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Milagre dos peixes e outros sons

No documento harmonia compartilhada (páginas 73-80)

Toninho e o parceiro e amigo Milton Nascimento durante apresentação no Théâtre de La Ville, Paris, em 1980

Além dos shows em São Paulo e no Rio, Toninho também participou da gravação de Minas e Geraes, discos de Milton Nascimento lançados em 1975 e 1976, respectivamente. No disco Minas Milton gravou “Beijo partido”, clássica composição de Toninho Horta e grande sucesso também na voz de Nana Caymmi. A música conquistou amplo público e fez parte da trilha sonora da primeira versão de Pecado capital, novela exibida pela Rede Globo entre novembro de 1975 e junho de 1976. A música foi feita em 1973, quando Toninho tocava em turnê com Gal Costa. Fala de uma desilusão amorosa que ele de fato viveu. Num show de Gal, em Belo Horizonte, reencontrou uma antiga namorada, amor de adolescência por quem ainda era apaixonado. Saíram depois para um barzinho, mas nada aconteceu. Toninho lembra que viajou para o Rio com Lúcio Tadeu, seu primo, e chorou a viagem inteira, inconsolável. No apartamento onde morava no Leblon já tinha um piano. Fui pro piano e

desabafei, fiz a letra em 30, 40 minutos.* Toninho chegou a oferecer a música

para Gal gravar, mas na época ela não se interessou. Depois que o Milton

gravou ela se arrependeu. Me disse: Ainda vou gravar o “Beijo partido”.*

Em 1975 Toninho Horta também cumpriu longo périplo com o Som Imaginário, que ganhou na ocasião formação mais pop e fez vários shows pelo Brasil.

Shows maravilhosos, lembra ele. Ainda participou de vários outros discos no

estúdio da EMI em que, além de Milton, acompanhou Taiguara, Nana Caymmi, Gal Costa, entre outros.

Em 1976 veio a primeira oportunidade de ir aos Estados Unidos. Flora Purim conhecia já seu trabalho e o chamou para gravar, com ela e Airto Moreira, dois discos diferentes, ambos em Los Angeles.

Milton estava indo para lá na mesma época, para gravar mais um disco para a A&M Records, o LP Milton, no estúdio Shangri-la, que era da banda que acompanhava Bob Dylan. Toninho lembra: Um pagou a passagem, outro pagou

o cachê e eu fui. Eu me lembro que na época eu ganhei US$ 5 mil, recebi até antes das gravações começarem. No mesmo dia em que eu peguei o dinheiro, fui ao Guitar Center junto com os outros músicos que acompanhavam o

Toninho nos teclados em apresentação durante o Projeto Pixinguinha

Milton – o Novelli, Robertinho [Silva] e Ronaldo [Bastos], que foi como produtor. Comprei duas guitarras lá. A Birdland, que foi uma sugestão do Beto Guedes, uma guitarra que o Wes Montgomery, o meu maior ídolo, tocava. Mas também o pessoal da área do rock, o Eric Clapton, tinha uma foto dele tocando uma Birdland, tinha um som muito bonito. Essa guitarra eu tenho até hoje. E comprei uma preta, Gibson, modelo 335, que depois vendi para o Lô. Ele usou durante muito tempo em shows e concertos essa guitarra que foi minha. Eu tinha de fazer um livro sobre a história das minhas guitarras, tem muita história pra contar só sobre elas!.*

Nos dois anos seguintes, Toninho Horta ganharia importante reconhecimento internacional. Em 1977, a revista londrina Melody Maker o elegeu o 5º melhor guitarrista do mundo, e, em 1988, o 7º melhor na categoria de jazz, consagrando-o como um dos mais admirados músicos dos últimos tempos. No Brasil, em 1973, ele já tinha sido considerado o melhor guitarrista do País pela revista Playboy. Mais recentemente, em 1998, a edição brasileira da revista Guitar Player o elegeu como o terceiro melhor guitarrista do Brasil. E, em 2005, foi incluído na antologia Progressions – 100 Years of Jazz, elaborada pela Sony/BMG, como um dos 74 guitarristas mais influentes do mundo do

jazz e do blues no século 20.

Naquela temporada em Los Angeles, além do contato com alguns dos melhores músicos norte-americanos, como Herbie Hancock e Wayne Shorter, Toninho viu surgir uma grande oportunidade: a de investir em um disco solo. Ela chegou com a ajuda do amigo Milton Nascimento – que cedeu os últimos dias da temporada no estúdio Shangri-la e alguns tapes 546 Ampex – e acabou se concretizando numa obra antológica, uma das mais aplaudidas de Toninho Horta: o álbum Terra dos pássaros, lançado depois de quatro anos de trabalho.

Beijo partido

Toninho Horta

Sabe, eu não faço fé nessa minha loucura E digo

Eu não gosto de quem me arruína em pedaços E Deus é quem sabe de ti

E eu não mereço um beijo partido

Hoje não passa de um dia perdido no tempo E fico longe de tudo o que sei

Não se fala mais nisso, eu sei

Eu serei pra você o que não me importa saber Hoje não passa de um vaso quebrado no peito E grito

Olha o beijo partido Onde estará a rainha

Toninho, Miúcha e Jane Duboc em viagem pelo Projeto Pixinguinha

O nome do primeiro trabalho solo de Toninho Horta, Terra dos pássaros, faz alusão à guitarra Birdland que havia comprado. Desde 1973 eu pensava

em um disco solo, só meu, mas não havia tido oportunidade até então. Eu continuava a fazer música com Ronaldo, Márcio, com Fernando.*

Em 1976, Bituca terminou as gravações do disco Milton antes do prazo. Estavam no estúdio Shangri-la. A gente ficava numa casa onde tinha o estúdio,

a 200 metros da praia, em Malibu.* Milton, então, liberou para Toninho aquilo

que já estava pago, mas que ele não ia mais usar: fitas, técnico, estúdio.

Aí fizemos as bases do Terra dos pássaros, que virou uma epopeia de três anos e meio.* Até sair, em 1980, as faixas do repertório permaneceram as

mesmas selecionadas em 1976. Ronaldo Bastos, parceiro importante de Toninho neste trabalho, ajudou a escolher as músicas – as instrumentais e as com letra – e produziu junto o trabalho. Os músicos que tocaram com o Milton na época – Airto Moreira, Raul de Souza, Novelli, Robertinho Silva, Hugo Fattoruso, Laudir de Oliveira (que depois de sair do Som Imaginário foi para os EUA tocar na famosa banda Chicago) – foram incorporados às gravações do disco. Sobre a oportunidade de tocar com nomes da impor- tância de Herbie Hancock e Wayne Shorter, Toninho conta: Foi legal porque

deu pra desmistificar aquela coisa da música americana. Eles, da mesma forma [que nós pela música deles], eram apaixonados pela música do Brasil e gostaram de tocar com a gente. Comecei a conhecer alguns grupos americanos, Earth, Wind & Fire, Starship Orchestra, Norman Connors, que pouco tempo depois vieram a gravar músicas minhas.*

Depois de Malibu, Toninho foi gravar com Airto Moreira e Flora Purim no estúdio da Paramount, o mesmo usado por Frank Zappa. Fez então um acordo para Airto participar de seu disco Terra dos pássaros, na bateria. A gravação ainda ocuparia vários estúdios: o Village Recorder, em Los Angeles; o Vice-Versa, em São Paulo; o Transamérica, no Rio de Janeiro.

Toninho sonhava em gravar um disco com orquestra. Mas eu não tinha dinheiro.

Então, na Califórnia, a gente gravou com uma orquestra fantasma, que virou o nome do meu grupo. Eu fazia pedal de wa ou de volume na guitarra pra parecer violino, Hugo Fattoruso botava minimoog pra parecer trompa, e por aí vai.*

No documento harmonia compartilhada (páginas 73-80)