knowledge that (i) concerns a particular aspect of
the world, (ii) generates expectations and inferences in communication and action, and (iii) tends to be associated with particular lexical and grammatical choices in language.”
28 “- propositional struture, as in Fillmore’s frames; - image-schematic structure, as in Langacker’s cognitive
grammar; - metaphoric mappings, as described by Lakoff and Johnson; - metonymic mappings, as described by Lakoff and Johnson; Each ICM, as used, structures a mental space, as described by Fauconnier”.
é preciso que se entenda a estrutura completa a qual ele se ajusta”29 (FILLMORE, 2006, p. 373). A perspectiva é adequada àquele tipo de semântica em que a estrutura proposicional desempenha um papel central, segue sendo uma inspiração auxiliar nesta investigação, no entanto, devido à ênfase lexical baseada na frequência de uso de lexemas e lexias, a versão de Semino, Demjén e Demmen (2018), destacada no início da seção, parece mais ajustada aos objetivos atualizados no presente estudo.
Os termos “frame” e “MCI”, até mesmo “domínio”, são permutáveis, mas não são equivalentes. Ao que parece, todos os principais pesquisadores da teoria sociocognitiva tentaram delimitar ou justificar as semelhanças e dessemelhanças da terminologia, e Langacker (2008) não se ausentaria do debate. O linguista esclarece que uma palavra qualquer, como “calouro”, adquire perspectivação ao inserir-se no conteúdo de algum domínio, frame ou MCI. As sutilezas básicas entre os termos seriam estas:
Domínio tem maior grau de generalidade, pois nem frame nem MCI dão conta, muito bem, de domínios básicos (como tempo ou cor). Um frame pode ser mais grosseiramente comparado com domínios não básicos. Se as palavras idealizado e modelo forem levadas a sério, modelo cognitivo
idealizado tem menor abrangência. Ele não se aplica, por exemplo, a um discurso em prosseguimento ou às circunstâncias físicas do evento discursivo.30 (LANGACKER, 2008, p. 46-7, grifo do autor)
Há ainda um aspecto do MCI que se aproxima desta investigação, aquele que é quanto aos “efeitos prototípicos”. Uma pesquisa que se sustenta na frequência e nas recorrências linguísticas de termos, ou “types”, dentro de um corpus torna-se por si só uma busca que revela a prototipicidade. Não é apenas Lakoff (1987) quem julga que os MCIs sejam “fontes dos efeitos prototípicos”, outros trabalhos também consideram os modelos cognitivos como modelos prototípicos – citam-se Kövecses (1991, 2008) e Lakoff e Kövecses (1987) a títulos ilustrativos.
A teoria prototípica encaixou-se como luva nos anseios da linguística cognitiva porque reforçou a ideia de que a cognição possui um traço de “construção social” provavelmente maior do que se supõe nas ideias de inatismo ou de essencialismo dos entes. Nesse ponto, os resultados sobre a categorização, da psicologia cognitiva de Eleanor Rosch, forneceram um
29 “ I have in mind any system of concepts related in such a way that to understand any one of them you have to
understand the hole structure in which it fits”.
30 “Domain has the greatest generality, since neither frame nor ICM applies very well to basic domains (e.g.
time or “color space). A frame maybe roughly comparable to a nonbasic domain. If the words idealized and model are taken seriously, idealized cognitive model has the narrowest range of application. It would not, for
aporte às diversas abordagens contemporâneas que inferiam o conceito de “protótipo” – semântica de frames (FILLMORE, 1982), semânticas cognitivas (LAKOFF, 1987; LANGACKER, 1987), gramática de construções (GOLDBERG, 2006), teoria de metáfora (KÖVECSES, 2008) etc.
Sempre que expressões como “efeitos prototípicos”, “relações prototípicas”, “prototipicidade” e “protótipo” forem utilizadas em investigações deste tipo, deve-se lembrar que os sentidos que as permeiam são facilmente apreendidos nos enunciados da própria autora, ao declarar que:
Os protótipos são os membros de alguma categoria que mais refletem a estrutura redundante dessa categoria como um todo. Isto é, se as categorias são formadas para maximizar o grupo de informações relevantes dos atributos do meio e, por consequência, a validade do indício ou a similaridade entre os atributos das categorias, então os protótipos das categorias vêm a formar um modo de maximizar ainda mais os agrupamentos e a validade dos indícios no interior das categorias.31 (ROSCH, 1978, p. 36).
Considerando o conjunto dos argumentos, a noção geral, proporcionada por frames e MCIs, é um suporte para a presente busca, que investiga os usos do lexema expectativa. Como o visto, a “expectativa” deve estruturar-se sob os mesmos elementos – ou similares – dentre os quais, são esperados os mapeamentos metonímicos e metafóricos, as formas proposicionais, os conceitos vinculados, que, somados num grande bloco coeso, modelam o espaço mental. Não somente isso, a compreensão de uma estrutura conceptual envolve frequentes tentativas de entendimento dos modelos cognitivos, tal como sugerem Kövecses (1991, 2008) e Lakoff (1987).