CAPÍTULO 1 – O lugar do found footage no cinema 16
1.8. Cinema de avant-‐garde e found footage 58
Nestes dois estudos relacionados, apesar de proporem categorias específicas quanto aos procedimentos de reutilização de imagens, podemos perceber abordagens inteiramente distintas. Wees elaborou um modelo onde é reconhecível uma
preocupação primordial em estabelecer a função crítica e política do found footage em sua categoria na colagem e demonstra ser este seu maior enfoque, mas ao mesmo tempo mantém a tradição de Leyda em contemplar todo um espectro de imagens, abarca nas demais categorias (compilação e apropriação) às outras formas de reemprego e parece tencioná-‐las a partir de seu próprio modelo e não a partir das imagens como ele próprio expõe.
Brenez por sua vez, partindo do conceito do remploi, buscou em sua extensiva tipologia para o found footage, centrar-‐se nas particularidades da elaboração das formas que se revelam como atos reflexivos em relação ao próprio cinema, o que não nega intrinsecamente um posicionamento político e estético que é justificado por seu recorte mais preciso em relacionar found footage com o cinema avant-‐garde, atualizando de certa maneira os princípios das vanguardas históricas, pois “seu trabalho crítico consiste em efetuar o desenvolvimento das formas, práticas e teorias, da recusada da dominação e do ajustamento à ordem estabelecida”, pois para ela “a arte é um vasto laboratório do senso, sua vanguarda se encarrega de renovar os protocolos” e que o cinema “experimental implica o campo, o local de um questionamento crítico do mundo em geral, a experiência nos sentidos político, etnológico, antropológico e metafísico” (BRENEZ, 2006, pg. 11).
O mesmo pode ser percebido em Wees, que apesar de sua categorização ser bem mais ampla e abranger tipos de filmes que Brenez nem mesmo considera como found footage (filmes de compilação para ele, filmes de montagem e metadocumentário para ela), Wees reconhece que são os filmes de colagem que podem ser mais criativos e críticos. Da mesma forma encontramos em outros autores que não demonstram muita preocupação com essas categorias, como Russell e Danks, mas que reconhecem que é no cinema avant-‐garde que reside as formas de found footage mais instigantes e os trabalhos mais importantes. Ou ainda como Peter Tscherkassky o percebe:
[...] alguém pode dizer que o filme de vanguarda não é um “gênero”, mas uma subdivisão cinematográfica essencial no mesmo nível que o documentário, a animação e o cinema narrativo. Em cada um destes campos é possível identificar diferentes gêneros, com base nas características comuns de estilo, conteúdo, estética e assim por diante. Assim, de acordo com essas divisões,
found footage representa um gênero na categoria geral do cinema vanguarda
(TSCHERKASSKY, 2000).
Portanto, apesar de verificarmos que ainda há um problema de designação mais uniforme do que se entende por found footage, em todas as referências coletas é recorrente o reconhecimento de que é no campo do cinema de avant-‐garde que esse found footage “generalizado” que contempla quase todas maneiras de reemprego, senão todas (Beauvais), é mais profícuo. Se existe este consenso de que o traço mais marcante é o de problematizar as imagens que vemos enquanto imagens, então não tem sentido querer misturar ou considerar sob um mesmo rótulo práticas tão diferenciadas. Para nossa pesquisa a noção de remploi adequada ao found footage em Brenez é a melhor abordagem, ela considera e reconhece a variedade neste universo das imagens e localiza no cinema experimental o espaço para essa discussão: “uma imagem no cinema de vanguarda é algo irredutível a uma concepção, é a exploração de todas as concepções possíveis, que não preexiste à exploração em si” (BRENEZ, 2006). A designação da cinematografia found footage foi construída e instituída por esses representantes do cinema experimental, que em seus agenciamentos buscam a intervenção através do objeto artístico, o que é perfeitamente coerente, pois se trata de uma concepção típica do regime estético das artes. Como Rancière afirma, “a noção de vanguarda define o tipo de tema que convém à visão modernista e própria a conectar, segundo essa visão, o estético e o político”, ele refere-‐se ao movimento das vanguardas histórias do século XX, e quer queira ou não, mesmo para aqueles que afirmam seu fracasso, suas ideias se alastraram e continuam a influenciar diretamente as práticas artísticas, o que negativa esse dito fracasso. Rancière ainda procede uma importante distinção entre duas ideias de vanguarda, aquela que está ligada a uma “subjetividade política a uma determinada forma -‐ do partido, do destacamento avançado extraindo sua capacidade dirigente de sua capacidade para ler e interpretar os signos da história”, da “novidade artística”, e outra, a qual acreditamos, como aquela “que se enraíza na antecipação estética do futuro”, “da invenção de formas sensíveis e dos limites materiais de uma vida por vir" (RANCIÈRE, 2005, pgs. 43-‐44). É essa noção que encontramos nos filmes found footage, essa busca de encontrar novos sentidos naquilo que foi eleito ou naquilo que foi preterido e desta maneira, ao mesmo tempo em que um único realizador intervém através de um novo filme, pois em quase sua totalidade esses filmes são realizados individualmente, ocorre uma redistribuição de novos significados que cria uma rede de conexões dos trabalhos, das reflexões e dos gostos estéticos que circulam no cinema.
Foi do levantamento dessas informações em diversos campos de estudos, pulverizadas e por vezes incongruentes, que isolamos os aspectos gerais que norteiam esta pesquisa, o fragmento enquanto objeto recolhido a ser trabalhado e reintroduzido nesse espaço onde o choque desses heterogêneos promovem novas formulações, e o papel do cinema avant-‐garde ou experimental como locus natural para este tipo de pesquisa, como diz Brenez,
“o que define o cinema experimental quer sejam preocupações políticas, científicas ou estéticas, são um certo número de valores: liberdade de pensamento, consciência crítica, portanto, intelectual, econômica, independência política, e um modo independente de existência” (Brenez, 2006)17.
É neste laboratório que o found footage experiencia novas formas estéticas, e ao mesmo tempo é a cinematografia que acessa o conteúdo “exterior”, que mesmo por desvio, firma um contato através de reflexões sobre o mundo das imagens.