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CAPÍTULO III – ANÁLISE DOS DADOS E DISCUSSÃO DOS

3.2 O material didático pós-mudança da prova: o material “novo”

3.2.1 As “unidades-estilo” Unicamp

3.2.1.3 A Unidade 24

Do mesmo modo, a Unidade 24 apresenta três propostas de escrita. O Texto 1, conforme a Figura 12 abaixo, sugere que o enunciador seja um aluno do Ensino Médio, pois no enunciado lemos “Suponha que seu professor de Sociologia”. Como interlocutores, podemos entender que sejam os outros alunos e também o professor, mas a interlocução não está explícita.

Figura 12 – Enunciado da proposta de Texto 1 da Unidade 24

A proposta de escrita é a de um resumo, gênero marcado graficamente em negrito no enunciado da proposta, tal como na prova de redação do vestibular da Unicamp. O resumo deveria basear-se em um editorial de jornal apresentado na proposta, como podemos ver acima na Figura 12. O texto-fonte é o editorial de um jornal de circulação estadual e, portanto, adequado, na medida em que poderia oferecer subsídios para o aluno fazer o resumo e auxiliaria o aluno a fazer um resumo cumprindo também com o propósito exigido, pois apresenta dados e informações relevantes à temática da proposta.

O propósito a ser cumprido nessa proposta trata da adequação à audiência da apresentação do seminário. Apesar de ser importante para o cumprimento do propósito, já que os autores requisitam que o texto seja redigido para as pessoas que estariam presentes na apresentação, essa interlocução não fica clara. Ainda como propósito o aluno teria que relacionar o resumo à temática abordada pelo seminário a ser apresentado. É na escrita dessa tarefa que poderiam surgir dúvidas sobre o que os autores estão pedindo ao aluno: “faça um resumo do editorial do Diário Catarinense, de modo que os ouvintes tenham ciência não só de sua pesquisa, como também do tema do seminário”. O enunciado pouco claro e escrito de forma pouco precisa propicia interpretações e questionamentos que não cabem a um material que deveria auxiliar e preparar os alunos para uma prova de redação de vestibular. Além da ausência das marcas gráficas de propósito e interlocução, a inserção da “apresentação de seminário” poderia confundir o aluno. Já a esfera de comunicação

está alinhada com a prova de redação do vestibular da Unicamp, sendo que resumo é um gênero textual tradicionalmente inserido na escola, bem como na universidade.

O Texto 2 propõe a escrita do que os autores do material chamam de artigo que responde a um jornalista, cujo enunciado da proposta é apresentado a seguir na Figura 13.

Figura 13 – Enunciado da proposta de Texto 2 da Unidade 24

Essa proposta tem como interlocutores um estudante de publicidade manifestando sua opinião contrária à de um jornalista, o interlocutor, em uma postagem de blog. O enunciador é marcado em negrito no enunciado orientador dessa proposta, bem como o posicionamento do aluno. O interlocutor e o gênero a ser desenvolvido pelo aluno não são marcados em negrito como acontece na prova de redação da Unicamp. Como propósito, o aluno teria que escrever “esse texto, supondo que ele será postado no blog desse jornalista”. O enunciado escrito de forma pouco clara, faltando informações, gera uma série de complicações na interpretação da tarefa.

Como se trata de um “texto-resposta” a uma postagem em blog, o aluno poderia entender que se trata do gênero comentário de blog. Poderia também entender que o texto poderia ser postado de outra forma, como opinião, resposta ou uma outra postagem. Todavia, está implícito que deve ocorrer uma interlocução entre o estudante de publicidade e o jornalista.

Os autores chamam, por duas vezes, a postagem de blog de “artigo”, podendo confundir os alunos ou apontar uma não compreensão do conceito de gênero e da prova. Quanto ao texto-fonte escolhido, uma postagem de blog com características de artigo de opinião, fornece ao aluno a opinião a que deve se opor: a

de que publicitários usariam drogas demais na faculdade e que seriam criativos. Tais comentários deveriam ser refutados pelo aluno em seu texto e na discussão sobre a vulnerabilidade dessas opiniões expostas pelo jornalista. O aluno deveria ainda discutir com o autor sobre a vulnerabilidade no ponto de vista apresentado em seu artigo. A imposição de um posicionamento contrário ao ponto de vista traz artificialidade à proposta, além de divergir das propostas da prova de redação de Unicamp, que sempre possibilitaram a escolha.

A esfera comunicativa está adequada se considerarmos os gêneros envolvidos como comentário e postagem em blog. Consideramos assim também o posicionamento contrário do aluno a comentários ofensivos em um contexto em que ele seria parte do público que sofreu ofensa, sendo que essa seria a motivação para a produção do texto de resposta. Entretanto, o gênero a ser escrito pelo aluno não fica claro, como já discutimos. Como propósito, o aluno “escrever o texto supondo que será postado no blog do jornalista”, a nosso ver, demanda que o aluno respeite as características do que seria um comentário.

A última proposta de texto dessa unidade é a produção de uma notícia, sendo que o texto-fonte escolhido é uma matéria de jornal de grande circulação, como se vê abaixo na Figura 14.

Na proposta de Texto 3 o enunciador é um aluno do Ensino Médio que faz parte de uma comissão que publica um jornal de escola. O posicionamento do aluno está graficamente marcado, mas o do interlocutor, não. Podemos inferir que os interlocutores sejam alunos no Ensino Médio. Essa falta de clareza atrapalha também a execução do propósito.

Como propósito, temos que ao produzir essa notícia o aluno deve dar um título e subtítulo e contextualizar o fato no primeiro parágrafo. Entretanto, em uma leitura atenta do texto-fonte, entendemos que a matéria apresenta relato de um cientista e sua tentativa de uma vida mais sustentável. Não há um fato, mas um relato, quase um diário. Assim, a relação entre a leitura e a escrita fica complicada, pois o aluno pode não entender qual é o fato a ser contextualizado e quais seriam essas informações essenciais. Também não fica claro o que são as “informações essenciais”, se são características do gênero notícia (por exemplo, elementos composicionais) ou se informações essenciais do “fato” a ser contextualizado.

O texto-fonte não é adequado, embora a temática ou o porquê da escolha de tal matéria para o jornal escolar seja desconhecida. Tanto o gênero notícia quanto a interlocução e o propósito estão adequados para o público-alvo, que são alunos de Ensino Médio. Finalmente, faltam elementos nas instruções do enunciado para o aluno poder escrever e cumprir o propósito.