CAPÍTULO 1 – O lugar do found footage no cinema 16
1.4. A transformação da subjetividade na modernidade 37
conceito de regime estético e found footage. Como objeto arrancado de seu contexto original, desviado de sua finalidade primeira e “acabada”, o filme ou trecho de filme é liberado daquelas “conexões ordinárias” de que Rancière fala, é autonomizado, potencializado para estabelecer novas relações em temporalidades heterogêneas ao mesmo tempo que esse fazer, sua prática, reflete o que a arte faz ou aquilo que faz ser arte. Entretanto fazemos notar outro aspecto de nosso entendimento da leitura para os regimes da arte propostos por Rancière, o de que não são regimes estanques de superação um pelo outro, localizados temporalmente, mas que eles ocorrem simultaneamente.
Por ora, retornaremos a seguir à perspectiva sócio-‐histórica sobre a modernidade para pensarmos como naquele intervalo de tempo entre o século XIX e as primeiras décadas do século XX, caracterizado pelas transformações globais assistidas e neste cenário e o aparecimento do cinema, podem nos ser relevantes para pensarmos a questão do found footage.
1.4. A transformação da subjetividade na modernidade
Fragmentada, caótica, desorientadora. São palavras recorrentes quando se fala sobre a modernidade, a ideia de uma realidade composta em mosaico e de um homem formado de múltiplas e urgentes informações que era impelido a assimilar rapidamente o novo ambiente urbano, industrial, tecnológico, científico que o circundava. Singer aponta os trabalhos de Georg Simmel, Siegfried Kracauer e Walter Benjamin, onde afirmavam que “a modernidade também tem que ser entendida como um registro da experiência subjetiva fundamentalmente distinto, caracterizado pelos choques físicos e perceptivos do ambiente urbano moderno” o que o autor denomina como concepção neurológica da modernidade para entender as mudanças que ocorreram neste mundo fenomenal e que mudaram definitivamente os fundamentos fisiológicos e psicológicos da experiência subjetiva do homem (SINGER, op. cit.).
Em meio ao trânsito, os novos sons e barulhos das cidades, as mudanças na arquitetura, a competição visual pela publicidade nos espaços etc, toda essa quantidade de hiperestímulos aos quais estava sujeito esse novo homem, iria influenciar e mudar completamente a maneira de se ver o mundo, provocando aquilo que Jonathan Crary refere-‐se como uma demanda na capacidade de prestar atenção frente à fragmentação, ao choque e a dispersão, ao mesmo tempo em que considera um paradoxo para com as atividades extremamente organizadas e concentradas do cotidiano do mundo disciplinar do trabalho, da educação e do consumo de massa por estar também associado a esse “ideal de atenção sustentada como um elemento constitutivo de uma subjetividade criativa e livre” (CRARY, 2001, pg. 1-‐2). E nesta nova realidade em que esses indivíduos se tornavam cada vez mais disciplinados nos espaços fechados da família, da escola, da caserna e da fábrica, conforme nos lembra Gilles Deleuze a partir da noção de Michel Foucault de sociedade disciplinar que perdurou até o início do século XX (DELEUZE, 2008, pg. 219), era no trânsito entre esses espaços que estavam sujeitos a formularem essa subjetividade criativa e livre a partir de uma realidade recortada, fragmenta. Apesar de também estarem sendo aprimorados como consumidores ao olharem algum cartaz ou vitrine nestes caminhos, Crary nos faz refletir sobre o
“muito do que parece constituir um domínio do visual é um efeito de outro tipo de forças e relações de poder. Ao mesmo tempo visualidade pode facilmente virar em um modelo da percepção e da subjetividade que é cortada a partir de noções mais ricas e historicamente determinadas de ‘personificação’, em que um sujeito personificado é tanto a localização das operações do poder e do potencial de resistência” (CRARY, 2001, pg. 3).
Sendo assim, mesmo no projeto ideal dos meios de confinamento, especialmente a fábrica (concentrar, distribuir no espaço, ordenar no tempo, compor no espaço-‐tempo uma força produtiva) como Deleuze assinala, estava também imbricada na modernidade o potencial de resistência no modelo de percepção e de subjetividade possibilitado pelo processo de modernização e racionalização dessa subjetividade. Na própria fragmentação do mundo fenomenal que Singer apontou e no interior de uma sociedade disciplinar, a visão assume um duplo mecanismo conforme afirma Crary, como sendo o “único estrato do corpo que pode ser capturado, conformado ou controlado por uma variedade de técnicas externas”, mas ao mesmo tempo “é a única
parte do corpo capaz de escapar a uma captura institucional e inventar novas formas, emoções e intensidades” (CRARY, op. cit.).
Outro fator que influenciou decisivamente nessa mudança de percepção, foram as grandes mudanças de natureza tecnológica que desde o início do século XIX já se faziam presentes, e mais especificamente as relacionadas com as imagens, que com o aparecimento de certos instrumentos ópticos que contribuíram para uma ruptura da própria noção de subjetividade e da ideia de visão ou percepção, forçando a se reconsiderar o que significava realismo, assim como a disseminação da fotografia e o novo modelo de representação visual com o impressionismo de Manet e que determinam o aparecimento da figura denominada por Crary do observador, aquele “que olha para”, diferenciado do espectador de conotação mais passiva, aquele que assiste (CRARY, 1992, p.2-‐6).
É neste cenário que o cinema instalou-‐se e atingiu o homem forjado pela modernidade que é instigado a se adaptar continuamente a esse novo paradigma de percepção, onde “a visão e seus efeitos são sempre inseparáveis das possibilidades do objeto observado que é o produto histórico e o local de certas práticas, técnicas, instituições e procedimentos de subjetivação”, o que a determina (a visão) é “o funcionamento da montagem coletiva de partes discrepantes em uma única superfície social” (CRARY, 1992, p.2-‐6). O cinema começou a dispor toda uma gama de novas possibilidades perceptivas, disponibilizando mundos na tela ao seu espectador. Então, desde esse momento este espectador historicamente definido, aquele “que dispõe de certos dispositivos de imagens”, como nos coloca Aumont (AUMONT, 2007, pgs. 197), estava suscetível a estabelecer relações epistemológicas com as imagens que acessava. Exercer sua capacidade em perceber e formular um senso crítico a partir daquilo que lhe é mostrado começava ser posta à prova, é o impasse que se estabelecia dessa vivência. Assim como o espectador, o cinema é “uma construção histórica, relativa, dependente das forças econômicas e dos desafios ideológicos tanto quanto das performances tecnológicas” (COMOLLI, 2008, pg. 12), e assim é então instaurado um pacto entre estas duas construções, o espectador e o cinema, uma via de mão dupla onde começam a transitar representações de todas as espécies, um grande espelho de duas faces.
Portanto podemos sugerir que a questão do found footage que atualmente assistimos, estava embrionada desde o surgimento do cinema. Ao fazermos um paralelo
com as ideias de Crary sobre as mudanças de percepção, a ruptura da noção de subjetividade e a do que era realismo, podemos perceber que desde aí já podemos identificar toda a grande temática do found footage, polarizada na relação entre a imagem cinematográfica e seu espectador, que esta prática revê e transforma-‐a em um desvio de seu sentido, na procura de estabelecer novas conexões.
1.5. Vanguardas históricas, cinema de atrações e found footage
Fator decisivo que já mencionamos como traço originário do found footage é a sua inteira ressonância com as práticas das vanguardas históricas do início do século XX que refletiam todas as mudanças na experiência subjetiva promovidas no novo cenário da modernidade. A profunda transformação social assistida influenciou diretamente o campo da arte, onde as noções de descontinuidade, de fragmentação, ou seja, de recortar o ambiente foram inscritas diretamente nas obras da época. Uma nova relação com os objetos, com as coisas que circulavam foi estabelecida, mudando as maneiras do fazer. Isto já era detectado mesmo antes do período das vanguardas, como podemos atestar nos textos de Francesco De Sanctis de 1858, citados por Micheli: “a forma não é uma ideia, mas uma coisa; portanto, o poeta tem diante de si coisas e não ideias”, e ao mesmo tempo “a coisa não devia ser considerada isolada” [...] “a coisa vive no espaço e no tempo, que formam a sua atmosfera, haurindo modo e cor deste ou daquele século, desta ou daquela sociedade” (De Sanctis, 1940, pgs 239-‐244 apud MICHELI, 2004, pg 9-‐10). Somamos a isso o que Micheli comenta sobre as vanguardas, de que não devem ser explicadas somente como uma ruptura estética, mas que sua essência também refletia a concepção revolucionária forjada durante o século XIX pelas ideias liberais, anarquistas e socialistas que fomentaram as revoluções da Primavera dos Povos de 1848 e que assim organizaram o pensamento filosófico, político, literário, a produção artística e a ação dos intelectuais, tornando “a realidade histórica o conteúdo da obra através da força criadora do artista” e assim “determinava a fisionomia da obra, a sua forma” (MICHELI, 2004, pgs. 5-‐9).