2.2 ACIDENTE E DOENÇA DO TRABALHO
2.2.1 E SPÉCIES DE A CIDENTE DO T RABALHO
2.2.1.1 Acidente-Tipo
O artigo 19 da Lei 8.213/91192 discorre nos seguintes termos:
Art. 19. Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do
trabalho a serviço da empresa ou pelo exercício do trabalho dos segurados referidos no inciso VII do art. 11 desta Lei, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.
Também chamado macrotrauma, acidente típico, acidente modelo ou acidente em sentido estrito, é toda causa externa que causar prejuízo à integridade do trabalhador, no qual exista um nexo causal entre este e o seu trabalho.
Diniz193, o considera como sendo aquele que “advier de um acontecimento súbito, violento e involuntário na prática do trabalho, que atinge a integridade física ou psíquica do empregado”.
190 MICHEL, Oswaldo. Acidentes do trabalho e doenças ocupacionais. p. 29-30.
191 MENEZES, João Salvador Reis; PAULINO, Naray Jesimar Aparecida. O acidente do trabalho em
perguntas e respostas. 2. ed. São Paulo: LTr, 2003. p. 37.
192 Dispõe sobre os Planos de Benefícios da Previdência Social e dá outras providências.
193 DINIZ, Maria Helena. In: BRANDÃO, Cláudio. Acidente do trabalho e responsabilidade civil do
Conforme Monteiro194:
Trata-se de um evento único, subitâneo, imprevisto, bem configurado no espaço e no tempo e de consequências geralmente imediatas, não sendo essencial a violência, podendo ocorrer sem provocar alarde ou impacto, ocasionando, meses ou anos depois de sua ocorrência, danos graves e até fatais, exigindo-se, apenas, o nexo de causalidade e a lesividade.
Pedrotti195 aponta a necessidade da presença de três requisitos:
a) causalidade, por não ser o acidente, em regra, um evento provocado, acontecendo, normalmente por acaso; b) prejudicialidade, pois o acidente deve provocar, necessariamente, lesão corporal ou perturbação funcional capaz de levar à morte, perda ou redução, definitiva ou transitória, da capacidade para o trabalho; c) nexo etiológico ou causal, que representa a relação de causa e efeito entre o trabalho e o infortúnio.
Sobre a correlação que deve unir o evento à execução do labor, Faria196 faz observação a algumas situações que devem ser atribuídas ao conceito de trabalho: a) para alcançar o que denomina atos de complacência: pequenos serviços de ajuda a outrem no local de trabalho ou durante o seu exercício; b) atos de reciprocidade: ajuda e assistência reciprocamente dispensadas por operários de empresas diferentes, mas atuando na mesma obra; c) atos de abnegação: socorro prestado ao companheiro ou a alguém em perigo ou mesmo a um animal pertencente ao patrão ou para proteger o estabelecimento diante de uma calamidade; d) o trabalho acessório: atos realizados como o fim de secundar ou facilitar o trabalho.
Castro e Lazzari197 complementam ainda que o acidente que não gera danos à integridade do indivíduo, não integra o conceito legal.
194 MONTEIRO, Antônio Lopes; BERTAGNI, Roberto Fleury de Souza. In: BRANDÃO, Cláudio.
Acidente do trabalho e responsabilidade civil do empregador. p. 122.
195 PEDROTTI, Irineu Antônio. In: BRANDÃO, Cláudio. Acidente do trabalho e responsabilidade
civil do empregador. p. 127.
196 FARIA, Bento de; FARIA, Edmundo Bento de. In: BRANDÃO, Cláudio. Acidente do trabalho e
responsabilidade civil do empregador. p. 123.
197 CASTRO, Carlos Alberto Pereira; LAZZARI, João Batista. In: BRANDÃO, Cláudio. Acidente do
Ademais, Brandão198 orienta que partindo do conceito legal, o dano gerado ao trabalhador deve ocasionar a paralisação de sua capacidade laboral para que seja caracterizado como acidente do trabalho.
Se o acidente ou doença não levou a afastamento do trabalho, o segurado continuará normalmente em suas atividades e o Instituto Nacional do Seguro Social – INSS em nada interferirá. Da mesma forma quando o acidente não provocou um afastamento maior do que 15 (quinze) dias.199
Discorre o artigo 118 da Lei 8.213/91:
Art. 118. O segurado que sofreu acidente do trabalho tem garantida,
pelo prazo mínimo de doze meses, a manutenção do seu contrato de trabalho na empresa, após a cessação do auxílio-doença acidentário, independentemente de percepção de auxílio-acidente.
Pode-se afirmar assim que para que haja a estabilidade no emprego, deve ocorrer o afastamento de no mínimo 16 (dezesseis) dias.
Por fim, Michel200 ressalta a importância da análise do que considera como fatores de acidentes, compreendendo cinco espécies:
a) agente da lesão: aquilo que, em contato com a pessoa, determina a lesão (ferramenta, ponta de uma máquina, por exemplo); b) condição insegura: as falhas físicas que comprometem a segurança do trabalho (defeitos, irregularidades técnicas, carência de dispositivos de segurança, por exemplo); c) ato inseguro: maneira pela qual o trabalhador se expõe, consciente ou inconscientemente, a riscos de acidentes; é o comportamento que leva ao acidente (levantamento inadequado de carga, manutenção de máquinas em movimento, remoção de dispositivos de proteção são alguns deles); d) acidente-tipo: como ocorre no contato entre a pessoa e o agente lesivo, seja violento ou não; e) fator pessoal inseguro: característica mental ou física que gera o ato inseguro e que, em muitos casos, também cria condições inseguras ou possibilita que elas continuem existindo (má interpretação das normas de segurança, falta de conhecimento de práticas seguras são exemplos).
198 BRANDÃO, Cláudio. Acidente do trabalho e responsabilidade civil do empregador. p. 134. 199 MENEZES, João Salvador Reis; PAULINO, Naray Jesimar Aparecida. O acidente do trabalho em
perguntas e respostas. p. 43-44.
200
São tipos de dano: 1) dano biológico (lesão que atinge a integridade psicofísica201); 2) a lesão corporal (mal que afeta um ou mais órgãos do ser humano); 3) a perturbação funcional (dano fisiológico ou psíquico); 4) o dano moral (diante da lesão sofrida, o empregado tem atingido o seu patrimônio pessoal, cujos limites ultrapassam os aspectos físicos e psíquicos, produzindo reflexos nas esferas afetiva, familiar, intelectual, ética e até mesmo social); 5) o dano estético (desconfiguração física que acarreta a diminuição ou a perda da harmonia corporal); 6) os efeitos psíquicos das lesões físicas (atingida a integridade física, sofre efeitos nos atributos da sua personalidade); 7) a morte, perda ou dedução da capacidade para o trabalho.202
O nexo de causalidade, apontado por Brandão203 é:
[...] o vínculo necessariamente estabelecido entre a ocorrência do infortúnio e a lesão sofrida pelo empregado. É a relação de causa e efeito entre dano e a desgraça que o atinge [...] não sendo necessária a prova da certeza, em casos de infortúnio, bastando o juízo de admissibilidade, ou seja, a probabilidade de que o dano foi proveniente do fato ocorrido e definido como acidente.
Em se tratando de acidente-tipo, a causalidade é direta quando causa e efeito estão intimamente ligados na ocorrência do acidente, o que ocorre, por exemplo quando o trabalhador tem a mão amputada na prensa.204
No caso de acidente de trajeto, o nexo está relacionado ao próprio trajeto, e da mesma forma o período de intervalo para refeição e descanso, sendo também nessa hipótese, causa direta, desde que haja relação entre o trabalho e o acidente propriamente dito; entre o acidente e o dano causado ao empregado, haja lesão ou perturbação funcional; e, que o efeito seja a redução, incapacidade para o trabalho ou a morte.
201 É o direito a não sofrer violações em seu corpo ou em aspectos de sua personalidade.
202 BRANDÃO, Cláudio. Acidente do trabalho e responsabilidade civil do empregador. p. 135-
149.
203 BRANDÃO, Cláudio. Acidente do trabalho e responsabilidade civil do empregador. p. 154. 204 BRANDÃO, Cláudio. Acidente do trabalho e responsabilidade civil do empregador. p. 155.
Assim, o infortúnio que não ocasionar lesão ou perturbação funcional no empregado ou, embora ocorra, não determine a sua incapacitação para a execução do labor não se tratará de acidente do trabalho.