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2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.10 O conceito de tempo e algumas implicações

Muito do que se entende sobre o tempo depende de metáforas e de outros tipos de associações mentais. É como se o ente temporal necessitasse de um grau de abstração diferente daqueles prestados às entidades físicas. E mesmo que a Teoria da Relatividade de Einstein leve a uma noção de quase materialidade do tempo no espaço, seria difícil trazer ao cotidiano essa noção circunstancial da materialidade temporal. O sujeito corriqueiro ainda depende de uma relação menos pretensiosa para compreender o tempo, a desprover-se de apetrechos de mensuração espaço-temporais e da concretude da relatividade, sendo a linguagem o caminho mais óbvio dessa relação.

O conceito de tempo não se conservaria incólume diante das investigações da Linguística Cognitiva, que passou a investigá-lo em diversas abordagens. As conceptualizações amparadas pelos domínios do movimento e do espaço repercutem-se como as mais triviais da abordagem, tendo-se as metáforas do “tempo movente”, do “observador movente” e da “orientação temporal” designadas em Lakoff e Johnson (1999); na mesma diretriz, inclui-se a ideia de tridimensionalidade da relação tempo e espaço (RADDEN, 2003). A experiência do conceito temporal é fenomenologicamente tangível nas muitas culturas a que temos acesso, apesar de Lewandowska-Tomaszczyk (2016, p. xix) advertir que sua conceptualização não é realizada de maneira homogênea sob os mesmos frames.

Aqui a matéria do tempo não é objeto a ser estudado na sua totalidade, mas o elo de uma determinada condição mental/emocional a aspectos temporais. Remete-se ao papel substancial da emoção na cognição do indivíduo, conforme atestam Johnson (2007) e Damásio (2018), e tenta-se dar teor equivalente aos outros elementos teóricos de cognição. Ao considerar o futuro como um aspecto temporal passionalmente comprometido, voltamos à linguagem que o evidencia justamente porque não se refere a objetos e a eventos factuais que se permitam constatar estabelecidos. Além disso, o parâmetro de futuro que se nos apresenta não se atém, como prioridade, às desinências gramaticais de futuro, mas sim às peculiaridades de algum sentimento expresso voltado aos objetos contingenciais ou de viabilidade futura.

Pouco se acrescenta, formalmente, ao conceito de expectativa nos ramos linguísticos, diz-se que “[a] expectativa tem a ver com o processamento mental [...] e apesar de sua notável presença na linguagem, ainda é um campo pouco explorado na semântica” (CAGLIARI, 2015, p. 125). Concordando com a declaração provocativa de Cagliari (2015), estas entrelinhas se preocupam com a maneira de “presentificar” a expectativa no léxico e nos recursos vinculados a ele. Ao voltar-se para uma das racionalizações possíveis de expectativa,

a [Expect. (p) ↔ Cren. (Fut p)]47, e para o axioma da simetria da lógica modal, o [A → □◊A]48, é possível constatarmos, mediante analogia e poucos exercícios de derivação, um argumento que serviria de defluência implícita para os dados desta pesquisa, a saber: para (p), é necessário que seja possível a crença no futuro (p) – ver sentença (9).

(9) X(p) → □◊Cren. (Fut p)

A necessidade de uma possibilidade de crença futura apresenta-se em (9) e parece caracterizar-se por algum tipo de “subjetificação”, cujo conceito se problematiza na linguística sociocognitiva. Uma das formas de analisar a subjetividade dos significados produzidos é apontada em Traugott (1989, p. 34-5), que a explana nas seguintes direções: a primeira tendência de subjetificação advém de significados fundados em contextos externos que se conduzem a contextos de descrição interna (os sentimentos); a segunda tendência baseia-se em situações externas ou internas dirigindo-se a significados que contornam situações textuais e metalinguísticas; a terceira tendência inclina-se a tornar os significados gradativamente mais baseados na crença subjetiva do falante em relação à proposição. Um dos exemplos fornecidos por Traugott (1989), tratando dessa terceira tendência, é a gramatização de “go” em perífrase verbal a indicar um futuro imediato, exemplo que é plenamente aplicável a situações de expectativa. Os três tipos mencionados remetem-se a uma subjetividade relativa ao conteúdo conceptual que é proporcionado num contexto significativo.

Outro tratamento para a subjetividade é elaborado por Langacker (1987, 2006). Na proposta, o linguista concebe a subjetividade como tomada em relação ao ponto de vantagem (relacionado ao construal). Em Langacker, não faria sentido questionar sobre em que grau um enunciado é mais ou menos subjetivo, pois em sua percepção “um dado significado sempre abrange elementos construídos tanto objetivamente quanto subjetivamente”49 (LANGACKER, 2006, p. 18). A utilização dos termos “subjetivo” e “objetivo” nada mais é que uma menção ao sujeito e ao objeto da concepção, que reflete a questão da assimetria entre o conceptualizado e o conceptualizador. Sob tal aspecto,

a assimetria é máxima quando o sujeito da concepção carece de sua total autoconsciência, ao ser totalmente absorvido no apreender da situação

47 Cf. Searle (2002, p. 44). 48 Cf. Mortari (2016, p. 455).

onstage [explícita], e o objeto da concepção é saliente, bem delimitado e apreendido com grande acuidade.50 (LANGACKER, 2006, p. 18)

A questão do “apreender” uma situação qualquer sem a subjetiva “autoconsciência” é algo que traz inexatidão ao excerto citado, pois, na perspectiva fenomenológica, soa incoerente a ausência de autoconsciência em qualquer nível de intencionalidade perceptual. Ainda assim, pode-se deduzir que Ronald Langacker estaria referindo-se à experimentação empírica quando menciona termos pouco precisos, como “construído subjetivamente/ objetivamente” e “autoconsciência”, sua abordagem permanece frutífera no tocante aos modais epistêmicos e aos verbos principais (ver Figura 3) e ilumina pontos conceptuais no tema da expectativa.

Figura 3 - Assimetria de objetividade entre verbos principais e modais epistêmicos.

Fonte: Langacker (2006, p. 19)

Dois elementos básicos da gramática cognitiva langackeriana, trajector (tr) e ponto de referência (landmark – lm), são exibidos na Figura 3. Nela, os modais conduzem a conceptualização para uma apreciação mais objetiva, já que trazem para o onstage aquilo que estava no pano de fundo (background), fazendo o falante ficar mais objetivamente comprometido. O autor indica a força latente nas setas duplas; nas setas tracejadas, indica que a realidade é somente potencial; do lado esquerdo, a força latente está no escopo imediato (onstage), enquanto, do lado direito, faz parte da apreensão pelo falante/speaker (S). De um modo análogo, expressões como “expectativa de” ou “esperar que” assumem a perspectivação da sentença, tornando-a mais objetiva para essa teoria.

50 “The asymmetry is maximal when the subject of conception lacks all self-awareness, being totally absorbed in

apprehending the onstage situation, and the object of conception is salient, well-delimited, and apprehended with great acuity”.

Quanto à realidade potencial, a ideia de “impulso evolucionário” (momentum evolutionary) foi desenvolvida por Langacker (1991) para referir-se à propensão dos fatos, por cujo caminho a realidade evoluiu até o presente e tende a manter-se nele em vez de outro. Denomina-se “evolucionário” por conta de seu processamento na passagem do tempo até alcançar o futuro, isto é, “[...] cada instanciação da realidade presente dá origem à próxima e assim se torna parte do passado”51 (LANGACKER, 1991, p. 276). Ao representar o modelo, o linguista elabora uma ilustração (Figura 4) em que há um eixo temporal pelo qual um cilindro se expande, existindo também um conceptualizador (C) que se localiza no momento da fala.

Figura 4 - Modelo evolucionário dinâmico.

Fonte: Langacker (1991, p. 277), tradução nossa.

Na Figura 4, a seta de linha tracejada representa um impulso evolucionário que o real possui e que produz a tal realidade potencial. A região à esquerda, no trecho onde se localiza o termo “realidade”, pode ser compreendida pela ideia de “passado”; o círculo indicado como “realidade presente” entende-se pela “realidade imediata”; e a região que corresponde aos termos “realidade potencial” e “realidade projetada” entende-se como o “futuro”. O modelo ilustrado demonstra-se útil para diversos estudos, permitindo, mais uma vez, a exemplificação com verbos modais e principais, dado que: a desinência modo-temporal “-rá”, que em compêndios gramaticais52 conduz o verbo ao futuro do presente, indicaria um forte impulso evolucionário porque há maior convicção em seu modo de projetar; por outro lado, o modal “poder” sugeriria um fraco impulso, sendo representado na região de realidade potencial.

Para a gramática cognitiva, algumas sucessões de eventos possuem mais disposição para ocorrer “[...] sempre que as circunstâncias apropriadas surgirem, eles [os eventos]

51 “as each instantiation of present reality gives rise to the next and thus becomes part of the past”. 52 Cf. Bechara (2015), Freitas (2007).

continuarão a ocorrer a menos que certa quantidade de energia seja empregada para neutralizar a tendência; isso representa o ‘curso normal dos eventos’”53 (LANGACKER, 1991, p. 276). Essas sucessões de eventos pré-dispostos convergem com a noção de expectativa, investigada no presente estudo, e refletem, além disso, forças agonistas e antagonistas da dinâmica proposta por Talmy (1988, 2000).

As investigações sobre o conceito de tempo têm comprovado que a conceptualização do fenômeno é multifacetada. Na maioria das culturas, o tempo é entendido em termos de espaço e movimento, o que reforça a tese de Grady (1997) sobre a universalidade de metáforas primárias e corpóreas. No entanto, há investigadores que se aprofundam em conceptualizações menos comuns sobre o tempo, é caso de Wang e Wilcox (2015) quando coletam exemplos sobre O TEMPO É ÁGUA no chinês; também ocorre com Sinha et al. (2011,

2016), que descrevem culturas onde a metáfora do tempo em termos de espaço parece não existir. Não se abstém da lista os estudiosos que pensam na indissociabilidade do tempo/espaço, para esses, qualquer diligência em caracterizar tempo e espaço em modos particulares é sobremaneira enganosa (HÄGERSTRAND et al., apud CARLSTEIN, 1982); no mesmo entendimento, Ellen (2016) argumenta que a descrição de algum espaço em comparação a algum período de tempo (e vice-versa) é “mais do mesmo”. As alegações de Ellen (2016) e Carlstein (1982) possuem certo fundamento fenomenológico, pois, ao experimentar o tempo, as pessoas fazem-no de um modo tão multissensorial que chega a ser impossível não intercalar as dimensões entre si (ver Figura 5).

53 “[…] whenever appropriate circumstances arise, and will do so unless energy is somehow exerted to

Figura 5 - Diagrama de Hägerstrand das trajetórias tempo-espaço

Fonte: Carlstein (1982, p. 138).

Há uma oposição já bem conhecida nos estudos do tempo, a que diz respeito à concepção linear em polarização com a concepção cíclica. Em termos mais antropológicos, o tempo linear é diferente, em seu fundamento, do tempo cíclico. Para Leach (1961), existe uma diferença separando o tempo sacro e o profano, em que os festejos se opõem ao tempo linear. Na explanação de Ellen (2016), ao tempo linear permite-se o codinome “duração”, enquanto a ciclicidade demanda “um processo contínuo que nos toma de um ponto A e nos devolve ao ponto A em um ciclo”54 (ELLEN, 2016, p. 142).

Sobre um grupo indígena brasileiro, o trabalho de Silva Sinha et al. (2012) afirma que não há indicativo de ciclicidade na língua amondawa, porém, em Sinha et al. (2016, p. 167), há a descrição das estações climáticas daquele povo com a sequência Amana [tempo da chuva] - Kauripe [tempo do sol] - Amana [tempo da chuva], percebendo-se o efeito de repetição na duplicação do termo “Amana”. Possivelmente, Roy Ellen (2016) veria o fenômeno do grupo brasileiro nos moldes do “ciclo”, já que, em seu modelo, o fenômeno poderia ajustar-se ao processo de oscilação A > B > A > B, utilizado em descrições de tempo não linear.

Com as teorias supramencionadas, o caminho investigativo da tese pode ser conduzido às etapas metodológicas e de análise. Referências teóricas e analíticas são retomadas a partir dessas, ou acrescentadas de maneira pontual ao longo das descrições. No próximo capítulo, descreve-se a metodologia da pesquisa sempre com a base teórica mínima desenvolvida aqui.