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CAPÍTULO II – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Efeito retroativo

2.1.2 Efeito retroativo em materiais didáticos

A maioria dos estudos sobre o efeito retroativo, como vimos previamente, consideram os efeitos dos exames nas práticas de ensino do professor e nas suas percepções. Não encontramos, entretanto, estudos em contexto brasileiro sobre os efeitos nos materiais didáticos. Em nível internacional, por outro lado, os estudos sobre os efeitos em materiais didáticos tratam, geralmente, de materiais preparatórios para o TOEFL, TOEIC e outros exames de proficiência em língua estrangeira.

Em seu estudo sobre o impacto do TOEFL, Bailey (1999) mostra que os materiais de preparação para esse exame são numerosos – tão numerosos que, segundo Pierce (1992, p. 687), esses materiais seriam uma evidência indireta de efeito retroativo, já que existe uma indústria “vibrante” envolvida na preparação de tais materiais para esse teste. Para Bailey (1999, p. 30), as editoras acabam por se envolver com efeito retroativo por três processos relacionados, mas distintos. Existem as editoras que produzem ou publicam testes, as que produzem livros didáticos de disciplinas que podem influenciar ou ser influenciadas pelos testes e, finalmente, as editoras que publicam materiais didáticos feitos claramente como materiais preparatórios para testes. No Brasil, há testes de alta relevância nacionais, como por exemplo, a Provinha Brasil, o ENEM, e o ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), além dos chamados concursos públicos. Existem também instituições como a FUVEST (Fundação Universitária para o Vestibular), a Comvest e a Vunesp (Fundação para os Vestibulares da Universidade Estadual Paulista), responsáveis pela elaboração de exames vestibulares, Apesar de não produzirem material preparatório, elaboram manuais, cadernos de respostas esperadas e questões comentadas, que podem potencializar efeitos retroativos positivos, mas são materiais produzidos para que os envolvidos no processo de avaliação tenham informações sobre as provas. Já materiais preparatórios poderiam ajudar o aluno/candidato a ter

um bom desempenho na prova e, em tese, desenvolveriam as habilidades avaliadas na prova.

A produção de livros e recursos didáticos faz parte do que Ingulsrud (1994) chama de “indústria de preparação para testes” e, como vimos, essa indústria é “vibrante” (PIERCE, 1992). É descrita também por Hilke & Wadden (1996) como um negócio que produz grandes quantidades de materiais como guias, seminários, palestras e sample tests (simulados) no mundo todo.

Em sua pesquisa sobre o impacto de um exame nacional de inglês no Sri Lanka, Alderson & Wall (1993) concluíram que havia uma retroalimentação no processo, já que novos livros didáticos foram adotados e o exame pretendia reforçar o livro didático. Nesse mesmo estudo, os autores concluíram que os professores não entendiam a filosofia ou a abordagem que embasava os livros, igualmente, desconheciam a natureza do novo exame. Finalmente, notou-se que os professores baseavam suas aulas nos livros didáticos, de modo que eles relataram que “acreditavam que tinham que seguir fielmente o livro porque o exame poderia avaliar qualquer um dos conteúdos incluídos no livro” (ALDERSON & WALL, 1993, p. 63).

Lam (1993) investigou a percepção de professores sobre as mudanças do exame RUE17 (Revised Use of English) em Honk Kong. O objetivo dele era entender

se era possível que a mudança no exame fosse “influenciar como os professores ensinam, isto é, a metodologia e métodos que eles usam para preparar os alunos para os exames públicos” (LAM, ibid., p. 88). Para isso, propôs um questionário para 33 professores, que ensinavam tanto para o exame antigo quanto para o novo, e 28 professores, que haviam apenas ensinado para o novo exame. Os professores que trabalharam com os dois tipos de currículo pareceram muito mais orientados pelo exame do que os outros. Lam, fazendo coro a outros pesquisadores, alerta para a natureza não determinística do fenômeno, pois apenas a alteração no exame não seria suficiente para provocar mudanças, segundo a autora: “o desafio é mudar a cultura de educar, abrir os olhos dos professores às possibilidades de explorar o exame e atingir metas de educação positivas e dignas” (LAM, ibid., p. 96).

Lam ainda aponta que, em contextos de mudança ou implementação de um novo exame, esse efeito seria mais perceptível e possivelmente importante.

17 O teste RUE (Revised Use of English) é um teste de proficiência sem ligação com programas

específicos ou materiais, cujo objetivo era promover as habilidades de língua inglesa para nivelar com o ensino superior e o mercado de trabalho (LAM, 1994 apud BAILEY, 1999).

Relata, ainda, em seu estudo realizado em Hong Kong, que a metodologia de ensino que depende de livros didáticos ainda é muito significativa. Segundo a autora, cerca de 50% dos professores, aparentemente, seriam “escravos do material didático”. No contexto de Hong Kong, Lam relata que os professores não são nativos e procurariam nos livros a confiança que lhes falta no preparo dos alunos para o exame RUE.

Fullilove (1992 apud BAILEY, 1999, p. 139) também afirma que muitos materiais projetados para preparar alunos para um exame público não passariam de “meros clones de exames passados”. Uma consequência do uso desses materiais seria a memorização (ou “decoreba”) dos exercícios do livro em vez de realmente propor soluções para questões similares.

De forma similar, tal “escravidão” também ocorre no contexto brasileiro, conforme descrição de Soares (2002). Houve, segundo a autora, na metade do século XX, uma mudança nos manuais didáticos que passaram a incluir atividades. Dessa forma, autores de materiais assumiram a responsabilidade de formular exercícios e questões de vocabulário, interpretação de textos, gramática e, finalmente, de redação. Consequentemente, professores passaram a esperar que os materiais apresentassem tais funções, mesmo porque o recrutamento maior e menos exigente de professores dado pelo aumento vertiginoso do alunado e conseguinte início da desvalorização do magistério, dos salários e das condições de trabalho fez com que professores procurassem elementos facilitadores. Assim, a tarefa de preparar aulas e exercícios foi transferida para os livros didáticos. O livro didático garantiria, mesmo que minimamente, certa qualidade e que conteúdos básicos fossem abordados. Desse modo, o livro didático foi e continua sendo relevante educacionalmente, e seu uso tem sido objeto de muitas pesquisas em Linguística Aplicada.

No contexto brasileiro, alegações de efeito retroativo em materiais didáticos têm sido mais frequentes. Um exemplo é Pereira (2017), que citou, em sua fala no congresso da Associação Internacional de Linguística Aplicada (AILA) 2017, a criação do site <https://www.infoenem.com.br/> como efeito retroativo direto da prova do ENEM. O site apresenta artigos, oferece cursos de redação e apostilas preparatórias. A partir de 2009, quando a nota do exame passou a ser usada como entrada para universidades, surgiram apostilas, cursinhos preparatórios e sites especializados no exame. Para a pesquisadora, “o lado mercadológico pesa mais para os idealizadores do que o lado didático-pedagógico devido à preocupação com a audiência do site.”

Em sequência, será tratado na próxima seção conceitos envolvendo a noção de gêneros presente na prova de redação do vestibular da Unicamp.