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A TIPOGRAFIA E A LEGIBILIDADE NO DESIGN DE LIVROS

5.1 TIPOGRAFIA

A tipografia é o principal elemento da página impressa e, segundo Ambrose e Harris (2009), é o meio pelo qual damos forma visual a uma escrita. Para Hurlburt (1980), a criação e o desenvolvimento dos alfabetos foi o passo decisivo para o aperfei-çoamento do sistema de comunicação escrita, surgindo de certa forma como uma conti-nuidade na evolução do surgimento do livro. Ao inventar o sistema de tipos móveis, Gutenberg introduziu uma das principais realizações de toda história da humanidade.

Gutenberg utilizou a habilidade dos calígrafos, dos entalhadores de madeira e dos ope-rários trabalhadores em metal para traçar, fundir e produzir as bases das matrizes. Criou matrizes para produzir quantidade ilimitada de tipos que podiam ser combinados em um alinhamento ótimo e aperfeiçoou uma tinta que aderisse aos tipos metálicos e aperfeiço-ou uma prensa que continuaperfeiço-ou em uso sem maiores modificações durante três séculos.

Os tipos móveis podiam ser utilizados como as letras do alfabeto, números e outros ca-racteres, e já contava com uma herança de impressões de diversas formas e sobre dife-rentes materiais como moedas, selos, xilografias e encadernações (HURLBURT, 1980).

Em relação à história da tipografia e aos movimentos na história do design gráfi-co, Domiciano, resume:

Os traçados da história da tipografia (enquanto estudo e uso dos tipos e não apenas co-mo processo de impressão) e do design estão estampados nas páginas dos livros, e pas-sam por William Morris e sua editora medievalista, a Kelmscott Press (movimento Arts and Crafts – Inglaterra, final do século XIX), pela Bauhaus e sua oficina tipográfica (Alemanha, escola fundada em 1919 e a oficina gráfica, em 1925), pela “nova tipogra-fia” do também alemão Jan Tschichold (seu manual de tipografia publicado em 1928 teve grande impacto na concepção tipográfica moderna) e pela escola suíça de Basiléia e seu Estilo Internacional (década de 50 do século XX), de onde emergiram grandes nomes da tipografia (DOMICIANO, 2008, p.93).

E conclui que destes movimentos nasce o conceito de “design transparente”, que impera na concepção do livro convencional, onde o design nunca deve intervir na legi-bilidade e na supremacia do texto (DOMICIANO, 2008, p.93).

A escolha tipográfica define a legibilidade da ideia escrita e as sensações de um leitor em relação a ela. Segundo Ambrose e Harris, “a tipografia dá o tom a uma parte do texto, e a escolha de uma fonte deve considerar se ela é apropriada à mensagem e ao público ao qual será apresentada” (AMBROSE; HARRIS, 2009, p.51).

5.1.1 Fonte, corpo e família tipográfica

a) Fonte – é o conjunto completo de caracteres tipográficos tais como letras maiúsculas e minúsculas, sinais de pontuação, números e espaços com características idênticas (FONSECA, 1990). A Figura 5.1 apresenta a fonte Times New Roman e seu conjunto de caracteres, em sua forma regular.

Figura 5.1 – Conjunto de caracteres da fonte Times New Roman, regular. Fonte: elaborado pela autora.

b) Corpo – é a área ocupada pela matriz da letra, incluindo o espaço acima e abaixo dos seus traços ascendentes e descendentes, como apresentado na Figura 5.2. O corpo da fonte é medido em pontos. A altura–x do corpo (altura da letra x em caixa bai-xa) é a medida da altura da letra excluindo-se as medidas ascendentes e descendentes (FONSECA, 1990). Essa letra é usada como referência padrão, pelo fato de que as per-nas da letra x em caixa baixa são fáceis de alinhar precisamente com a linha mediana e com a linha de base do tipo.

Figura 5.2 – Limite para a medida do corpo da fonte. Fonte: elaborado pela autora.

c) Família tipográfica – é o conjunto de fontes cujo desenho apresenta as mes-mas características fundamentais, variando na força e na inclinação dos traços ou na largura relativa das letras. A forma da letra é muitas vezes influenciada pela tecnologia e pelo fim para o qual é concebida. Uma família tipográfica é caracterizada pelo nome que seu criador ou fundidor lhe atribui. Assim, temos as famílias: Caslon, Bodoni,

Futu-ra, Univers, Times News Roman, Garamond e milhares de outras. A Figura 5.3 apresen-ta a família Times New Roman em suas características regular, itálica, negrito e negrito-itálico (FONSECA, 1990).

Figura 5.3 – Família Times New Roman. Fonte: elaborado pela autora.

5.1.2 A anatomia das letras

As letras de todos os alfabetos, sejam eles clássicos ou modernos, apresentam as mesmas características estruturais básicas e seguem convenções similares no desenho e nos detalhes. As proporções específicas, o contraste na espessura dos traços e os deta-lhes de desenho podem mudar, mas sua estrutura arquitetônica fundamental permanece a mesma (SAMARA, 2011, p.16-17).

Conhecer a estrutura das letras é essencial para entender as diferenças entre as fontes. Ao falar de tipos de letra, se faz referência a termos específicos para sua defini-ção. Estes termos quantificam o desenho do tipo e indicam o seu aspecto visual (DABNER, 2008). A figura 5.4 apresenta as características estruturais básicas encontra-das nas letras de todos os alfabetos, sejam eles clássicos ou modernos, e seguem con-venções similares (SAMARA, 2011, p.16).

Figura 5.4Características estruturais básicas no desenho tipográfico. Fonte: Samara, 2011, p.16

A altura-x é o que determina o tamanho do caractere. Esta altura varia de uma fonte para outra, embora o corpo da fonte permaneça invariável. Ao se projetar um li-vro, estas questões devem ser avaliadas. Tendo como parâmetro de medida o corpo, a fonte a ser utilizada deve permitir uma legibilidade final que seja adequada ao público ao qual se destina o livro (LUPTON, 2006).

Para Lupton:

[...] o tamanho-padrão em muitos softwares é de 12pt. Embora isso normalmente crie textos legíveis em tela, tipos de texto com 12pt costumam parecer grandes e parrudos na página impressa (mas 12pt é um bom tamanho para livros infantis). Tamanhos entre 9 e 11pt são comuns para textos impressos (LUPTON, 2006, p. 37).

5.1.3 Classificação de tipos

As características individuais de desenho de uma fonte são o que a distingue das outras. Essas características estão relacionadas ao desenvolvimento histórico da tipogra-fia, e nossa percepção sobre o estilo de uma fonte está muitas vezes relacionada a essa historicidade. De acordo com Samara (2011), “o desenvolvimento histórico da tipogra-fia sempre esteve muito próximo à evolução das tecnologias usadas para produzir e im-primir tipos”. As letras desenhadas à mão com pena ou cinzel influenciaram as fontes antigas, entretanto, a fundição dos tipos de chumbo no século XVI proporcionou uma

nova precisão formal, e o surgimento de uma estética mais racional, produzindo fontes com desenhos mais refinados e tecnologicamente mais exigentes (SAMARA, 2011, p.

20).

De acordo com Lupton (2006), no século XIX, os impressores buscaram analo-gias entre a história da arte e a herança de seu próprio ofício, desenvolvendo um sistema básico de classificação de tipos:

Letras humanistas estão intimamente conectadas à caligrafia e ao movimento da mão.

As fontes transicionais e modernas são mais abstratas e menos orgânicas. Esses três grupos principais correspondem grosseiramente aos períodos renascentista, barroco e iluminista na arte e na literatura (LUPTON, 2006, p. 42).

Segundo a autora, historiadores e críticos de tipografia têm proposto esquemas mais refinados que procuram capturar melhor a diversidade das letras existentes. Nos séculos XX e XXI, os designers continuaram a criar novas fontes baseadas em caracte-rísticas históricas (LUPTON, 2006, p. 42).

5.1.3.1 A progressão das formas, de arcaicas a modernas

Segundo Samara (2011), existem cinco aspectos formais que distinguem um tipo de outro e criam o contraste de ritmo e sensação do qual os tipógrafos dependem para adicionar dimensões ao texto e à composição (SAMARA, 2011, p.17). São eles:

Caixa – a letra pode se apresentar de duas formas: a maiúscula, ou caixa-alta, e a minúscula, ou caixa-baixa42. Letras de caixa-baixa, Figura 5.6, têm formas mais varia-das e distinguem-se varia-das de caixa-alta por suas ascendentes e descendentes; sua diferen-ciação faz com que sejam mais rapidamente reconhecidas. A uniformidade na altura e largura da letra de caixa-alta, Figura 5.7, demanda mais espaço entre letras para que cada uma seja reconhecida individualmente.