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A relação entre sociedade e evento discursivo é tratada por Fairclough (1992a, trad. 2001a), na Teoria Social do Discurso, por meio de um modelo tridimensional de discurso, em que todo evento discursivo é considerado, ao mesmo tempo, como texto, produto falado ou escrito; como prática discursiva, os processos de produção, de distribuição e de consumo textuais; e, como prática social, um tipo de ação social que envolve a análise do evento discursivo nos níveis situacional, ins titucional e societário.

Prática social Práticadiscursiva

Texto

Figura 1 – Concepção tridimensional do discurso (Fairclough, 1992a, trad. 2001a, p. 101)

A concepção do discurso como evento tridimensional é crítica e ajuda a evidenciar as conexões entre o uso da linguagem e o exercício do poder, uma vez que a manutenção do poder e da hegemonia passa justamente pela falta de clareza de tais conexões.

O quadro a seguir mostra as categorias analíticas propostas por Fairclough na obra de 1992a (trad. 2001a):

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Texto Prática discursiva Prática social

Vocabulário Gramática Coesão Estrutura textual Produção Distribuição Consumo Contexto Força ilocucionária Coerência Intertextualidade Interdiscursividade Ideologia (sentidos, pressuposições, metáforas) Hegemonia (orientações econômicas, políticas, culturais, ideológicas) Sentidos Pressuposições Metáforas

Quadro 1 – Categorias analíticas propostas no modelo tridimensional

Na análise dos dados, algumas dessas categorias são exploradas. No que diz respeito à dimensão do texto, o vocabulário assume grande relevância, pois buscam-se marcas nos dados que componham um determinado escopo de análise. Por exemplo, se o tema é identidade, prioriza-se um arcabouço lexical que o satisfaça por meio da análise discursiva.

A intertextualidade e a interdiscursividade são as categorias exploradas com relação à dimensão da prática discursiva. O objetivo é mostrar a capacidade de certos textos preencherem outros textos ou serem preenchidos por outros textos e dialogarem entre si. Como o corpus da pesquisa é composto por documentos institucionais produzidos no âmbito da Capes, essa categoria assume papel primordial na ligação dos elementos que compõem os textos como um fator de retroalimentação (produção e consumo dos textos).

A dimensão da prática social explora os conteúdos ideológicos dos textos e dos discursos. O estudo da ideologia assume, aqui, um viés totalmente crítico. É o olhar voltado todo o tempo para o intercâmbio entre significado e poder, no sentido mesmo de que as formas simbólicas são usadas para estabelecer e sustentar relações de dominação (hegemonias). Há, também, uma preocupação com o sentido de possíveis metáforas.

Em continuidade, a proposta inicial do modelo tridimensional tomou novos contornos desde Chouliaraki & Fairclough (1999). Houve a manutenção

das três dimensões analíticas do discurso, mas agora com o enfoque mais acentuado na análise da prática social. O discurso passa então a ser um momento dentro das práticas sociais, e não mais o foco central predominante da análise, haja vista a abrangência e a complexidade social que o permeiam.

Etapas do enquadre para ADC de Chouliaraki & Fairclough

1) Um problema (atividade, reflexividade) 2) Obstáculos para serem superados (a) análise da conjuntura

(b) análise da prática particular (i) práticas relevantes

(ii) relações do discurso com outros momentos da prática (c) análise de discurso

(i) análise estrutural (ii) análise interacional

3) Função do problema na prática

4) Possíveis maneiras de superar os obstáculos 5) Reflexão sobre a análise

Quadro 2 – O enquadre para a ADC de Chouliaraki & Fairclough (1999)

Ressalta-se que a visão tridimensional do discurso, como descrita acima, seguiu em direção a uma teoria mais avançada, na qual Fairclough (2003, 2006), por meio de uma proposta analítica, analisa a prática discursiva e a prática social em conjunto.

Nesse sentido, Fairclough (2003, p. 36) estabelece que os vários níveis de análise do texto devem ser feitos por meio do intercâmbio das suas relações textuais internas e externas. As relações externas estão vinculadas à estrutura social, às práticas sociais, aos eventos sociais (ações e suas relações sociais, identificação das pessoas e da representação de mundo), ao discurso (gênero, discursos, estilos). As relações internas, por sua vez, estão vinculadas à semântica, à gramática, ao vocabulário e à fonologia.

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Relações internas Relações externas

Semântica Estrutura social Gramática Práticas sociais Vocabulário Eventos sociais

Fonologia Discurso

Quadro 3 – Tipos de relações textuais (FAIRCLOUGH, 2003)

Entre as categorias utilizadas por Fairclough (2003), merece destaque a intertextualidade, uma dimensão externa, cujo propósito é mostrar a propriedade que têm os textos de serem cheios de fragmentos de outros textos. Como já dito em linhas anteriores, o objetivo, nesta pesquisa, é associá-la à concepção dialógica do discurso, na análise do modelo de avaliação institucional de programas de pós-graduação implantados no País.

Na obra de 2006, por exemplo, Fairclough caminha já para uma proposta transdisciplinar (ainda em construção) de análise social da linguagem, por meio da aproximação da Teoria Social do Discurso, da multimodalidade e da economia político-cultural. Segundo o autor, os objetos econômicos e políticos são socialmente construídos. Há, contudo, um lado subjetivo de construção desses objetos, cujo processo de construção social constrói não só os objetos, como também os sujeitos sociais a eles associados. São, portanto, co-construções de sujeitos e de objetos. Além disso, os objetos econômicos e políticos são, também, culturalmente condicionados por sistemas econômicos e formas de Estado, os quais figuram interconectados a significados, interpretações, narrativas, valores, atitudes, identidades entre outros. Tudo se resume a discurso. Logo, sujeitos e objetos são efeitos do discurso. É também nessa obra que Fairclough propõe o momento semiótico, analisando o texto (evento social), a ordem do discurso (prática social) e a linguagem (estrutura social). A linguagem, portanto, aparece com a função modalizadora. Ele traz à discussão a questão da reestruturação do capitalismo cujo teor semiótico é instaurador de uma nova ordem de discurso, à qual é propiciadora da formação de novos gêneros, discursos e estilos, como base para a análise lingüística.

Enfim, o percurso da Teoria Social do Discurso sempre teve um objetivo claro: fornecer aos sujeitos recursos que possibilitem, por meio dos estudos de linguagem e de ideologia, seu fortalecimento na sociedade. O próprio acesso à análise crítica dos eventos discursivos é um fator de fortalecimento, pois o discurso pode ser a um só tempo limitante e inovador (no sentido dual). Logo, a prática discursiva não se deve prestar somente à reprodução de relações e de práticas sociais existentes, mas também possibilitar mudança ou transformação.

Por esse prisma, as práticas sociais podem ser vistas como articulações de diferentes tipos de elementos sociais associados a áreas particulares da vida social – a prática social implícita no discurso social da educação, especificamente da pós-graduação como um segmento. O ponto importante acerca das práticas sociais na perspectiva deste trabalho é que elas articulam o discurso (como linguagem) juntamente com outros elementos sociais não-discursivos.

Agora, a questão que se coloca é a de como se dá esse processo de reconfiguração da linguagem, por meio da articulação de novas práticas sociais a modelos pré-existentes. E o mais interessante: entender como esse processo de reconfiguração acontece no âmbito dos sistemas sociais e quais os mecanismos de troca lingüística utilizados por esses sistemas para manter o seu capital simbólico, o arcabouço pré-construído de suas crenças, valores e signos. Isso, sem dúvida, acontece no âmbito da luta hegemônica.

Fairclough (2006, p. 5) fala das vozes da globalização que, por sinal, são

muitas: a análise acadêmica, as agências governamentais, os organismos não-governamentais, a mídia, os cidadãos entre outros. Esse “coral de vozes”

é o que contribui substancialmente para a reconfiguração das linguagens de acordo com o seu campo de atuação. E o grau de reconfiguração está diretamente vinculado com o poder que os agentes (por trás dessas vozes) têm no campo político em que atuam.

A análise acadêmica, que é o que de fato interessa à presente pesquisa, segundo o autor, difere de outras no sentido de que sua orientação em relação à globalização é primariamente teórica e analítica (a produção de descrições, interpretações, explicações e teorias), ao passo que outras análises são

58 voltadas para uma orientação prática (orientação de como agir e estratégias para agir).