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CAPÍTULO V REVISITANDO A VIDA DE DOMINGOS MACHADO

5.5. Acontecimentos importantes

A vida de Domingos Machado foi repleta de acontecimentos que pautaram a sua evolução e o seu crescimento como pessoa e como construtor, até se tornar no que é hoje. O facto de ter encontrado pessoas, que de alguma forma foram relevantes e influentes para o panorama cultural e musical português, e que lhe reconheceram mérito na sua obra, facilitou o seu trabalho como artesão e artista. O facto de haver instrumentos que em determinada altura, se tornaram moda, fez crescer o volume das encomendas na sua oficina, bem como o reconhecimento e divulgação por parte da comunicação social da sua obra, originou com que as dificuldades naturais de uma vida fossem sendo ultrapassadas.

Um destes acontecimentos importantes, foi ter conhecido o Dr. Ernesto Veiga de Oliveira, proeminente etnólogo e divulgador de vulto da cultura tradicional portuguesa. “Se não fosse o Doutor Veiga de Oliveira tudo teria sido diferente – Foi ele que me deu força, foi ele que reconheceu o valor do meu trabalho e que mo divulgou” (Perdigão, 2000, p.34-37). É com estas palavras que Domingos Machado reconhece em Ernesto Veiga de Oliveira a sua importância na sua vida, bem como nestas outras, onde revela que “…com ele é que conheci o mundo dos instrumentos” (Proença, 1996, p.31). Vamos então ver como é que teve lugar este tão importante acontecimento, nas palavras de Domingos Machado:

“O Dr. Ernesto Veiga de Oliveira quando andava a fazer a recolha para a Fundação do Museu de Etnologia, ele e o Júlio Pereira, têm um encontro com um grande amigo deles e meu vizinho, que era o Fernando Galhardo professor nas Belas Artes em Lisboa, que deixou um grande trabalho na recolha dos linhos! O Fernando Galhardo tem uma quinta que pegava comigo aqui. Então o Galhardo vinha passar as férias no verão para a quinta, e muitas vezes vinha para a minha beira ver-me trabalhar! Quando o Ernesto Veiga de Oliveira andava na recolha dos instrumentos, que era muito amigo dele, disse-lhe que tinha um vizinho que trabalhava em instrumentos. Um dia, aparece-me aqui com o Ernesto Veiga de Oliveira” (À conversa com Domingos Machado a 23 de Maio de 2004).

Este feliz acontecimento, transformou definitivamente a vida do artesão, e abriu portas a uma das amizades mais importantes da sua vida e não só por causa da sua obra, mas sobretudo, porque abriu novas visões e novas formas de estar e de lidar com a cultura portuguesa dentro e fora de fronteiras. É notório o fascínio que Domingos Machado passou a sentir pela pessoa de Ernesto Veiga de Oliveira muito antes de este ter aproximado o artesão do resto do país, que se encontrava até então distante:

“O Dr. Ernesto Veiga de Oliveira era uma pessoa muito simples, que gostava muito disto. Eu lidei muito com ele e aprendi muito com ele! Então, o Dr. Ernesto Veiga de Oliveira pediu-me que se por acaso aparecessem aqui alguns instrumentos antigos, para os comprar. Se não os vendesse, que podia trocá-los por instrumentos novos dentro de determinado valor, para a aquisição de instrumentos! Arranjei-lhe alguns instrumentos assim. Eu dava instrumentos novos, e depois ele pagava. Restaurei também alguns instrumentos que ele arranjou! Ele depois fez- me uma entrevista, e fez outra a meu falecido pai sobre as afinações dos instrumentos, como se tocavam…” (À conversa com Domingos Machado a 23 de Maio de 2004).

O trabalho de Domingos Machado para Ernesto Veiga de Oliveira foi o do restauro de instrumentos antigos, tendo sido pago naquela altura pela Fundação Calouste Gulbenkian. Graças a este trabalho, também o artesão teve oportunidade de conhecer de forma mais profunda os cordofones portugueses, alargando os seus horizontes. Este facto já foi referido, pois teve

muita importância para no futuro, nascer a vontade da criação do Museu dos Cordofones. A amizade entre os dois foi sendo consolidada com o tempo, e com o reconhecimento mútuo:

“…o Dr. Ernesto Veiga de Oliveira enquanto andou, durante um período de cerca de dois anos, na recolha dos instrumentos, passou por aqui dezenas de vezes! Ele percorreu Trás-os-Montes, o Douro, Espanha na zona de Vigo, e a minha casa era um ponto de passajem! Era um ponto principal de passagem para qualquer lado! E mesmo que ele tivesse que dar uma volta… “vamos pelo Sr. Domingos para ver se há alguma coisa!”. E assim nos tornámos grandes amigos!” (À conversa com Domingos Machado a 23 de Maio de 2004).

Domingos Machado juntamente com a sua família, foram várias vezes a Lisboa, a convite de Ernesto Veiga de Oliveira com a finalidade de participar em vários eventos, entre os quais se conta a edição do seu livro de recolha “Instrumentos Musicais Populares Portugueses” em como à inauguração do Museu Nacional de Etnologia. Tiveram então a ocasião de contactar com outras personalidades do panorama cultural português.

Revela-nos Domingos Machado as seguintes palavras de Ernesto Veiga de Oliveira:

“Ele um dia disse-me: “Domingos! Os violeiros vão desaparecer! Você vai ser um pequeno reizinho na arte!”” (À conversa com Domingos Machado a 23 de Maio de 2004).

Não se tinha enganado nesta premonição. Um outro grande acontecimento foi quando conheceu Júlio Pereira como já tivemos ocasião de referir. Este contacto também foi pela mão de Ernesto Veiga de Oliveira e levou definitivamente a obra de Domingos Machado para o panorama musical português. Júlio Pereira grava o seu LP “O Cavaquinho” em 1981, cujo sucesso eleva os cordofones portugueses a um estatuto de que nunca tinham usufruído. As encomendas na oficina de domingos Machado multiplicaram-se. Júlio Pereira traça os mais rasgados elogios no interior do seu LP, bem como na capa, aparece em grande plano uma imagem de um cavaquinho feito por

Domingos Machado. Quando Júlio Pereira pensa em gravar o seu disco, é enviado a casa de Domingos Machado por Ernesto Veiga de Oliveira:

“O Júlio Pereira quando vem à minha procura, foi bater à porta do meu primo, que faleceu há pouco. Segundo me contaram, já era de noite. Esse meu primo ao abrir a porta, dá com um homem de cabelo comprido e não lhe ligou muito, parece que teve receio! Mas entretanto o Júlio Pereira também não ia à procura dele, e pergunta-lhe por mim, e cá veio ter! O Júlio chega aí, eu começo a tocar cavaquinho!” (À conversa com Domingos Machado a 23 de Maio de 2004).

A história seguinte serve novamente para ilustrar a personalidade profundamente séria e leal de Domingos Machado bem como para acentuar as suas convicções:

“…o Júlio Pereira vem aqui ver-me tocar, e achou que tocava também muito bem! Disse-me então ao que cá vinha! Queria gravar um disco…e então eu disse que lhe ia apresentar um amigo, e que esse sim, é que lhe ia ensinar o que era tocar o cavaquinho. E lá vou eu ao Bernardino! Então o Júlio Pereira lá ficou, e viu que de facto o cavaquinho era um instrumento com muito potencial” (À conversa com Domingos Machado a 23 de Maio de 2004).

O tocador de quem está a falar, já tinha sido apresentado a Ernesto Veiga de Oliveira e já tinha sido gravado nas suas recolhas. “O aparecimento do seu disco…desencadeou uma procura intensa de cavaquinhos, que aumentava de cada vez que aparecia na televisão o próprio, ou uma reportagem sobre a oficina de Domingos Machado…” (Oliveira, 1997, p.4-8). Este acontecimento foi de facto muito importante não só para Domingos Machado como para a cultura do país.

Podemos neste momento afirmar, sem grandes margens de erro, que a personalidade séria e respeitadora de Domingos Machado foi fundamental no seu sucesso e nos amigos que o rodearam. Domingos Machado foi imune à tentação de deixar o trabalho artesanal, pois a procura era muita e continuou a procurar a perfeição para os seus instrumentos.

Pedro Barroso é considerado por Domingos Machado como outra pessoa que o ajudou muito, quando veio de Lisboa para lhe fazer uma entrevista:

“…o primeiro serviço dele foi a comunicação social! Um dia vem de Lisboa aqui para me fazer uma entrevista, para uma rádio ou para um jornal. Naquele tempo, deram-lhe 500 escudos para ele vir aqui entrevistar-me! Dava para vir de Lisboa aqui, e ainda sobrava dinheiro! Também 500 escudos, era metade do ordenado de um polícia! Faço-lhe a entrevista e o Pedro Barroso encomenda-me um cavaquinho. Quando o vem buscar, ensinei-lhe os primeiros toques! Ele já tocava bem viola…e ele grava o disco…” (À conversa com Domingos Machado a 23 de Maio de 2004).

Com os concertos de Pedro Barroso e com toda a publicidade que ele lhe prestava em todos os palcos onde subia, Domingos Machado foi sendo cada vez mais conhecido.

A moda pela cultura tradicional e em particular pelos instrumentos musicais chega aos coleccionadores, que continuaram a fazer com que o leque de clientes de Domingos Machado fosse crescendo. Segundo o artesão, e com o 25 de Abril de 1974 que marcou uma época em que se deu um grande crescimento e um grande incremento à importância da música popular, muitos foram os grupos que surgiram e naturalmente muitos foram os que se tornaram clientes de Domingos Machado, bem como muitas foram as pessoas que começaram a coleccionar instrumentos musicais. Os coleccionadores começaram a pedir outros instrumentos musicais, que Domingos Machado não estava habituado a construir:

“Eu comecei a ser conhecido e não haja dúvidas que vieram os coleccionadores (…) Quando o Eng. Euclides de Aveiro, que eu considero o segundo maior coleccionador a nível nacional, me veio encomendar a campaniça e as beiroas…digo eu para mim: “Onde eu vou agora arranjar…tenho de ir ao Museu de Etnologia! (…) Na altura, eu faço uma exposição de cavaquinhos, de como se fazem artesanalmente, no Museu dos Biscainhos em Braga, e o conservador do museu Jorge Curado, pede a Ernesto Veiga de Oliveira se lhe emprestava as violas para expor junto à minha colecção dos cavaquinhos no museu. Ernesto Veiga de Oliveira

cede-lhe as violas do museu para virem para o museu de Braga. Eu peço a Ernesto Veiga de Oliveira se posso tirar os modelos! E ele disse: “Traga- as para sua casa e copie!” (À conversa com Domingos Machado a 23 de Maio de 2004).

Aproveitou e construiu mais uma série de instrumentos musicais, que fazem hoje em dia, parte do espólio do Museu dos Cordofones e também da casa de muitos coleccionadores. Domingos Machado revelou por diversas vezes ao longo da sua carreira, uma enorme capacidade de aprender e de se adaptar às diferentes realidades.

Não podemos deixar de referir, que teve o privilégio de conhecer pessoalmente e de construir para o primeiro produtor dos Beatles, Oliver Serrano, que possui uma quinta no nosso país e que lhe deu uma grande projecção internacional, tendo sido inclusivamente referenciado em dois dos seus discos em 1993 e em 1994.

Um outro cliente ilustre foi o músico e ex-Beatle George Harrison que conta com um instrumento de Domingos Machado, bem como o cantor irlandês Donovan. Todos estes acontecimentos, que parecem saídos de uma qualquer revista, deram uma dimensão ainda mais internacional e de grande visibilidade, que Domingos Machado agradece de forma simples e saudável. Não podemos ignorar que o artesão já tinha obra um pouco por todo o lado.