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Um sonho maluco que se foi inventando

No documento harmonia compartilhada (páginas 80-87)

O trabalho enfrentou ainda o capítulo do transporte das fitas. Elas eram muito grandes. Foi Oscar Castro Neves quem trouxe o tesouro de navio.

Durante três anos Toninho procurou várias gravadoras no Brasil para finalizar o trabalho – cuidar da masterização, prensar, fazer a capa e distribuir –, mas elas achavam que o disco não ia vender, que era muito artístico, não interessava. Eu fiquei muito decepcionado. Então resolvi fazer independente.* Muitos atribuem a Antônio Adolfo a produção do primeiro disco independente no Brasil: o Feito em casa, de 1975. Mas, como lembra Toninho, foi Pacífico Mascarenhas quem primeiro fez, de fato, uma produção independente, em 1958. Gravado no Rio junto com os músicos Paulo Modesto e Gilberto Santana, chamava-se Um passeio musical e saiu pela Cia. Brasileira de Disco, hoje Universal. Eu fui o sexto ou sétimo [a lançar] disco independente. Eu fiz

show, gravação para [conseguir recursos e ] colocar no disco. Eu tinha uma Brasília velha, na época, que tinha o nome de Macabéa. Às vezes eu não tinha dinheiro pra estacionar meu carro no Rio de Janeiro.*

Um dia, morando no Edifício Apolo, em Botafogo, sua irmã Gilda Horta chegou escondendo as mãos atrás do corpo e disse: Eu já tenho um jeito de

terminar o seu disco. Veio um cheque pra você dos Estados Unidos. O Earth, Wind & Fire tinha gravado uma adaptação de “Beijo partido”. Gravaram

“Ponta de areia”, do Milton, e “Beijo partido”, uma de cada lado do disco,

mas com o mesmo título, “Brazilian rhyme – Interlúdio I e Interlúdio II”, talvez pra pagar direitos por uma música só. Isso me deu na época US$ 18 mil, dava pra comprar lá em Belo Horizonte um apartamento legal, de dois quartos.* Mas Toninho investiu tudo no disco que tinha por terminar.

Com esse aporte de recurso, a orquestra, que era fantasma, virou real.

Desde pequeno eu adorava orquestra, chorava quando ouvia no rádio. Pude então fazer uns arranjos. Toninho já tinha experiência na função.

Havia feito arranjos para o disco de Beto Guedes, “Sol de primavera” (1973), o “Clube da esquina 2” (1978) e para o disco Via Láctea (1979), de Lô Borges. Fiz o arranjo de “Céu de Brasília”, escrevi os arranjos todos do meu

disco e fui reger. Mesmo tendo estudado pouca teoria. Eu sempre fui muito preguiçoso pra ir na escola. Eu estudei um pouco de teoria com 17 anos, depois tive uma professora japonesa de teoria e solfejo, aulas particulares.*

Algum tempo depois recebeu um segundo cheque, este de US$ 5 mil, ainda da gravação de “Beijo partido” pelo grupo Earth, Wind & Fire. Investiu tudo na masterização do disco. Voltei pra Califórnia para masterizar com um cara

que era o mais conhecido do mundo, John Golden. Naquela época a mas- terização se chamava corte. E era no vinil. Desde essa época eu já tinha a preocupação com sonoridade e técnica. Minha irmã Gilda sempre me abria o olho pra isso, qualidade!*

O lançamento ao mercado foi fruto de uma parceria – a primeira nesse formato, segundo Toninho – entre uma produção independente e uma gravadora grande, a EMI. A música “Beijo partido” já tinha feito muito sucesso e a EMI/Odeon, no embalo dessa onda, fez um convite para Toninho gravar um disco. Ele aceitou, mas condicionou a gravação ao lançamento do Terra dos pássaros, que finalmente estava pronto. Fizeram, ele e Ronaldo Bastos, um contrato de licença por dois anos e o disco seria então lançado no final do ano. Antes, porém, de estourar o champanhe da vitória, uma chuva torrencial inundou a fábrica de discos da EMI em São Bernardo do Campo. Os discos ficaram ali, boiando naquelas águas de um anticlímax de verão, e o lançamento teve de ser postergado. O disco saiu em meados de 1980, meses antes do segundo disco solo, intitulado Toninho Horta, que tem na capa uma fotografia de Toninho mandando um beijo para a câmara, tirada no sítio da família de Ronaldo Bastos em Friburgo, estado do Rio.

Terra dos pássaros é considerado uma obra-prima, reverenciado no mundo

todo, inclusive por músicos de peso no cenário internacional. Nesse disco estão os primeiros registros de clássicos do músico mineiro. “Céu de Brasília”, “Diana”, “Beijo partido”, pra citar as mais conhecidas. Há quem diga que “Céu de Brasília” está para Toninho Horta assim como Ulisses está para James Joyce, tal a complexidade e beleza harmônica da composição. A letra, Toninho encomendou a Fernando Brant dizendo que tinha de se chamar “Céu de Brasília”. Acontece que Fernando nunca tinha ido a Brasília, e teve então de fazer a letra com base na descrição que o próprio Toninho fez a ele da paisagem que queria ver representada na canção. O registro de “Diana” ainda traz um pouco da brisa da praia de Malibu na voz quase distraída de Toninho. Ele escreve no encarte do disco: A voz em “Diana” era pra servir só de guia

Pausa no ensaio na concha acústica da UERJ

Céu de Brasília

Toninho Horta e Fernando Brant

A cidade acalmou logo depois das dez

Nas janelas a fria luz da televisão divertindo as famílias Saio pela noite andando nas ruas

Lá vou eu pelo ar, asas de avião

Me esquecendo da solidão da cidade grande Do mundo dos homens

Num vôo maluco Que eu vou inventando E vôo até ver nascer

O mato, o sol da manhã, as folhas, os rios, o azul Beleza bonita de ver

Nada existe como o azul sem manchas Do céu do Planalto Central

E o horizonte imenso aberto sugerindo mil direções E eu nem quero saber se foi bebedeira louca ou lucidez

e ficou definitiva com o passar do tempo. Não havia razão para tentar cantar outra vez, anos depois, mesmo que viesse a melhorar a qualidade técnica, a dicção e o volume de som. Toda a emoção do início do disco, o Bituca dando as fitas pra gente, a porta sempre aberta, o mar através dos janelões do estúdio, cachorros entrando e saindo, todo esse clima estava na voz de “Diana”.18

O segundo disco que saiu pela EMI, Toninho Horta, tem, segundo o próprio, uma unidade muito grande com Terra dos pássaros. São discos bem parecidos,

com orquestrações, incluí todas as músicas que eu estava compondo nos últimos dez anos.* Esse segundo disco registra algumas das maravilhas que

as cordas de uma guitarra podem produzir. “Manoel, o audaz”, cantada por Lô Borges e pelo próprio Toninho, ganhou solo irretocável de Pat Metheny, um virtuose do mundo do jazz, que estava de passagem pelo Rio tocando no Monterey Rio Jazz Festival.

Depois de finalmente lançado, Terra dos pássaros não recebeu da gravadora toda a divulgação que merecia. Toninho estava já finalizando o outro disco contratado pela EMI, que demorava mais para ser concluído do que os empre- sários pretendiam. Ritmo de mineiro, segundo Toninho. Ele então pediu a Ronaldo Bastos, que atuava como produtor do trabalho: Vai lá falar com os

caras, eu preciso de mais uma tumbadora, um vocal e não sei quê. Eles têm que liberar isso, senão eu também não acabo o meu disco, não!*

Eles liberaram – e o disco foi lançado em dezembro daquele ano. Mas no dia 8 do mesmo mês, Toninho recebeu uma carta da gravadora. Eu não entendi

o teor da carta, eu era muito inocente com essa coisa de contrato. Eu não entendi que eles estavam me dispensando nesse disco.* A gravadora começou

a regular material de propaganda, a se esquivar diante das demandas do músico que queria ver seu trabalho divulgado. Foi Ronaldo quem desconfiou, pediu para ler a carta que Toninho tinha recebido e se deu conta do distrato. Eles [os execu-

tivos da gravadora] ficaram chateados, liberaram o que eu pedi, mas depois me dispensaram.*

Por causa do funcionamento da indústria fonográfica, nem sempre favorável à qualidade musical, Toninho Horta, desde então, assumiu ser independente, ter um trabalho alternativo. Essa liberdade musical que a gente quer ter,

de criação e tudo, não dá pra esse mercado aqui. Nos Estados Unidos tinha um público pra jazz, a música livre, o free jazz, o cool jazz. Aqui não, tinha de ser uma música mais careta e eu não gostava disso.*

No documento harmonia compartilhada (páginas 80-87)