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3.1 A constituição da subjetividade

3.1.2 A verdade

A verdade é um elemento que direciona as subjetividades. Direcionamento esse que é entendido não como ordens formais emitidas de uma pessoa ou instituição. Foucault o entende como operado pelas práticas de si: ações em que os sujeitos incidem sobre si mesmos e sobre os outros para atingir um formato de subjetividade. Esse processo também é chamado de governo de si, em que o governo é realizado por um processo reflexivo do sujeito sobre si em liberdade. Liberdade aqui entendida não como ações sem limites, mas um espaço de ação do sujeito que o permite adotar certa subjetividade por opção, sem que haja coerção (FOUCAULT, 2012b).

Nesse processo de governo de si, a verdade se mostra como um complexo de saberes que passa por um processo de legitimidade para se tornar válido, crível e, por sua vez, embasar regras e costumes (FOUCAULT, 2012b). Assim, a verdade não se mostra como um conhecimento fixo e universal que está para ser descoberto por alguém capacitado ou iluminado. Ela é móvel, associada a algum contexto social e construída por meio de uma massa de micro operações em que é negociada, disputada e, de maneira interativa, consolidada (FOUCAULT, 2010). Ela vai servir como uma elaboração dos

sujeitos que os fazem buscar o que aspiram ser a partir de articulações formadas por práticas sociais, incluindo as persuasivas, que induzem à formação discursiva. (DREYFUSS; RABINOW, 2014).

A verdade em si não alcança esse status de verdade de maneira linear. Ela passa por uma série de operações chamadas jogos de verdade, isto é, processos de construções sociais dessa verdade. Construção que passa ainda por operações chamadas de veridições, procedimentos que atestam que um saber é verdadeiro e não falso. Os jogos de verdade dizem respeito às práticas de tomar para si, ou defender para o outro, certas construções verdadeiras. (FOUCAULT, 2012c).

Sobre os jogos de verdade foucaultianos, Flynn (1985) comenta que a verdade pode exercer pressão ou liberar o sujeito frente ao que acredita. Diz respeito a uma ação direcionada das crenças com impacto social, sendo assim, nos termos foucaultianos, uma atividade intensamente política. Com base nisso, podemos dizer que os jogos de verdade se afastam de uma visão contemplativa dos saberes, ou ainda mesmo uma visão idealista. O que está em jogo é o rumo das ações, tendo como foco os saberes que são base para isso.

Um comentário acerca desta discussão complementa esse entendimento. Candiotto (2006) afirma que os jogos de verdade não se baseiam apenas no que é verdadeiro ou falso, mas aquilo que é apropriado ou não para o sujeito. Esta reflexão coloca o sujeito em uma posição de reconhecimento ou não de si, isto é, é feita uma triagem do que se adequa ou não à subjetividade que está em vista pelo sujeito. Assim, os jogos de verdade funcionariam como espaços com abertura a mais negociação no processo de subjetivação, possibilitando um governo de si mesmo com base mais sólida. Tal observação nos faz entender o papel dos jogos de verdade na agência e sua contribuição no caráter ativo do sujeito na teoria foucaultiana.

Os embates dos jogos da verdade discorrem sobre todo tecido social. Apesar da dispersão, é possível identificar estratégias localizadas que legitimam determinadas práticas sociais. Essa materialização deixa claro que as verdades não surgem do nada ou de alguma instância superior que tudo controla, mas das próprias relações entre os sujeitos (RABINOW, 1997). Assim, é possível enxergar regras observáveis, criadas ao longo das

trocas e negociações feitas na atividade social. É no uso cotidiano dos elementos da verdade que aparecem a persistências que dão forma a uma determinada postura ética.

A dinâmica entre verdades e subjetividade faz parte do entendimento de sujeitamento. O sujeito em Foucault não é autônomo, ele é resultado de práticas sociais e

não de uma consciência fundadora. Assim, para ser sujeito, é necessário que ocorra um sujeitamento, um modo de se relacionar a regras por meio de práticas que incidem sobre si mesmo, e que incidem e se apoiam nos outros ao seu redor. Assim, as pessoas se tornam sujeito por meio de práticas em que vão se adequar às regras do contexto social como um jogo em que negociações são feitas, sem que haja uma total submissão. Por isso, aqui, não se fala de um sujeito que se autodetermina, mas que, por meio de práticas, encontra um espaço para si diante do que está posto (FOUCAULT, 2012b; 2012c).

Nesse sentido, o sujeito dá forma a sua existência em sua condição de liberdade, mas duelando através de jogos de verdade, o qual possui certas regras e procedimentos para liberar ou se submeter às forças que o enquadram, tudo depende da maneira com que se joga. E esse sujeito só se torna possível por meio de um sujeitamento oriundo do contato com as regras e normas sociais que o rodeiam (FOUCAULT, 2012b). O sujeito, assim, vai ter condições de emergir frente aos jogos de verdade que vão guiar as forças que dão contorno a ele (FOUCAULT, 2012c).

Sobre essa discussão acerca do jogo de verdade foucaultiano, Hujier (1999) comenta que se trata de um jogo que pode culminar com a maestria de si mesmo, com o sujeito sendo o mestre de si, dentro das possibilidades sociais que estão postas. É possível imaginá-los hoje na forma se autorretratos, biografias, autobiografias e, claro, no cotidiano por meio da fala, de leitura e confissões.

Segundo Foucault (FOUCAULT, 2017), os jogos de verdade acontecem nas relações, em diversas operações, de maneira dispersa por todo o tecido social. De maneira complementar, Weir (2008) lembra da noção foucaultiana de regimes de verdade. Este sinaliza que quando esses múltiplos e soltos jogos de verdade atendem a um arranjo político maior, criando conexões, fluxos e força social, podem ser entendidos como regimes de verdade. Trata-se de um conjunto encadeado de operações de verdade que vão

ditar de maneira ampla o que é verdade e o que não é; da mesma maneira que suas apresentações, representações e relações, criando um bloco mais ou menos coeso de verdades. O entendimento de regimes de verdade permite notar o potencial de encadeamento da verdade, de existir um sentido em meio a complexa teia social. As subjetividades, assim, vão se orientar no campo de negociações de saberes orientados por determinadas diretrizes amplas.