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Capítulo 2: Processo de projeto

2.1 Processo de projeto e método científico

2.1.1 Abordagem histórica do processo de projeto

Após compreender a relação do processo de projeto com o método científico, faz- se necessário conhecer o histórico relacionado à busca metodológica ligada ao projeto. Nesta perspectiva, Slann (1963) relata que no final de 1962 foi realizada a primeira conferência sobre métodos de projeto em Londres (Conference on Design Methods). O intuito da referida conferência era investigar e definir métodos sistemáticos de resolução de problemas em projeto.

Este foi o primeiro momento em que se tentou reunir teorias e experiências na aplicação de técnicas sistemáticas de projeto influenciadas pelas práticas científicas já mencionadas por Bayazit, (2004); Broadbent e Ward (1971); Buchnan (1966); Cross, (1984); Kowaltowski (1992) e Moreira (2007). Três anos depois, em 1965, foi realizada, de acordo com Gregory (1966), a segunda conferência em métodos de projeto em Birmingam, e em 1967 realizou-se o congresso de métodos de projeto em arquitetura (Design Methods in Architecture) na cidade de Porstmouth, conforme Broadbent e Ward (1971).

Bayazit (2004) relatou que esta crescente preocupação com os métodos de projeto foi seguida por outros países, países estes que a partir de 1960 buscaram explorar o assunto por meio de seus pesquisadores e projetistas, como foi o caso da Alemanha Ocidental que publicou alguns trabalhos sobre métodos de planejamento em arquitetura.

Os principais expoentes da primeira metade da década de 1960 sobre os métodos de projeto foram, de acordo com Moreira (2007), Christopher Alexander, John Luckman e John Chris Jones. Este começou a envolver-se com métodos de projeto na década de 1950, durante o período em que trabalhou como designer industrial para um grande fabricante de produtos elétricos na Grã-Bretanha, conforme Hileman (1998).

O autor afirma que Jones ficou frustrado ao perceber que os resultados de seus estudos ergonômicos de comportamento do usuário não eram utilizados pelos designers da empresa, momento em que ele começou a estudar o processo de projeto usado pelos engenheiros. Hileman (1998) aponta que Jones descobriu que os engenheiros não possuíam

maneiras de incorporar (racionalmente) dados advindos do início do processo aos momentos em que eram mais necessários.

Esta descoberta motivou Jones a redesenhar o processo de projeto em si, com o objetivo de que a intuição e a racionalidade pudessem coexistir, ao invés de serem excludentes, raciocínio que foi o norteador de toda sua obra, conforme aponta Hileman (1998). O mesmo autor afirma que Jones, em 1970, separava as épocas do projeto em quatro eras:

Figura 1 – Divisão do projeto em eras, como Jones os via em 1970.

Fonte: Autor, 2019.

A evolução dos processos de projeto é dividida em diferentes etapas, como afirmaram Cross (1984), Bayazit (2004), Van der Voordt e Van Wegen (2005) e Moreira (2007). Para Hileman (1998) a primeira era do projeto havia caminhado um passo além do artesanato, visto que a solução à um dado problema era feita por um método que foi apelidado como caixa preta (black box)14. Neste método o processo não era conhecido por

poucos, em alguns casos nem mesmo pelo próprio projetista que, diversas vezes, não conseguia apontar a razão por trás de uma escolha projetual, conforme pontuou Hileman (1998).

Moreira (2007) afirma que Horst Rittel defendia a primeira fase como sendo outra. Para Rittel, a primeira geração dos métodos de projeto se caracterizava por uma divisão em

14 Importante ressaltar que o termo (Black Box) possui referência em diversas áreas (informática, engenharia

de softwares, aviação etc), para esta pesquisa, utiliza-se a referência de Hileman (1998) já exposta, em virtude da sua relação, específica, ao processo de projeto.

três etapas baseadas na pesquisa operacional: análise, síntese e avaliação. Estas fases ficaram conhecidas como método sistemático de projeto. Nota-se que, para o autor, a primeira fase defendida por Horst Rittel se equivale à segunda era de Chris Jones.

Esta segunda era do projeto, proposta por Jones, foi motivada pelos esforços coletivos, exigidos pela Segunda Guerra Mundial, que originaram, na década de 1950, os relatórios de projetos sistemáticos em grupo. Momento em que Jones apontou, segundo afirma Hileman (1998), os métodos de Brainstorming; pensamento criativo em grupo; remoção de blocos mentais; e Análise de Áreas de Decisões Interligadas, ou Analysis of Interconnected Decision Areas (AIDA) em inglês. Nesta fase, o projeto pelo desenho passou a ser uma ferramenta para resolver um subproblema.

A terceira era foi apontada, por Broadbent e Ward (1971), como a geração que buscava encontrar soluções que deixassem elementos que pudessem ser definidos pelos próprios usuários. Este pensamento ia ao encontro da atenção ao usuário (característica dos anos 1970), e estava em contraste com a abordagem analítica (anos 1960), conforme afirmou Moreira (2007). Corroborando este raciocínio, Bayazit (2004) e Moreira (2007) afirmaram que Rittel enxergava, nesta geração, um envolvimento do usuário e os seus objetivos nas decisões do projeto.

Hileman (1998) afirma ainda que a terceira época (inovação técnico social) foi marcada pela preocupação em um campo mais amplo de fatores, que estavam atrelados à um ambiente econômico e ecológico tanto nos conceitos de mercado quanto nas questões sociais, e que demandavam preocupações acerca de impacto ambiental, igualdade social, funcionalidade etc. Foi nesse momento que passaram a ser utilizados conceitos como “teste de mercado” e “grupo focal” (mais aplicáveis ao design do que à arquitetura), pois as equipes de projeto começaram a encontrar usos reais para a psicologia na abordagem do projeto.

Para Hileman (1998), esta foi a época em que os arquitetos foram confrontados pelos esforços, que envolviam os designers e acionistas de grandes empresas, e foram forçados a estudar os métodos de projeto, visando entender e praticar esta abertura do

projetista quanto à um exame minucioso do processo, além da entrada de informação em qualquer etapa do projeto.

Segundo Hileman (1998), o precursor da área (Chris Jones) enxergava o projeto, em 1970 (4ª era), como um processo que deveria ser desconstruído em três etapas15:

Figura 2 – Desconstrução do Projeto em três fases segundo Jones em 1970.

Fonte: Autor, 2019.

Hileman (1998) também afirma que a última fase seria o único aspecto do projeto que parecia apresentar uma explicação completamente racional, e que, portanto, poderia ser feito por um computador. A ironia vista pelo autor é que, para ele, o projeto até então (em 1970) se resumia à fase de convergência, e que era possível que esta mesma fase se tornaria a única que não seria realizada por projetistas no futuro.

Para Hileman (1998) os computadores iriam direcionar o papel dos projetistas para os estágios iniciais do processo de projeto (divergência e transformação) onde a flexibilidade, a intuição e o suave foco de atenção seriam características requeridas. Já os sistemas com base em conhecimento assumiriam a fase de convergência, o que poderia remeter o problema novamente ao projetista, e isto aconteceria quando as contradições

15 Spuybroek (2004, p. 9), ao definir o termo convergência, afirma que esta é uma fase onde “as informações

são reunidas, selecionadas, representadas graficamente ou mapeadas [...]. Um movimento em direção à qualidade, ordem e organização”. Já o termo divergência é caracterizado como “um movimento de atualização, onde o diagrama organizacional germina e se torna formativo. Um movimento em direção à quantidade, matéria e estrutura”.

forçassem a reavaliação dos objetivos do projeto. Ainda segundo o autor, a iteração16 de

projetos completos a partir de uma determinada definição de problema de projeto iria se tornar mais rápida à medida em que a base de conhecimento do projetista e a potência dos computadores aumentassem.

Ainda na historicidade do tema, Bayazit (2004) afirma que na década de 1960 surgiram pesquisas sobre as necessidades dos usuários em relação aos espaços construídos, estudos estes que influenciaram e originaram as normas específicas sobre a temática na Holanda, Suécia, França, Inglaterra e Dinamarca. Foi ainda nesta década, na Holanda (VAN DER VOORDT e VAN WEGEN, 2005) e na Turquia (BAYAZIT, 2004), que algumas universidades pesquisaram sobre métodos de projeto e programa arquitetônico, além de incluírem em suas grades de ensino disciplinas sobre o assunto.

Moreira (2007) afirma que nos anos seguintes o assunto tomou rumos diversos em virtudes dos grupos de pesquisa sobre métodos de projeto, como no Reino Unido em 1967, em que se fundou a Design Research Society (Sociedade de Pesquisa em Projeto), grupo responsável pelo periódico, ainda ativo, Design Studies.

Segundo Hileman (1998), surgiu em 1966 nos Estados Unidos o Design Method Group (Grupo de Métodos de Projeto), fundado por Gary Moore (o então estudante de arquitetura na Universidade de Berkley) e Marvin Manheim (estudante do MIT). O grupo, entre 1966 e 1971, publicou o DMG Newsletter, conforme Bayazit (2004), que relatou que este mesmo periódico entre 1971 e 1976 adotou o nome de DMG-DRS Journal: Design Research and Methods, para em 1976 mudar o nome para Design Methods and Theories, nome este que segundo o autor permanecia ativo até a data da publicação de seu trabalho.

16 Processo de resolução de uma equação mediante operações em que sucessivamente o objeto de cada uma