• Nenhum resultado encontrado

RETRATOS DA LEITURA NO BRASIL

O PROCESSO DA LEITURA

4.6 RETRATOS DA LEITURA NO BRASIL

A pesquisa denominada Retratos da Leitura no Brasil, iniciadano ano 2000 pelo Instituto Pró-Livro, é o principal estudo sobre o comportamento do leitor no país, ofere-cendo uma extraordinária contribuição a governos, gestores, pesquisadores, empresários e a todos que se preocupam com a questão das políticas públicas do livro e da leitura.

Na segunda edição (em 2007), o principal objetivo foi avaliar os investimentos em pro-gramas de governo e em projetos direcionados ao fomento à leitura, após sete anos da primeira edição, buscando consolidar ou orientar novas ações que sejam efetivas.

Conforme descrito por Amorim, a década de 2000/2010, em consequência de um novo período de mobilização, que teve seu auge em 2005, nas comemorações no Brasil do Ano Ibero-Americano da Leitura – conhecido como Vivaleitura –, foi amplamente debatida e construída uma agenda informal de políticas públicas que, de certo modo, parece já ter surtido algum efeito:

O ponto de partida para os avanços mais recentes – e muitos aconteceram no século passado, como a criação do Instituto Nacional do Livro (INL), extinto na década de 1990, e o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), ou, ainda, a con-versão dos programas governamentais do livro em política de Estado – foi, sem dúvida, a instituição da Lei do Livro, em 2003.

Depois disso, o Brasil promoveu a desoneração fiscal do livro – e não são muitos os pa-íses do mundo onde ele é completamente livre de impostos e taxas, como é por aqui –, criou programas governamentais de financiamento às editoras e fez ressurgir instâncias políticas de debate e concertação, como é o caso da Câmara Setorial do Livro, Literatura e da Leitura. Ao mesmo tempo, o governo intensificou os esforços para zerar o número de municípios sem biblioteca. Mais importante ainda, criou o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), passo fundamental para converter o tema em política de Estado (AMORIM, 2008, p.19).

Segundo Amorim, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil ajudará gestores, di-rigentes do setor público, da iniciativa privada e do terceiro setor, a perceberem nuances fundamentais da prática da leitura no Brasil, além de dar elementos para articular alian-ças e engendrar, com muita propriedade, as estratégias para a formação de leitores e a ampliação da leitura no Brasil.

Para a professora Lucília Garcez, a pesquisa mostra que ainda

há uma grande fatia da população que não conhece os materiais de leitura. Há um pro-blema de acesso aos materiais de leitura, especialmente ao livro. Mesmo tendo-os por perto, falta a descoberta, a volta na chave que faz a súbita ligação e torna o sujeito cap-turado para a leitura. Ele não descobriu a senha (GARCEZ, 2008, p.61).

4.6.1 Objetivos da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil

A metodologia,40 criada a partir de uma demanda apresentada pelo Brasil, foi desenvolvida por um grupo de especialistas da América Latina para permitir estudos comparados e uma compreensão mais uniforme sobre a questão da leitura nos países da região. O objetivo central da segunda edição da pesquisa foi diagnosticar e medir o comportamento leitor da população, especialmente com relação aos livros, e levantar junto aos entrevistados suas opiniões relacionadas à leitura. O estudo obteve, ainda, objetivos secundários: conhecer a percepção da leitura no imaginário coletivo; definir o perfil do leitor e do não leitor de livros; identificar as preferências dos leitores; identifi-car e avaliar os canais e formas de acesso à leitura e as principais barreiras (AMORIM, 2008, p.145).

O método adotado para definir o leitor ou não-leitor foi a declaração do entrevis-tado de ter lido ao menos um livro nos últimos três meses.

4.6.2 Resultados parciais da pesquisa41 Retratos da leitura no Brasil

A população estudada: 172.731.959 pessoas: a partir de 5 anos de idade. Destes 34,7 milhões de 5 a 13 anos, sendo que, 51,5 milhões têm menos de 3 anos de escolari-dade. Foram criados quatro indicadores principais, que mostraram, em linhas gerais, o seguinte:

• Número de leitores: 95 milhões (quem declarou ter lido pelo menos um livro nos últimos 3 meses);

• Número de não-leitores: 77 milhões (quem declarou não ter lido nenhum li-vro nos últimos 3 meses);

• Número de livros comprados: 1,2 livro por habitante/ano (o que dá 36,2 mi-lhões de compradores de livros);

• Número de livros lidos (4,7 livros por habitante/ano).

Quanto ao significado da leitura: para 26% dos brasileiros, conhecimento é o va-lor mais associado à leitura, dado que aumenta entre os mais velhos. A preferência cres-ce com a renda e a escolaridade (48% no ensino médio e 64% no ensino superior).

40A metodologia utilizada na pesquisa foi desenvolvida pelo Centro Regional de Fomento ao Livro na América Latina e no Caribe (Cerlalc), da Unesco, e pela Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI), como parte das comemorações do Ano Ibero-Americano da Leitura – Vivaleitura.

41Foram retirados apenas dados significantes para a presente investigação.

O Gráfico 4.1 apresenta o número de leitores pesquisados em relação à classe social a qual pertencem.

Gráfico 4.1 Perfil da amostra por classe social. Fonte: Amorim, 2008, p.171.

A pesquisa constatou que 95 milhões de pessoas, ou seja, 55% da população, são leitores, enquanto 77 milhões, 45% dos entrevistados, foram classificados como não leitores. A pesquisa apontou também que o brasileiro lê em média 4,7 livros por ano.

Em algumas regiões, como é o caso do Sul, são lidos 5,5 livros por habitante ao ano. No Sudeste, o número foi de 4,9, no Centro-Oeste 4,5, no Nordeste 4,2 e no Norte 3,9 livros por habitante. Embora os leitores de terceira idade leiam menos, o índice de gosto pela leitura aumenta com a idade.

Gráfico 4.2 – Resultados quanto ao gosto pela leitura no tempo livre e indica que quanto maior a idade mais este índice se eleva. Fonte: Amorim, 2008, p.34.

Dos leitores de livros no Brasil, um terço afirma ler com frequência. Destes, 95,6 milhões (55% da população estudada) declaram ter lido pelo menos um livro nos últi-mos 3 meses; 6,9 milhões (7%) dos leitores estavam lendo a Bíblia.

De acordo com os resultados quanto aos gêneros mais lidos a preferência entre os leitores com mais idade é a Bíblia. Distribuídos em 75% dos leitores com 70 anos ou mais, seguidos por 58% de 50 a 59 anos e 66% de 60 a 69 anos. Quanto às motivações dos leitores para ler um livro (por idade): os mais velhos são os que mais leem por mo-tivos religiosos (chega a 57% acima de 70 anos). Quanto à forma como leem, dos 43 milhões que preferem ler trechos dos livros, 10% são leitores da Bíblia; e, quanto ao local como leem, a preferência por lugares silenciosos para ler cresce quanto maior a idade do leitor (mais de 90% acima de 40 anos).

Conforme destaca Maria Antonieta Antunes Cunha, a Bíblia é lida por pratica-mente todas as categorias de adultos, mesmo pelos que se declararam agnósticos ou ateus, mas é pelo menos três vezes mais lidas entre protestantes (9,8%) e evangélicos em geral (12,26%) do que entre católicos (2,82%) e kardecistas (2,54%).

Da mesma forma, o grande número de citações de livros religiosos (livros psicografa-dos, biografias de santos e figuras de atuação religiosa ou orientações de vida com cará-ter religioso) poderia apontar uma necessidade a ser atendida, ou um campo a ser ex-plorado editorialmente (CUNHA, 2008, p.49) [grifo nosso].

Quanto à idade, os que mais leem têm de 5 a 10 anos (16%); sendo que este nú-mero diminui sensivelmente com o avanço da idade: 3% têm de 60 a 69 anos e 2% têm 70 anos ou mais. O Gráfico 4.3 mostra a porcentagem de leitores em relação à idade, e o Gráfico 4.4 mostra a porcentagem de livros lidos por ano em relação à idade do leitor.

Gráfico 4.3 – Porcentagem de leitores em relação à idade.

Fonte: Amorim, 2008, p.172.

Gráfico 4.4 – Porcentagem de livros lidos por ano em relação à idade do leitor.

Fonte: Amorim, 2008, p.223.

Quanto aos não leitores, as dificuldades de leitura declaradas configuram um quadro de má formação das habilidades necessárias à leitura, o que pode decorrer da fragilidade do processo educacional. A maior parcela de não leitores está entre os adul-tos: 30 a 39 anos (15%), 40 a 49 anos (15%), 50 a 59 anos (13%) e 60 a 69 anos (11%).

O Gráfico 4.5 mostra que o número de não leitores diminui de acordo com o ní-vel de escolarização, a renda familiar e a classe social. Na classe A, há apenas 5% de não leitores. Isso pode levar à conclusão de que o poder aquisitivo associado ao nível de escolarização, privilégio das classes mais altas, é significativo para a constituição de leitores assíduos. No ensino superior, há apenas 2% de não leitores (GARCEZ, 2008, p.63).

Gráfico 4.5 – O número de não leitores diminui de acordo com o nível de escolarização, a renda familiar e a classe social. Fonte: Amorim, 2008, p.215.

Não leitores estão na base da pirâmide social e os livros religiosos são os que mais atraem os não leitores. Quanto às limitações dos brasileiros para a leitura: 16%

leem muito devagar; 7% não compreendem a maior parte do que lê; 11% não têm paci-ência para ler; 7% não conseguem se concentrar; 8% não leem por limitações físicas como a baixa visão; 48% não têm dificuldade alguma e 15% não são alfabetizados ou ainda não sabem ler.

Embora a pesquisa revele índices baixos de leitores efetivos, o livro ocupa lugar de destaque na pesquisa e é percebido como imagem de importância e valorização soci-al por transmitir conhecimento (89% dos entrevistados), ler para os filhos (81%) e por ser uma forma de se atualizar (82%). Em relação à terceira idade e como se dá o proces-so e acesproces-so à leitura, conclui-se que: 19% dos não leitores têm mais de 65 anos.

Examinando-se os dados obtidos, constatamos que, embora digam gostar de ler, a porcentagem de leitores da terceira idade é muito baixa. Contribuir para a reversão desses percentuais é um dos objetivos desta pesquisa.