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O encontro com Pat Metheny

No documento harmonia compartilhada (páginas 87-94)

Pat Metheny e Toninho se encontram no Rio, em 1980, no estúdio da EMI gravando “Manuel, o audaz”: “Parecia que a gente se conhecia há uns 20 anos”. Papo longo com o amigo Pat Metheny na casa de David Hudjes, produtor de “Diamond land

Pat Metheny é considerado uma lenda viva do jazz. Toninho Horta o conheceu em 1980, no Brasil. Foi apresentado a ele por Célia Vaz, violonista que havia estudado na Berklee College of Music, em Boston, considerada a maior formadora de jazzistas e performers do mundo. Pat foi professor dela e estava, naquele ano, no Monterey Rio Jazz Festival, que acontecia no Rio de Janeiro. Pat já conhecia a música brasileira de Astrud e João Gilberto, de Tom Jobim. Já tinha ouvido também o som do Clube da esquina e se apaixonou pela música dos mineiros. Toninho supõe que o disco tenha chegado até o jazzman americano pouco tempo depois de lançado. Célia Vaz encontrou Toninho e disse que Pat Matheny queria conhecê-lo. No ano anterior eu tinha

comprado um disco dele de capa branca e ouvi demais. O cara era de uma virtuosidade, uma perfeição no toque da guitarra, nos solos e improvisos! Eu queria tocar perfeito igual a ele. Mas eu nunca estudei pra isso. Na verdade eu nunca quis ser um virtuose, sempre pensei mais na concepção da música, nas cores do som. O Pat foi sempre um fissurado em tocar, estudar, obsessivo mesmo. Ele faz três, quatro, cinco shows na semana, e ainda toca a tarde inteira antes dos shows.* O disco que Toninho ouvira no ano anterior se

chamava Pat Metheny group, gravado em 1978 pela ECM, e tinha entre os integrantes músicos como Mark Egan, baixista, e Danny Gottlieb, baterista, ambos lendas com quem Toninho sequer sonhava gravar. Mas o sonho mais tarde se realizou: Egan e Gottlieb acabaram participando de Moonstone (1989) e Foot on the road (1994), discos do fã mineiro.

Pat e Toninho se encontraram na casa de Célia Vaz. Parecia que a gente se

conhecia há uns 20 anos, começamos a tocar juntos e logo ele falou: Quero

gravar um disco com você. Eu, você, Charlie Haden no baixo, Naná Vasconcelos na percussão, Herbie Hancock no piano e Jack De Johnette na bateria.

Tô esperando até hoje (ha...ha!), nunca aconteceu esse projeto. Mas ficamos amigos. Acho que os músicos têm vontade de gravar com outros que admiram, mas quando entram os managers e os agentes no percurso as coisas se dificultam.*

Sem uma agenda tão congestionada naquela época, Toninho gostava de cozinhar, tinha aprendido com o irmão Paulo a fazer uns pratos. Destemido, convidou Pat à sua casa e fez um peixe assado acompanhado de macarrão com brócolis. Enquanto cozinhava, Pat ficou no seu quarto ouvindo seguida- mente Terra dos pássaros. Três vezes, de cabo a rabo. Ele ficou impressionado

demais com a quantidade de sonoridades, de timbres. Os discos do Pat, até então, tinham uma concepção mais de jazz, muito bem tocados, mas eram

discos de formação pequena – um trio, um quarteto. Logo depois disso ele lançou um disco chamado First circle. Foi aí que a gente viu a grande influência da música brasileira, do Uakti, Flávio Venturini, Lô Borges, Milton, Nivaldo Ornelas e da minha música também.* Ah! Pat adorou o peixe com macarrão!

Muitos identificam uma grande semelhança no modo de tocar dos dois músicos. Frequentemente perguntam quem influenciou quem. É verdade que ambos ouviam não só os mesmos artistas – Keith Jarett, Miles Davis, Bill Evans, Wes Montgomery, orquestras –, mas os mesmos discos desses artistas. Quando estava no meu quarto ouvindo pela terceira vez o Terra

dos pássaros, Pat falou: Poxa, Toninho, os discos que você ouve aqui são os

mesmos que eu ouço!* Ambos, portanto, têm os mesmos ídolos, as mesmas referências, gostos muito semelhantes. Mas, de tanto ouvir a pergunta, hoje Toninho coloca ressalva: Olha, eu não sei, não, quem influenciou quem...

mas que eu nasci primeiro, eu nasci! Eu cheguei primeiro, ha... ha... ha!*

Não são poucos os produtores do Japão, da Europa, dos Estados Unidos que sonham em colocar os dois em um palco para tocarem juntos. Eu sempre falo:

é só me ligar, o Pat é que tem um esquema de produção mais complicado.*

Do Monterey Rio Jazz Festival, que aconteceu no Rio em 1980, também parti- cipou Stanley Clarke, entre outras estrelas internacionais. Ele e Pat foram a Minas e quiseram conhecer o famoso clube em Santa Tereza, bairro boêmio e cultural de Belo Horizonte, e ficaram muito espantados ao saberem que aquela era uma esquina como qualquer outra no mundo, e não um clube com sede física. Compraram 40 LPs de música brasileira que levaram embora junto com uma foto daquela que era mais esquina do que clube.

Entre 1982 e 1983, Toninho estava nos Estados Unidos e Pat o chamou para tocar no casamento de Gail Youngs com Robert Duvall – ambos atores americanos, ele de filmes como O poderoso chefão, Apocalypse now,

Um dia de fúria, entre muitos outros. Pat namorava a irmã de Gail. Ele e Toninho

emocionaram os noivos no almoço de recepção em Squirrel Island, no estado do Maine, num dia de frio siberiano. Os recém-casados choraram ao ouvir, a menos de 2 metros de distância, Toninho e Pat tocando Pedra da lua, canção gravada em Terra dos pássaros e em Moonstone, de 1989, nesse

Toninho e Pat na lancha, indo para Squile Island, Maine, tocar no casamento de Robert Duvall

último repetindo a dupla de sucesso do casamento de Duvall. Toninho ganhou US$ 250. E se diverte sempre que se lembra da história.

Sobre Toninho, Pat escreveu: Os músicos de todos os lugares adoram as

canções de Toninho Horta. Toninho tem se mostrado um dos compositores brasileiros mais sofisticados, harmonicamente, e mais criteriosos, melodi- camente, dos últimos tempos. De forma única, ele escreve progressões de acordes que desafiam a gravidade, movendo-se para cima quando você pensa que vão descer. Suas melodias ficam em sua cabeça durante dias: você tem certeza de que já ouviu aquilo antes, mas elas são totalmente novas. E, como arranjador, ele é um mestre. [...] Como instrumentista, ele é um dos melhores do mundo no violão. Ele toca linhas melódicas tão fantásticas, com um tempo tão extraordinário... (Eu costumo descrevê-lo para outros músicos como o Herbie Hancock dos violonistas da Bossa Nova) [...] Em poucas palavras, Toninho Horta é um músico incrível, aquele raro guitarrista que compreende a harmonia em seus caminhos mais profundos e – acima de tudo – uma das pessoas mais agradáveis e gentis que eu já tive a sorte de conhecer [...].19

Em 1982, o carioca Sérgio Mendes, músico e compositor da Bossa Nova, fazia sucesso nos Estados Unidos, para onde tinha se mudado em 1964. Apresentava-se com seu próprio grupo Brasil 82 e procurava levar músicos brasileiros como forma de prestigiar e divulgar os talentos nacionais. Naquele ano chamou Toninho Horta. Queria gravar com ele, incluiria uma música do músico mineiro, Yarabela, no disco que iam gravar. Toninho não se identificou com a maneira de conceber o trabalho. Achou que havia ali concessões demais ao mercado, que o disco se pretendia comercial além da conta, na sua opinião.

Parecia que eu estava transgredindo uma coisa. O Sérgio queria que eu fizesse uma música mais comercial, como faziam Michael Jackson e Lionel Richie*. Caso ignorasse os sinais de sua sensibilidade, estaria

transgredindo sua própria verdade como músico e compositor, a fidelidade à arte na qual sempre acreditou. Em outras palavras, não se reconhecia naquela proposta, e, por essa razão, sentia que perderia um pouco de sua própria identi- dade caso a aceitasse. Além disso, havia a questão dos direitos de publicação, que Sérgio Mendes entendia ter o direito de deter como contrapartida da divulgação que fazia dos músicos num mercado de grande visibilidade como o americano. Toninho se via, assim, num ambiente em que a música era mais

business que arte, e resolveu que não faria o trabalho. E Sérgio não gravou

sua música. Chorei muito na época por não ter dado certo a parceria, por

Sérgio não ter entendido minha proposta musical naquele momento. Hoje eu e Sérgio somos grandes amigos, a gente se emociona tocando juntos, ele gravou, no seu disco Encanto [de 2007], uma música minha, “Manhã carioca”, junto com a bateria da Mangueira, fiz o arranjo de algumas músicas no disco dele.*

As gravações com Airto Moreira e Flora Purim também colocaram para Toninho questões semelhantes e exibiram um pouco do funcionamento do mercado.

Airto e Flora são meus ídolos, fiz muitos shows com ela. A Flora gravou várias músicas minhas, inclusive “Beijo partido”. Em 1976, Flora gravou três

composições de Toninho e pediu os direitos de publicação das músicas.

Eu falei que ia editar com a editora do Milton, na minha cidade, minha terra, era mais perto pra mim, mais fácil. As músicas acabaram não saindo no disco. Hoje, Airto, Flora e Sérgio são amigos queridos como sempre foram. Fiz recen- temente várias gravações e turnês com eles, temos uma sólida amizade e admiração mútuas. Isso muito me dignifica e enriquece a minha alma.*

No documento harmonia compartilhada (páginas 87-94)