RB=Regula Monachorum
3. A variedade dos códices
É sabido que o original da Regra escrita por S. Bento, a que poderíamos chamar arquétipo e marcado com a sigla S desapareceu. Até nós chegaram apenas cópias posterio- res, que nem sequer ousamos classificar de apógrafos, pois nos falta o primeiro e essencial termo de comparação, por mais que o códice «Sangallensis 914» se possa reclamar da mais valia da fidelidade a um pretenso texto original.
Quanto aos códices conhecidos, deve dizer-se que o mais antigo é o Ms. Hatton 48 da Bodleian Library, Oxford, século VIII, seguido de perto, pelo menos em qualidade, pelo dito «Sangallensis 914», do século IX, embora copiado de outro mais antigo.
Adoptando os critérios de Hanslik e Neufville145, quanto à classificação dos códices, a RB pode distribuir-se em três grupos ou famílias146:
1.º. Texto puro: É aquele que se pensa reproduzir fielmente o autógrafo de S. Bento,
assinalado com a sigla Q. Deste grupo sobressai o códice Sangallensis 914, fl. 1-86, desig- nado pela letra A, verdadeiramente paradigmático e tido como o mais próximo do origi- nal (Incipit: Obsculta) e mesmo com os erros que escaparam aos copistas147. A ele pode- mos ligar o Vindobonensis 2232 (=B), o alemão de Tegernsee (=T) e o Monacense 28118 (=C), todos do século IX. A este tipo de códices, representantes da tradição «pura», pode acrescentar-se o Códice Cassinense 175 (=K), transcrito em Cápua nos começos do século X, como também os manuscritos 179 e 442 do fundo de Montecassino. Diga-se, todavia, que, nos textos comuns, a RM acompanha o texto puro, assim como também o Comentá- rio de Esmaragdo à Regra de S. Bento, sem dúvida o mais antigo comentador, em pleno período carolíngio, quando se quis privilegiar a RB e impô-la como obrigatória148.
144COLOMBÁS, Garcia M., Don; SANSEGUNDO, Don Leon; CUNILL, Odilon M., Don – San Benito, su Vida y su Regla.
Madrid: BAC, 1954.
145HANSLIK, R. – Benedicti Regula, Viena, 1960 (CSEL 75); La Règle de Saint Benoît, I, Paris: Cerf, 1972, 315-397 («Sources
Chrétiennes» 181).
146SCHMITZ, D. Philibert – O.c., 392-396.
147Adoptamos a classificação de TRAUBE, L. – Textgeschichte der Regula S. Benedicti, 2.ª Ed. Munique: H. Plenkers, 1910
(1898). Cfr. Nota 2 sobre as edições de D. Germain Morin e D. Philibert Schmitz e ainda: MEYVAERT, P. – Problems concer-
ning the «Authograph» Manuscript of Saint Benedict’s Rule. «Revue Bénédictine». 69, 1959, 3-21; MUNDÓ, A. – Corrections «anciennes» et «modernes» dans Sanctgall. 914 de la Règle de saint Benoît. «Studia Patristica». 8, 1963, 424-435; DE VOGÜÉ,
A.; NEUFVILLE, J. – La Règle de saint Benoît, 1, 320-337.
148SMARAGDE – Commentaire du Prologue à la Règle de saint Benoît. Introduction, traduction, notes et tables par Dom
2.º. Texto interpolado: A tradição deste texto, designado pela letra E (Incipit:
Ausculta), pretende mudar o texto original ou puro quer do ponto de vista literário quer do ponto de vista institucional, modificações operadas à medida das situações e exigên- cias. Nasceram, assim, as interpolações ao texto puro, as quais têm o seu mais reputado representante no Ms. Hatton 48, Bodleian Library, Oxoniensis (Oxford), indicado pela letra O, por volta do ano 700, século VIII, por sinal o mais antigo códice da Regra de S. Bento149. Pertencem igualmente a esta série o manuscrito de Verona (=V) do século
VIII e o Sangallensis 916 (=S) mais ou menos da mesma época.
3.º. Texto misto ou contaminado: Dentro desta classificação, contam-se os manus-
critos que não se podem integrar nas duas famílias precedentes e que, por isso mesmo, fazem a síntese dos dois textos. Deste modo, há quem fale dum «Textus Receptus» da Regra de S. Bento, indicado pela letra R, o qual resultaria das correcções introduzidas no texto puro ao longo dos tempos e que teve a sua origem nos tempos carolíngios. O primeiro assomo deste tipo de texto surge no Comentário à Regra de S. Bento de Paulo Diácono (†799), sendo as suas anotações registadas em nota marginal pelos dois monges que copia- ram o Sangallensis 914. É esse que vai servir de fonte ou paradigma aos manuscritos desde o século X. Na prática, foi este «textus receptus» que dominou as edições impressas150, entre
elas a edição latino-portuguesa de 1586, até que, neste século, se começaram a multiplicar as edições do «Sangallensis 914», depois da edição crítica da D. G. Morin e da escolar de D. Philibert Schmitz. Mas, esse é um texto de compromisso a que, do ponto de vista crí- tico, não há que atribuir especial valor ou interesse.
A primeira edição impressa da RB, em latim, é a de Veneza, 1489, enquanto Portugal só teria uma completa edição no ano de 1586 com texto em latim e em português, em volu- mes separados. Em Portugal, a última edição é a do Centenário da fundação do Mosteiro de Singeverga em 1992 e, no Brasil, a 3.ª edição da de João Evangelista Enout, no Rio de Janeiro, em 2003, acompanhada por mais uma em 2004 das monjas da Abadia de Santa Maria, em São Paulo. Pode, portanto, concluir-se que a Regra de S. Bento, «como árvore plantada à beira das águas» (Sl.1,3), na fidelidade aos ensinamentos do Evangelho de Jesus Cristo, desabrochou em flores e frutos, que se prolongam através dos tempos e se espalham por diversos países e regiões.
Com o título «I Fiori e i Frutti santi», organizou-se na Abadia de Monte Cassino, de 10/VII a 31/X/1998, uma notável exposição de manuscritos do século IX-XVI sobre S. Bento, a Regra, a santidade. No que se refere à Regra Beneditina, punha-se em evidência sobretudo o filão da transmissão manuscrita segundo a tradição «cassinense», de que o Sangallensis 914 ocupava o primeiro lugar.
149FARMER, H. – The Rule of St. Benedict, Oxford, Bodleian Library, Hatton 48: Early English Manuscripts in Facsimile 15,
Copenhaga, 1968.
Concluindo, a REGRA BENEDITINA é, sem dúvida, a grande afirmação de S. Bento como Mestre e Patriarca do monaquismo ocidental. Tal é, de facto, a grandeza de S. Bento, conforme canta a seguinte composição poética, que traduzimos do latim, e cuja prove- niência não conseguimos determinar151:
Quão santo fosse S. Bento, a vida o provou; Que Doutor era, a Regra escrita o ensina; Que frutos desse, toda a Igreja o declara. Embora vejas uma coorte religiosa de homens,
O Santo a faz santa; o Doutor a ensina; como Pai, o orbe Enche de virtudes, assim tantas tem Bento.
S. Bernardo tinha escrito: «Bento ensina, Bento prega». De facto, a fama de S. Bento e o valor taumatúrgico das suas relíquias é que teriam estado na origem da transferência das Relíquias de S. Bento para o Mosteiro de St. Benoîtt-sur-Loire, em Fleury, na Gália. Com efeito, é, desta forma, que o historiador Paulo Diácono, que escrevia por volta de 787, conta o facto152: «Por aqueles tempos, passados já alguns anos, como existisse uma vasta solidão no
monte Cassino, onde repousava o santo corpo do beatíssimo Bento, vieram da região da França uns Cenomanicos ou Orleanenses. Fingiram pernoitar junto do corpo, mas roubaram os ossos venerandos do mesmo venerável Padre e, igualmente, de sua irmã Escolástica, levando-os para a sua pátria, onde, separadamente, foram construídos dois mosteiros: um em honra de S. Bento e outro em honra de Santa Escolástica. Ora, para nós, é certo ali ter permanecido aquela boca venerável, mais suave que qualquer néctar, e aqueles olhos, que sempre contemplaram as coisas celestes, e também os restantes membros, mesmo desfeitos em cinza. Na realidade, só o corpo do Senhor não viu a corrupção».
151«Quam sanctus fuerit Benedictus: vita probavit;// Quam Doctor erat, Regula scripta docet;// Quos tulerit fructus, Ecclesia tota
fatetur;// Quamque vides hominum religiosa cohors// Sanctus sancta facit; Doctor docet; ut Pater orbem// Replet virtutes, tot Benedictus habet».
152«Circa haec tempora, cum in castro Cassino, ubi beatissimi Benedicti sacrum corpus requiescebat, aliquantis jam elapsis annis,
vasta solitudo existeret, venientes de Cenomannicorum vel Aurelianensium regione Franci, dum apud venerabile corpus pernoc- tare simulassent, ejusdem venerabilis Patris, pariterque ejus germanae veneranda Scholasticae, ossa auferentes, in suam patriam asportaverunt. Ubi singillatim duo monasteria in utriusque honorem beati Benedicti et sanctae Scholasticae constructa sunt. Sed certum est nobis os illud venerabile, et omni nectare suavius, et oculos semper caelestia contuentes, caetera quoque membra, quamvis in cinerem defluxa, remansisse. Solum etenim singulariter Dominicum corpus non vidit corruptionem», PAULUS WIN-
Introdução
Os historiadores beneditinos modernos situam a vida de S. Bento, natural de Núrsia (Norcia), centro da Itália, entre os anos 480-547. Por causa da Regra monástica, que lhe é atribuída, ficou conhecido como o Patriarca do Monaquismo Ocidental. Ora, a chamada «Regra de S. Bento», vinda dos confins da Idade Média, é um texto de carácter espiritual e normativo e, por isso mesmo, uma realidade histórica, que atravessou os tempos e se tor- nou norma de vida para muitos religiosos, que «verdadeiramente procuram a Deus» e nada querem «antepor ao amor de Cristo» (RB, 4,24; 72,14). S. Bento assume-se a si e ao abade dos seus mosteiros como «pai espiritual» dos monges (RB, 2,24; 33,4), sobrepondo esta noção à de «mestre» (RB, 64,8-10,13-15). S. Bento, porém, tinha consciência de que só Cristo é «Mestre», o verdadeiro Mestre da vida religiosa, de que o abade é tão-somente «vigário» (RB, 2,2). Nisto se afirma o autêntico Cristocentrismo da Regra Beneditina.
Há vários códices medievais da Regra de S. Bento, anteriores ao Ano Mil, de que a tra- dição cassinense constitui um filão de transmissão, sobretudo através do códice «Cassinense 175», dos inícios do século X; na verdade, porém, este códice já é um comentário à Regra de S. Bento e não existe o autógrafo nem um códice que possa considerar-se coetâneo de S. Bento. Hoje, pensa-se que o códice mais antigo da RB seja o Hatton 48 de Oxford, princípios do século VIII, mas o mais autorizado é o Ms. Sangallensis 914, datado dos começos do século IX (cerca de 820), cujo valor foi realçado pelo filólogo L. Traube em 1898. Para Cristina Mohrmann, grande especialista do latim cristão, tal códice põe-nos diante da própria lin-
guagem de S. Bento153e os monges escribas ter-se-iam bem dado conta da diferença que aquele latim representava em relação ao «latim normal», que eles conheciam154. Foi sobre ele que D. Germain Morin155fez a edição diplomática e crítica e, em seguida, de forma mais acessível e prática, D. Philibert Schmitz, monge beneditino do mosteiro belga de Maredsous, reproduziu, em 1946, a edição manual e quase escolar da regra de S. Bento156.
Em Portugal, onde, como na Espanha, desde os tempos dos visigodos, eram observa- das as regras de Santo Isidoro de Sevilha e de São Frutuoso de Braga, o monaquismo bene- ditino implantou-se na sequência da Reconquista cristã aos mouros, possivelmente depois do Concílio de Coyanza, (1050/55), mas a RB já era conhecida como elemento de espiri- tualidade, conforme testemunha o Testamento de Dona Mumadona em Guimarães, no ano de 959157. Sobretudo depois das Descobertas ultramarinas portuguesas do século XVI, na vigência da antiga Congregação Beneditina Portuguesa, entre 1567-1834, várias edições foram feitas da RB em latim e português. É delas que queremos fazer o levantamento, tanto quanto possível completo e exaustivo, ao mesmo tempo que lhe antepomos uma rápida visão da questão do relacionamento RB-RM.
A regra atribuída a S. Bento tornou-se, no Ocidente europeu, o principal código nor- mativo monástico e é apanágio dos beneditinos. Julgamos, pois, poder afirmar que, estu- dando a Idade Média, foi, de facto a Regra de S. Bento, que informou a vida dos monges e activou por meio deles o espírito cultural daquele tempo, as suas iniciativas artísticas e arquitectónicas. Transmitida através de vários códices mais ou menos importantes, a Regra de S. Bento, como norma disciplinar, chegou com algum atraso ao território português, certamente depois do Concílio de Coyanza em 1050 ou 1055.