CAPÍTULO III – ANÁLISE DOS DADOS E DISCUSSÃO DOS
3.2 O material didático pós-mudança da prova: o material “novo”
3.2.1 As “unidades-estilo” Unicamp
3.2.1.2 A Unidade 23
Da mesma forma que na Unidade 22, analisada na subseção anterior, a Unidade 23 apresenta três propostas de redação. O Texto 1 tem como proposta de escrita uma carta de leitor a um jornal em resposta a uma publicação de uma charge que critica o nepotismo, conforme exibido abaixo na Figura 9.
Figura 9 – Enunciado e texto-fonte da proposta de Texto 1 da Unidade 23
A interlocução se daria entre o enunciador, um leitor habitual do jornal que escreve a carta, e os interlocutores, editores do jornal e outros leitores da seção. Assim, o aluno deveria respeitar e demonstrar em seu texto que entende sobre diferentes níveis de formalidade. O gênero charge, tradicional em exames vestibulares4 e materiais didáticos, foi selecionado como texto-fonte, provendo
insumos para leitura e reflexão, bem como intertextualidade adequados. Como propósito, o aluno deveria elogiar a crítica feita pelo autor da charge e sugerir ao menos uma medida para acabar com o nepotismo. Pesa a falta de um texto que ofereça exemplos e dados sobre o nepotismo.
No enunciado da Figura 9 lemos uma breve definição de nepotismo: “favorecimento de parentes ou amigos próximos em detrimento de pessoas mais qualificadas, especialmente no que diz respeito à nomeação ou elevação de cargos”. Já na charge vemos uma criança apresentando-se como assessora ao abrir a porta de um gabinete parlamentar.
4 Na prova de redação da Unicamp, a charge foi usada apenas quando ainda existia coletânea, sendo
O aluno precisaria de mais informações e dados para cumprir bem o propósito, uma vez que no enunciado temos uma definição (o que é o problema) e, na charge, como ele se manifesta. Não temos outros textos mencionando porque isso acontece e quais são as consequências sociais desse favorecimento. Assim, seria difícil que o aluno conseguisse explicar a crítica de forma embasada e propor soluções sem ter exemplos, por exemplo, de outros países que combatem esse problema. Também ficaria difícil avaliar a leitura, sendo que a leitura da charge em si trouxe pouco a ser discutido.
O Texto 2 solicita a produção de um relato pessoal de experiência familiar do aluno e é possível inferir que tal texto seria lido em uma reunião familiar, como vemos na Figura 10 a seguir.
Figura 10 – Enunciado da proposta de Texto 2 da Unidade 23
A interlocução se daria entre o aluno como enunciador e parte da família a quem vai se dirigir aos outros membros da família como interlocutores, sugerindo que a linguagem a ser utilizada fosse marcada por informalidade devido à intimidade entre os participantes. Como gênero a ser desenvolvido, a proposta solicita “o relato pessoal”. A prática de escrever um relato para posteriormente lê-lo poderia ser considerada pouco comum, sendo relato pessoal um gênero mais inserido na esfera individual do que acadêmico-escolar. Talvez seja uma atividade adequada para uma atividade de escrita em sala de aula, mas não de preparação para vestibular. A proposta apresenta três textos-fonte, todas citações literárias sobre facetas da memória, sendo o primeiro sobre a relação sinestésica e a efemeridade do tempo cronológico, o segundo sobre o encontro com memórias e o terceiro sobre a construção de personalidade a partir de memórias coletivas.
Quanto ao propósito, o aluno deveria narrar um episódio importante da experiência familiar, explicando sua relevância e ressaltando o papel da memória como constitutiva da personalidade. De fato, os textos-fonte selecionados poderiam auxiliar o aluno a refletir sobre a importância da memória coletiva e afetiva como parte constitutiva da personalidade. Embora no enunciado seja sugerido que se use os textos-fonte para ajudar a “refletir sobre o seu relato e construí-lo”, não nos parece que a leitura dos textos-fonte motivaria o aluno a escrever o tipo de relato solicitado, sendo que os textos-fonte escolhidos abordam aspectos conceituais preterindo textos que ativariam a memória afetiva dos alunos.
Para o Texto 3 foram escolhidos dois textos-fonte: um gráfico e uma publicação de pesquisa em jornal de grande circulação sobre as classes sociais brasileiras para que um jornalista escrevesse um texto de apresentação de gráfico, de acordo com a Figura 11 abaixo.
Na proposta da Figura 11 fica claro que o enunciador é um jornalista escalado para escrever o texto, mas não fica claro quem são os interlocutores. Tal proposta pode ser questionável, a começar pela escolha do gênero a ser escrito pelo aluno. O “texto de apresentação de gráfico” no enunciado da proposta não determina se o texto a ser escrito é oral ou escrito, isto é, se a apresentação se dará oralmente em uma reunião com colegas de emissora, se será feita para leitores de um jornal ou revista. Esses fatores influenciam a interlocução, escolha de marcadores de interlocução, formalidade e linguagem.
Na Figura 11, vemos que os autores do material didático apresentam dois tipos textuais como textos-fonte: um gráfico e um texto de apresentação de gráfico. Na leitura e análise do texto sugerida há um desencontro com a proposta da Unicamp, cuja prova de redação avalia a qualidade da leitura. A proposta do material didático sugere a leitura, entretanto apresenta um texto-fonte explicativo que trata da metodologia empregada na pesquisa e não apresenta dados a serem utilizados como insumo de reflexão e auxílio na análise. Consequentemente, o aluno direcionaria-se para o gráfico, cujos dados tratam de uma linha do tempo política e “evolução” (lê-se crescimento) das classes sociais brasileiras. Com tais dados, o aluno não poderia analisar o quadro de forma adequada, pois são apresentados apenas porcentagens e aumento ou diminuição da população em cada classe. Já em relação às definições de classe, o texto-fonte poderia auxiliar o aluno em sua análise. Para alinhar essa proposta com a da redação da Unicamp, os autores poderiam ter usado a metodologia inovadora da pesquisa como parte do propósito na apresentação do gráfico, além de determinar os interlocutores e um gênero mais específico.