Competências cognitivo-motivacionais em estudantes universitários
1.1. Abordagens teóricas acerca da inteligência na aprendizagem
1.1.3. Abordagem cognitivista ou processamento da informação
'Cognitive psychology is the scientific study of mental processes' (Ellis & Hunt,1972: 13). A psicologia
cognitiva desenvolve-se através da combinação entre teoria e experimentação, pela utilização da observação dos desempenhos para inferir processos psicológicos que estão subjacentes a esses mesmos desempenhos.
1 Reuchlin refere-se a processos vicariantes como processos diferenciados de tratamento da informação e subjacentes à
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Ou seja, de acordo com Almeida (1994: 30) 'a abordagem cognitivista introduz na análise da inteligência o seu próprio processamento ou o estudo do seu próprio exercício', salientando deste modo, o próprio acto cognitivo. .
O modelo cognitivo da mente humana, retomando uma metodologia experimental no estudo da inteligência (Almeida, 1988: 43), baseia-se na ideia do processamento de informação que surge na década de 60, nos EUA. Assume-se que todo o ser humano dispõe de um sistema básico de processamento de informação e que, em princípio, todos os processos mentais podem ser explicados em termos da operação deste sistema. Esta abordagem emerge na preocupação com a compreensão do funcionamento cognitivo e cuja ênfase recai sobre a análise das operações e processamento necessário à execução de uma variedade de tarefas cognitivas. Diremos que o 'enfoque não está nos factores internos subjacentes (aptidões ou traços, estruturas ou esquemas), mas, no próprio acto de resolução de tarefas e problemas' (Almeida, 1994: 31).
Procura-se assim, compreender (laboratorialmente) o funcionamento intelectual pela via de análise experimental dos processos cognitivos e dos mecanismos utilizados na realização das tarefas correspondentes. É uma alternativa às metodologias mais quantitativas da abordagem psicométrica ou insuficiência qualitativa dos autores desenvolvimentistas. Para Morais (1996: 23), nesta perspectiva, não estará em causa a inteligência estável ou o desenvolvimento cognitivo, mas, sim a cognição. E esta, referir- se-á a processos de recolha, armazenamento, tratamento e uso da informação que vem do exterior. Com efeito, são segundo Almeida (1988 e 1994), hoje, os modelos de processamento da informação assentes no faseamento [ Input da informação (apreensão, codificação, comparação e organização) → Processamento (retenção, armazenamento, evocação, categorização e relacionamento) → (avaliação, decisão e resposta)
Output ], os processos mais utilizados na descrição da inteligência na aprendizagem.
Na perspectiva cognitivista procura-se descrever, quase de forma exaustiva e rigorosa (recorrendo a modelos matemáticos), os passos dados pelo sujeito na execução das tarefas cognitivas e por forma a que esta realização possa ser, por exemplo, simulada em computador (Sternberg, 1995: 385). Neste enquadramento, o estudante é considerado um sistema aberto ao meio exterior que lhe fornece as informações, as quais introduz na sua estrutura cognitiva interna através de operações e mecanismos apropriados, para a seguir armazenar com carácter mais ou menos efémero ou permanente (Brien, 1993). Para o efeito, Good & Brophy (1990) sugerem que este processamento da informação se faz em série (sequencial ou consecutivo) e que, de um modo geral, implica três fases distintas:
Fase 1) 'Entrada da informação'. Identificação das tarefas intelectuais (cognitivas ou que se relacionem com a cognição).
Fase 2) 'Tratamento da informação'. Análise rigorosa das componentes cognitivas intervenientes na realização das tarefas anteriores. ou, segundo outros investigadores, algumas destas actividades intelectuais implicam também (e em parte), um outro tipo de processamento em paralelo (simultâneo)
onde ocorre mais que um processo mental no mesmo instante. Fase 3) 'Saída da informação'. Produção de respostas ou soluções.
Aliás, tendo em conta a categorização dos vários elementos associados aos processamento da informação, alguns autores referem que a par dos processos cognitivos (ou não executivos) existem também processos metacognitivos (ou executivos). Estes últimos processos são considerados de ordem superior, na medida em que regulam e controlam os primeiros através das componentes estruturais do sistema. Neste sentido, sobretudo a partir dos anos 50, o computador tornou-se uma metáfora para integrar as diferentes perspectivas relativas ao processamento da informação e resolução de tarefas intelectuais. Exemplifiquemos então com a Figura 2-I, o processo de resolução de uma tarefa ou problema, segundo os momentos de aquisição e codificação (fase1), tratamento e transformação da informação (fase2) e, produção de uma resposta (fase3).
Imput
I
Figura 2-I: sistema de processamento da informação (adaptado de Morais, 1996: 33)
Usando este esquema sugerido por Morais (1996) registamos a seguinte sequência processual.
1. A informação entra no sistema (I).
2. A informação é brevemente retida enquanto é examinada segundo a importância (recepção sensorial). 3. Alguma informação é seleccionada para ser processada e registada efemeramente (MCP ou memória
curto prazo), a restante perde-se.
4. O produto do processamento anterior é armazenado de forma relativamente permanente (MLP ou
memória de longo prazo). Neste armazenamento, já estão incluídas influências de processos mais complexos de tratamento da informação, os quais permitirão a organização do conhecimento-base e a sua acessibilidade para posterior evocação. Este percurso (encoding) envolvendo complexidade põe
(7) Fase 3: Saída/Resposta Fase 1: Entrada/codificação Rec epç ão s ens or ia l (2 ) MCP (3) M L P (4) Processamento adicional (1) (5) Fase 2: Tratamento/transformação (6) (Lixo)
R
output Metacomponentes98
em funcionamento grande parte dos processos cognitivos e é a componente mais demorada do processamento (contorno a tracejado).
5. As respostas ou acções envolvem, em geral, a coordenação de informação previa e a informação que
acaba de entrar no sistema. Ou seja, não basta apenas codificar e evocar, é também importante categorizar, inferir, deduzir, etc. (contorno a cheio).
6. A produção das respostas ou acções será, finalmente emitida para o exterior (R).
7. Todas estas fases e processos são planeados, dirigidos e monitorizados por processos (executivos)
de ordem superior, designados genericamente de 'metacomponentes'.
Sobre este modelo de processamento da informação, é possível encontrar em Almeida (1994; 1988: 46) inúmeras referências a estudos centrados nas componentes de resolução das tarefas intelectuais. De acordo com este investigador, a actividade de pesquisa que tem como objectivo a caracterização das aptidões mentais e enfatizando mais as semelhanças do que as diferenças, constitui a grande novidade do estudo da inteligência a partir dos anos 60. Ou seja, os estudos realizados no âmbito da resolução de problemas têm, independentemente das aptidões e competências abordadas, permitido definir um 'conjunto de componentes cognitivas mais ou menos gerais a toda a realização intelectual dos indivíduos'. E continua, 'a diferença a postular e a reter situar-se-á, então, na importância relativa de cada um desses processos na resolução das diversas tarefas'.
Neste sentido, tomando as orientações proferidas por Resnick (1976) e referenciadas por Almeida (1994: 56), a investigação acerca da definição de inteligência 'deve dirigir-se sobretudo para os processos cognitivos e não para os traços, deve tentar uma integração de metodologias correlacionais e experimentais de análise, deve dirigir-se mais à capacidade de diagnóstico do que à capacidade de predição dos desempenhos, deve passar a incluir maiores referências à modificabilidade cognitiva'. Por outro lado, a especificação dos mecanismos e processos cognitivos que entram na realização das tarefas intelectuais, tem permitido compreender e explicar melhor os fenómenos intelectuais. O conhecimento daí decorrente justifica a garantia na promoção e activação do desenvolvimento das competências (gerais e específicas), no contexto das intervenções psico-educativas. De facto, com a corrente cognitivista, deram-se largos e significativos passos para a construção do conhecimento sobre o funcionamento intelectual da mente humana. Procurar saber, antes, o que é a inteligência? em detrimento de quem é inteligente?.
Ainda no quadro das investigações acerca da inteligência, de acordo com a abordagem cognitivista, encontramos em Almeida (1994: 32) algumas linhas orientadoras que se podem agrupar, basicamente em duas grandes correntes de estudos, designadamente:
(1) A corrente 'biologizante' dos que estudam os correlatos fisiológicos da inteligência, dividida em três grandes linhas de pesquisa que são a velocidade de processamento (Galton, Eynseck, Jensen, Richardson, Hunt, outros), as teorias do potencial evocado (Weinberg, Ert & Schafer; Hendrickson,
outros) e as múltiplas inteligências (Gardner e outros).
(2) A corrente 'componencial' dos que estudam os correlatos cognitivos da inteligência mais ao nível dos processos (Sternberg e Perkins).
Além disso, a abordagem dos mecanismos e processos de realização nas tarefas cognitivas não se tem limitado apenas à observação das diferenças e interpretação de comportamentos cognitivos. Numerosas aplicações, têm-se orientado para a procura da identificação de formas de elevar essa mesma realização. Neste sentido, Reuchlin & Bacher (1989, referidos por Morais, 1996: 35) defendem que a metacognição (iremos tentar verificar mais adiante) será uma das dimensões mais significativas do processamento da informação nas diferenças individuais de realização intelectual e comportamento inteligente.