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CAPÍTULO 3 OS CAMINHOS DA PESQUISA

3.4 A turma 1102 /1202 e a sala de aula

O trabalho de observação sobre a prática da professora começa em 2018, na turma 1102, através dos registros da prática fornecidos por ela e prossegue com a observação direta no campo no ano de 2019, com a mesma professora, na turma 1202. A professora privilegia acompanhar suas turmas até o 3º ano, concluindo assim o ciclo de alfabetização das crianças.

Em 2018, a turma contava com 29 alunos, 14 meninas e 15 meninos, sendo que dois alunos são novos na escola e um aluno cadeirante, que não consta como aluno incluído. No ano de 2019, a turma é composta por 30 alunos e somente dois alunos são novos na escola. A maioria das crianças já estudava na escola, desde a Educação Infantil. Todas as crianças têm entre seis e oito anos de idade completos. Os alunos da escola são oriundos não só da comunidade dos Pinheiros, mas também da Baixa do Sapateiro, Timbau e comunidades próximas.

Os alunos da turma têm um bom relacionamento entre si e com a professora. As crianças respeitam os combinados estabelecidos, muitas vezes lembram os colegas quando algum deles se esquece de cumprir alguns desses combinados. Quando há algum problema, a professora conversa com a turma sobre o fato ocorrido e todas as crianças participam das decisões tomadas. De um modo geral, as crianças são participativas, expõem suas ideias sobre os assuntos tratados, argumentam e durante as aulas demonstram curiosidade em aprender.

O grupo de alunos permanece o mesmo desde o 1º ano e segue no 2º ano, com a entrada de dois alunos novos, como falado anteriormente. Estes logo são adaptados à rotina de atividades em grupo, já que, para a professora, esse tipo de metodologia favorece o trabalho com a alfabetização, como relata em sua entrevista: “O trabalho com grupos facilita para que os alunos se sintam mais unidos e percebam que aprendem a cada dia com a troca que tem em sala de aula uns com os outros”.

Os alunos inseridos na turma são acolhidos pelos colegas que também auxiliam nessa adaptação, ajudando e orientando na apresentação das atividades, empréstimos de livros para leitura e muita conversa sobre os assuntos trabalhados. Os momentos de sala de aula alternam entre situações de trabalho com a fala e a escrita coletivas e individuais. Como podemos ver na situação abaixo da aula do dia 06/09/18, em que a professora está desenvolvendo um

trabalho com a turma sobre os animais do Pantanal. Em um dos grupos da turma, a professora faz uma intervenção para ajudar a análise linguística das palavras que estão sendo estudadas.

P: - Esse grupo aqui só pegou animais que podem ficar na água e na mata também. Alguns, só na água como o dourado e a piranha. Agora o jacaré e a sucuri, eles oscilam, ora eles podem ficar na água, ora eles podem ficar na mata. Vamos ler agora sobre o segundo animal.

Cr: - P (Criança lê a primeira letra da palavra.) P: - Mas tem o /i/ também.

Cr: - /Pi/

P: - E aqui? (Professora aponta para o pedaço /ra/.) Cr: - /Ra/. (Aluno fala.)

P: - /ran/ (A professora fala e os alunos ficam em silêncio. E logo depois a professora aponta para o pedaço final /nha/.)

Cr: - Aranha?

P: - Não é aranha, não começou com /a/. Começou com que letra?

Cr: - Piranha.

P: - Então, vamos ler.

Cr: - PI-RA-NHA (Nesse momento todos do grupo leem a palavra.)

Cr: - A piranha fica na mata?

P: - Não falei isso. (Fala a professora, como se o aluno não tivesse prestado atenção.)

Cr: - A piranha fica na água (Disse outro aluno.) Cr - Porque ela é peixe (Disse outra aluna.) P:- Agora aqui vamos de novo.

Cr: - Ba-le-i-a.

P: - Qual é o animal? (Aluno olha para cima, como se estivesse pensando.)

P: - Baleia, isso. Tem baleia no pantanal, gente? Cr: - Não!

P: - Por que que não?

Cr: - Não. A baleia vive no rio. (Respondeu um aluno.) P: - Baleia vive no rio? (Indagou a professora.)

Cr: - Não, na praia. (Falou um aluno.)

Cr: - Não é na praia, né, é no mar. Baleia é um bicho grande, vive no mar.

P: - Isso. Tem mar no pantanal gente? Cr: - Nãoooooo!!!!

P: - Então baleia não entra.

A professora conduz as atividades em grupo sempre no sentido da autonomia do grupo. Eles tentam resolver todos os dilemas que surgem através do diálogo, das informações anteriores que já possuem e com o auxílio da professora. A maioria dos trabalhos em grupo são apresentados para os colegas da turma e às vezes eles apresentam nas outras salas dos outros anos.

Na interação da sala de aula, as experiências individuais e coletivas se integram às experiências escolares. As crianças refletem sobre a língua em situações de interação comunicativa planejadas, falam sobre os conhecimentos trazidos de suas experiências e elaborados nos espaços da sala. Colocam suas opiniões sobre o funcionamento da língua. É nesse movimento que eles apontam “para a professora o seu modo de perceber e relacionar com o mundo” (SMOLKA, 2008, p. 43). Através desse caminho em que as crianças agem de formas variadas e com diferentes objetivos sobre e com a língua escrita, formam-se os sujeitos escreventes, pois:

o texto não é um puro produto, nem um simples artefato pronto; ele é um processo2 e pode ser visto como um evento comunicativo sempre emergente. Assim, não sendo produto acabado e objetivo, nem depósito de informações, mas um evento ou um ato enunciativo, o texto acha-se em permanente elaboração ao longo de sua história e das diversas recepções pelos diversos leitores (MARCUSCHI, 2008, p. 242).

O espaço da sala de aula é amplo e a professora Simone trabalha nos dois turnos na mesma sala, que está organizada da seguinte forma: no fundo, há um armário com prateleiras em que ficam o material de apoio da professora e os cadernos e apostilas dos alunos; dois armários pequenos, na altura das crianças, cuja parte de cima a professora usa para organizar os livros de uso coletivo dos alunos. Esses livros são organizados com aparadores sobre a bancada dos armários, criando assim um espaço de consulta permanente na sala, onde eles têm acesso livre para pegar ler, manusear e levar emprestado para casa.

Além dessa disposição dos livros, a professora organiza caixas com livros que são colocadas em cima de outro armário, que fica no fundo da sala, e que são usadas no momento de empréstimos para os alunos. Há um mural grande no fundo da sala e outro mural do lado direito. Nesses murais são colocadas as produções das crianças ou algum material de apoio para os alunos, tal como uma poesia, uma imagem, os números, o alfabeto, um texto coletivo, ou seja, alguma informação pertinente ao trabalho realizado com a turma.

Fonte: Acervo da pesquisadora

Há também um esqueleto humano articulado, um mapa-múndi e um globo terrestre (este fica em cima da mesa da professora). O fundo da sala também é o espaço diário em que as crianças se sentam em roda para ouvir, ler histórias, contadas ou não pela professora, um espaço coletivo em que elas também se sentam para fazer seus lanches.

Figura 6: Foto de crianças lendo

Entrando na sala, na lateral esquerda há três janelas grandes de persianas que dão vista para a rua da escola, um quadro grande na frente da sala, que ocupa toda a extensão da parede e que é dividido em três partes: dois quadros brancos, que servem para projeções e escrita e um quadro verde de giz. Há um aparelho de datashow, que serve de apoio para a professora projetar alguma aula ou um vídeo específico para a turma; um alfabeto com tipos de letra diferentes na parede e a lista dos nomes dos alunos.

Há mesas individuais com cadeiras para todos os alunos e uma mesa adaptável para o aluno cadeirante. Essas mesas estão organizadas em grupo de seis ou de quatro. Esta disposição não é fixa e, às vezes, é reorganizada de acordo com a atividade a ser desenvolvida. Nos dias em que a professora distribui livros para as crianças, organiza as crianças em trios ou em duplas. Quando utiliza o aparelho de datashow na sala, organiza as mesas em forma de semicírculo, de forma que todas as crianças consigam ver melhor o que está sendo projetado na parede. Em dias de avaliação, a disposição dos alunos é em fileiras, um dos poucos dias em que as crianças se sentam individualmente. Portanto, a disposição das mesas depende do trabalho sugerido pela professora que, na maioria das vezes, prima por trabalhos coletivos.

Na sala ainda há dois ventiladores de teto e um aparelho de ar condicionado, cujo uso é prejudicado devido ao problema de suporte de energia.

Cada criança possui os seguintes materiais: uma pasta de plástico para colocar os livros de empréstimo, materiais de uso pessoal; um caderno de atividades de aula e outro de deveres de casa; caderno de produção de textos; apostila de Matemática; de Português e apostila de Produção de Textos. Esses materiais são fornecidos pela Secretaria Municipal de Educação para os alunos. As pastas de plástico para colocar os livros de empréstimo e materiais de uso pessoal são providenciados pelos responsáveis.

Percebi, no trabalho de campo, que a organização da sala vai sendo construída pela professora com os alunos ao longo do trabalho desenvolvido pela turma. Cada mural expõe as atividades realizadas pelos próprios alunos junto com a professora, todas voltadas a um objetivo que é contribuir para o processo de alfabetização deles.

A organização pensada e efetivada do espaço da sala de aula e a maneira como a se relaciona com sua turma, evidencia a perspectiva de trabalho que a professora sustenta.

Simone organiza sua sala com o objetivo de favorecer a funcionalidade desse espaço na promoção do processo do ensino da leitura e da escrita.

Ao descrever esse espaço, percebemos um cuidado com a disposição dos materiais e a organização que visa mobilizar os alunos a uma interação e um sentimento de pertencimento para as atividades. A disposição dos livros ao alcance das crianças, os murais que se destinam as produções feitas coletivamente, no decorrer das aulas, os espaços flexíveis e versáteis, favorecem a criação de novos saberes e novas experiências. Uma rotina escolar desafiadora, rica em possibilidades autônomas para a escolha e o manuseio de materiais diversos que proporciona maior interação dos alunos com a sua cultura e amplia as interações sociais entre as crianças e entre elas e a professora.

Goulart (2014) defende uma concepção de alfabetização como processo discursivo, na qual a criança aprende na interação com o outro, pela mediação da linguagem. O processo de apropriação da escrita não pode ser considerado como regular e homogêneo, visto que a diversidade é parte constitutiva desse processo, pois o que cada criança percebe como relevante e significativo não é sempre a mesma coisa para todos.

Nessa sala de aula, as relações de ensino estão centradas no convívio dos alunos com os mais diversos gêneros discursivos (textos informativos, histórias infantis, reportagem, músicas). Esses textos vão sendo utilizados como uma das ferramentas para o ensino da escrita e contribuem para a inserção dos alunos em práticas sociais de leitura e de escrita. O espaço organizado é pensado para o olhar curioso da criança. Os alunos aprendem a escrever conversando, pensando, expondo suas ideias, discordando, concordando, ouvindo músicas, histórias e escrevendo.

Há compreensão de que é possível trabalhar com crianças pequenas sem deixar de considerá-las, conciliar momentos de aprendizagem ouvindo e dando importância as situações de oralidades que se concretiza na sala de aula através das conversas entre os alunos nos trabalhos de grupo e com a interação constante da professora em um espaço organizado para a acessibilidade do saber e do conhecer ávido dos alunos. Demonstrar que a criança é capaz de produzir textos, mesmo antes de saber ler e escrever implica considerar o papel das interações entre os sujeitos, tendo a escrita como forma de linguagem que promove essa interação.