Toninho e o amigo e parceiro Wagner Tiso nos Estados Unidos páginas seguintes – Toninho na guitarra, Naná Vasconcelos na percussão Raul de Souza no trombone, Sérgio Brandão no baixo, Edson Machado na bateria, todos no Sob’s, clube novaiorquino de jazz
Essas experiências amadureceram o profissional mineiro, levaram-no a demarcar fronteiras. Ao dizer não àquilo com que não se identificava, estava também dizendo sim às rotas pelas quais lhe interessava trafegar. Depois da experiência com Sérgio Mendes, saiu de Los Angeles – mas, antes de voltar ao Brasil, foi se encontrar com Pat Metheny.
O jazzista americano se apresentava no Greek Theatre, em Los Angeles, e convidou Toninho a esperar o final da temporada, que seria dali a duas semanas em Bear Mountain, perto de Woodstock, e ir passar três dias com ele na casa da mãe, não longe dali. Toninho foi então para Nova York, onde tinha estado apenas uma vez, em 1979, e assistido a shows de jazz no Blue Note, no Bottom Line. Chegando em Bear Mountain, encontrou o amigo tocando na frente de seu quiosque, entre árvores. Pat nem parou de tocar
e disse: Hello, Toninho!, todo satisfeito, mas debulhando o braço da guitarra, ensaiando para o show de logo mais com sua banda. Entraram no quiosque
e Toninho se lembra: Vi umas trezentas palhetas azuis espalhadas em
cima da cama e, no guarda-roupa, umas quinze camisetas azuis listradas, muito parecidas com uma que eu usava nos anos 1970. Depois desse show em Bear Mountain, ele pegou o jeep e subimos a montanha de Woodstock indo para a casa da mãe dele.* No caminho, depois de pararem para comer
num Jack in the Box, Toninho achou que o momento era propício para falar de sua vontade de estudar na Berklee. Pat teria respondido: Não vai, não,
faz o que você está fazendo que está muito bom. Lá você teria de ir como professor.* Pensei: será que ele está com medo de concorrência? ha... ha... ha! Mas somos muito amigos, nos cruzamos em turnês pelo mundo e nos falamos sempre.*
Apesar da vontade de estudar formalmente música, foram poucas as tenta- tivas nesse sentido. A primeira foi aos 17 anos, com o professor José Maria, músico excepcional, que ensinava clássico e dava aulas numa cadeira de rodas. Depois de pouco tempo de aula o professor desistiu: Não dou conta de dar
aula pra você, não, você já toca de um jeito que vai demorar tanto tempo pra conseguir que sua mão chegue no lugar que é melhor você seguir como está.* Eu comecei a tocar como o Chiquito, em vez de fazer o lá menor com quatro dedos, eu fazia com dois e aí sobrava um dedo pra cá outro pra lá pra eu mexer, as inversões minhas começaram a ter elasticidade. Usava corda solta
também, que era um jeito de abrir mais o acorde e conseguir um som de piano – meu sonho sempre foi ser pianista, mas só consegui comprar um com 24 anos. Tive também alguns meses de aula com meu primo Halle Flamarion, um dos meus ídolos, e com o professor Evandro, no Rio de Janeiro. Então eu praticamente não estudei, toco pelo dom de Deus. É claro que a vida inteira batalhei, ouvi muito, deixei de almoçar, deixei de dormir pra tocar violão. De certa maneira eu estava estudando, praticando, mas não tinha paciência pra um estudo assim, mais formal. Músicos altamente técnicos, criativos no mundo inteiro como Joe Pass, Mike Stern, Stanley Jordan (que vai muito me ver em Belo Horizonte), todos dizem que são fãs meus. No som que eu faço vai toda a minha vivência, minha pessoa, mas acho que é assim com todo mundo.* George Benson, que teve Toninho como guitarrista,
violonista e coprodutor de duas faixas do disco Songs and stories, de 2009, distingue o som que o mineiro produz do apresentado pelos melhores guitar- ristas do mundo, descrevendo-o como quente e cheio.
Apesar do conselho de Pat, que também lhe dizia para não estudar, ele insistiria e faria mais uma investida: a Julliard School.
Fazer arranjos e reger orquestras: uma paixão. Aqui Toninho rege quarteto de cordas no estúdio Sonoviso, no Rio de Janeiro, em 1980
A Julliard School é uma renomada escola de música clássica, que forma anualmente performers e maestros, localizada em Nova York. Por ela passaram nomes como Itzhak Perlman (israelense, considerado o maior violinista do século 20), Renée Fleming (famosa soprano americana), Ray Conniff (americano, marcou um estilo que frequentou alguns dos melhores bailes dos anos 1950), Nina Simone (pianista, cantora e compositora, grande nome do jazz americano), Yo-Yo Ma (francês de origem chinesa, naturalizado norte- americano, um dos maiores violoncelistas da história da música) e o trompetista Winton Marsalis.
Contrariando o que sua própria história lhe sugeria, Toninho decidiu fazer um curso de extensão na Julliard, como é popularmente conhecida a escola. Ficaria seis meses estudando e outros seis viajando, conhecendo um pouco mais da música e da cultura americanas. Prestou exames para orquestração, regência e composição. Seu sonho era ser maestro. Mas os resultados dos testes indicaram para os professores da Julliard que Toninho só poderia frequentar o curso elementar, Rudiments of music. Nossa, vou ter de começar
do zero!*, Toninho pensou. Como resolveu mesmo teimar com o assunto,
ele topou: No primeiro dia de aula, o maestro Jeffrey Langley falava This is clef, this is note, this is rest, this is stave, foi muito engraçado! Parecia que eu
estava tendo aulas de inglês! Mas no quarto mês ele já estava dando noções de harmonia. Eu era o melhor aluno, quando ia fazer ditado, eu acertava tudo. Na escrita não – por exemplo, ele pedia pra fazer uma escala de lá bemol menor melódica descendente, aí... não dava. Então foi muito bom para aprender inglês, ha... ha!!*