A TERCEIRA IDADE
3.4 A QUALIDADE DE VIDA NA TERCEIRA IDADE
A OMS define qualidade de vida como "a percepção do indivíduo sobre a sua posição na vida, no contexto da cultura e dos sistemas de valores nos quais ele vive, e em relação a seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações". Nessa definição,
incluem-se seis domínios principais: saúde física, estado psicológico, níveis de inde-pendência, relacionamento social, características ambientais e padrão espiritual. Nesse contexto, segundo Melo (2009), “serviços que contribuem para promoção de uma quali-dade de vida voltada para a sua população idosa tornam-se um desafio” (MELO, 2009, p.1582).
Para Veras (2009), “o prolongamento da vida é uma aspiração de qualquer soci-edade. No entanto, só pode ser considerado como uma real conquista na medida em que se agregue qualidade aos anos adicionais de vida”. Nesse sentido, toda política destina-da aos idosos deve levar em conta suas capacidestina-dades e a necessidestina-dade de autonomia, par-ticipação, cuidado e auto-satisfação, abrindo campo para a possibilidade de atuação em variados contextos sociais e de elaboração de novos significados para a vida na idade avançada (VERAS, 2009, p.549).
De acordo com Neri (1993), existem três formas de velhice: normal, com ausência de doenças biológicas e psicológicas; patológica, com degenerações associadas a doenças; e ótima, relacionada ao estado ideal de bem-estar pessoal e social. Para o autor:
[...] avaliar a qualidade de vida na velhice implica na adoção de múltiplos critérios de natureza biológica, psicológica e sociocultural. Vários elementos são apontados como determinantes ou indicadores de bem-estar na velhice: longevidade; saúde biológica;
saúde mental; satisfação; controle cognitivo; competência social; produtividade; ativi-dade; eficácia cognitiva; status social; renda; continuidade de papéis familiares e ocupa-cionais, e continuidade de relações informais em grupos primários (princi-palmente rede de amigos) (NERI, 1993, p.9-55).
Predomina o ponto de vista de que envelhecer satisfatoriamente depende do de-licado equilíbrio entre as limitações e as potencialidades do indivíduo, o qual lhe possi-bilitará lidar, em diferentes graus de eficácia, com as perdas inevitáveis ocasionadas pelo envelhecimento (NERI, 1993, p.9-55).
Ryff realizou uma revisão de literatura sobre a relação entre qualidade de vida e continuidade no desenvolvimento pessoal na velhice e propôs um modelo integrativo baseado em seis pontos: autoaceitação; relações positivas com os outros; autonomia;
intencionalidade e direcionalidade na busca de metas na vida; senso de domínio; e com-petência sobre os eventos do ambiente e da própria vida (RYFF, apud NERY, 1993).
Para Nery, na proposta de Ryff, “bem-estar enfatiza a possibilidade de cresci-mento e continuidade de desenvolvicresci-mento, deixando de lado a ideia de que bem-estar pode significar ausência de doença” (NERI, 1993, p.9-55).
Embora não haja definição consensual de qualidade de vida, de acordo com o instrumento de avaliação da qualidade comparável de vida de forma internacional e multicultural (WHOQOL),33 Paschoal aponta para o fato de que há uma considerável concordância entre os pesquisadores acerca de algumas características que envolvem tal constructo e cita três características: subjetividade, multidimensionalidade e bipolarida-de.
Quanto à primeira característica, observa-se que tal subjetividade está interrelacionada às condições externas, como trabalho, família e os demais laços sociais que permeiam a vida do idoso e que influenciam sua qualidade de vida. A segunda característica – multidimensionalidade – possui um maior consenso entre os pesquisadores, uma vez que dimensões tais como físicas, psicológicas e sociais estão sempre incluídas nas diversas definições de qualidade de vida. Tais dimensões convergem sempre na direção da subjetividade, ou seja, como os indivíduos percebem seu estado físico, suas relações interpessoais etc. Quanto à bipolaridade, é possível perceber que tal constructo possui dimensões positivas (como autonomia) e negativas (como dor, dependência). Contudo, sempre devem ser enfatizadas as percepções individuais de cada dimensão (PASCHOAL, 2004, p.28).
E define qualidade de vida como sendo:
[...] a percepção do indivíduo acerca de sua posição na vida, de acordo com o contexto cultural e os sistemas de valores nos quais vive e em relação a seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações (PASCHOAL, 2004, p.28).
Os programas para a terceira idade abriram espaços para que experiências de en-velhecimento bem-sucedidas pudessem ser vividas coletivamente, reduzindo os estereó-tipos negativos da velhice (DEBERT, 1997, p.39-56). A participação do idoso em pro-gramas contribui de maneira singular em vários aspectos de sua vida.
As atividades lúdicas também se apresentam como importantes mecanismos de integração da população idosa. Em 1993, por exemplo, o SESC desenvolveu o projeto
“Era uma vez...”, que apresenta um caráter socioeducativo de integração intergeracional – crianças, jovens e idosos –, tendo por fio condutor a literatura infantil.
Os idosos contam também com uma série de descontos em atividades culturais e artísticas. Embora isso já fosse uma prática em vários municípios e estados brasileiros, o Estatuto do Idoso ampliou para todo o território nacional um desconto de pelo menos
33 A World Health Organization Quality of Lif (WHOQOL), projeto iniciado em 1991 com o objetivo de desenvolver instrumento de avaliação da qualidade comparável de vida de forma internacional e multicul-tural, avalia a percepção do indivíduo no contexto de sua cultura e sistemas de valores e seus objetivos pessoais, padrões e preocupações. Os instrumentos WHOQOL foram desenvolvidos de forma colaborati-va em uma série de centros em todo o mundo, e têm sido amplamente testados em campo. Disponível em:
http://www.who.int/substance_abuse/research_tools/whoqolbref/en/
50% sobre o valor dos ingressos para eventos artísticos, culturais, esportivos e de lazer, além do acesso preferencial aos locais dos eventos34. No âmbito do turismo, o Ministé-rio do Turismo, em parceria com os clubes da melhor idade, desenvolve o programa Melhor Idade que tem por objetivo melhorar o aproveitamento da infra-estrutura do turismo na baixa temporada (CAMARANO; PASINATO, 2004, p.286).
De todas as ações voltadas para a terceira idade, em nenhum momento, no Bra-sil, vemos uma preocupação do setor editorial com um projeto editorial de livros dife-renciados para este grupo social. Frente a esta realidade, um projeto editorial que atenda as deficiências decorrentes da idade é fator relevante para acrescentar a projetos cultu-rais e de estímulo à leitura, já que a leitura se apresenta como um dos melhores exercí-cios para a manutenção da memória.