3. EFEITOS DA INSERÇÃO DA VENEZUELA NO MERCOSUL
3.4 ACORDOS COMUNS NO MERCOSUL: PERDAS E GANHOS
Em uma análise do cenário econômico da Venezuela, desde o primeiro presidente eleito em 1947, Rómulo Gallegos (curiosamente deposto por militares após um ano de governo por tentar ampliar as reformas sociais), o setor produtivo, composto pelas elites da
105 GARCIA, Marco Aurélio. Paraguai, Brasil e o Mercosul. Política Externa, vol. 21 nº 3, jan/fev/mar 2013, p. 10.
106 Comentário feito pelo ex-ministro Celso Lafer em audiência pública na Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal. Adesão da Venezuela ao Mercosul: prós e contras - Depoimentos da Sociedade Civil na Comissão de Relações Exteriores do Senado. Disponível em: Revista Política Externa - vol.18 n°2 - set/out/nov. 2009.
107 Comentário feito por Maria Regina Soares de Lima, cientista política e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), em audiência pública na Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal. Adesão da Venezuela ao Mercosul: prós e contras - Depoimentos da Sociedade Civil na Comissão de Relações Exteriores do Senado. Brasília: Revista Política Externa, Vol.18, N°2 - set/out/nov. 2009.
época, não obteve êxito na formação de uma estrutura básica, que permitisse o desenvolvimento das atividades comerciais e/ou industriais. A estagnação das demais áreas da economia restou por reduzir àquele país a uma nação essencialmente exportadora de petróleo, utilizando suas divisas, em regra, para importar tudo ou quase tudo que necessita.
Todavia, este fato por si só não desqualifica a República Bolivariana da Venezuela, tampouco seu ingresso no Mercado Comum do Sul. Ao contrário, para alguns especialistas, como Renato Flores Jr.108, o Brasil, na posição de destaque que ocupa na região, tem o papel de fomentar a integração, ainda que a adesão daquele país traga consigo alguns entraves. Como maior economia da região, inevitável que o Brasil arque com maior parte do custo da integração. O sonho de uma América do Sul integrada deve enfrentar assimetrias, estimular a complementaridade e apaziguar as diferenças.
Apesar da relevância das negociações com os Estados Unidos, especialmente no que concerne à balança comercial venezuelana, os últimos anos indicam um crescimento da atividade comercial entre os países vizinhos, especialmente Argentina, Brasil e Colômbia, os dois primeiros membros efetivos do Mercosul. Apenas com o Brasil, o comércio bilateral passou de 620 milhões de dólares, no ano de 1998, à casa dos 4,5 bilhões ao final de 2013, segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE) 109, órgão vinculado ao Ministério Venezuelano do Poder Popular de Planificação.
Em decorrência do incremento nas atividades comerciais, em julho de 2006, foi assinado o Protocolo de Adesão da Venezuela ao Mercosul 110, e fixado um prazo para que esse país adotasse a Tarifa Externa Comum (TEC), e as demais normas do bloco, o que vem ocorrendo de forma gradativa. Igualmente estipulou-se que a abertura comercial seria gradual, levando em conta as assimetrias entre os países-membros. Nesse documento também se estipulou o prazo de 2012 para a eliminação total das barreiras tarifárias e não-tarifárias nas exportações com todos os integrantes do bloco. Todavia, para os produtos sensíveis, houve previsão de alargamento do prazo, o que se concretizou com a entrada efetiva da Venezuela ao bloco no ano de 2012. Mas, ainda subsistem barreiras que travam ou dificultam o comércio intrabloco.
108 FLORES JR., Renato. Venezuela e Mercosul: volta à questão, Rio de Janeiro: Revista de Comércio
Exterior, Setembro 2009, pp. 66-67. Disponível em: http://www.bibliotecadigital.fgv.br
109 Protocolo de Adesão da Venezuela ao MERCOSUL. Dados estatísticos disponíveis no site do Instituto Nacional de Estatísticas – INE, vinculado ao Ministério Venezuelano do Poder Popular e Planificação.
Disponível em < http://www.ine.gov.ve/index.php?option=com_content&view=category&id=48&Itemid=33#> 110 Disponível em http://www.mercosur.int/msweb/SM/Noticias/pt/Protocolo%20Venezuela%20PT.pdf. Acesso em outubro 2014.
Nesse contexto, a incorporação da Venezuela ao Mercosul deve ser discutida sob diferentes óticas: a positiva e a negativa.
Os críticos desfavoráveis a essa adesão, justificam os elevados custos políticos e econômicos, além da incerteza política que subsiste, não são maiores que os benefícios a serem atingidos. Dentre outros motivos destaca-se a insegurança jurídica no plano interno, suscitada pelas características do seu mandatário atual, presidente Nicolás Maduro, que segue (ou tenta seguir) os rumos trilhados por seu antecessor, Hugo Chávez.
Por outro lado há quem defenda que a entrada daquele país ao bloco proporcionará elevados ganhos, justificados pela ampliação do mercado consumidor (hoje a população da Venezuela ultrapassa os 30 milhões de habitantes), e por ser a maior fonte de petróleo do continente (uma das maiores já catalogadas no mundo, na região conhecida como a Faja Petrolífera del Orinoco), além de dispor de recursos que podem vir a ser aplicados intrabloco, podendo aumentar o poder de barganha do Mercosul nas negociações com terceiros, uma vez que representa aproximadamente 7% do PIB total da região111.
Em 2014, durante pesquisa in loco na Venezuela, verificou-se que a economia e a indústria locais, assim como as relações comerciais Venezuela-Mercosul, apesar de fomentarem as trocas intrabloco, têm trazido algumas preocupações a nível nacional. As visitas acadêmicas às Universidad Central de Venezuela, Universidad Simón Bolívar e Universidad Andrés Bello, além das visitas a institutos de pesquisa, como CENDES e ASOVAC, em que foram realizados encontros pontuais com especialistas da área, trouxeram evidências da relevante troca de produtos importados do Brasil e demais parceiros do bloco, desde commodities agrícolas a produtos manufaturados, como automóveis e telefonia celular. Essa onda de importação foi acentuada após a abertura da economia, principalmente para o Mercado Comum do Sul e pode causar danos à classe empresária e industrial nacionais. Com esses setores enfraquecidos (historicamente desde a formação das bases políticas deste país), houve um amplo espaço para esta invasão de produtos importados, a baixos preços, que minou ainda mais o desenvolvimento da economia local.
Ainda assim, com uma economia vulnerável e a deterioração de algumas instituições políticas, a entrada da Venezuela no Mercosul também pode ser vista como uma atenuação das disparidades regionais, principalmente pela similitude de dificuldades por que também passam Paraguai e Uruguai. Estes dois últimos, inclusive, têm demonstrado insatisfação com
111 Dados extraídos do site da CEPAL, em perfis nacionais. Disponível em <
http://interwp.cepal.org/cepalstat/WEB_cepalstat/Perfil_nacional_social.asp?Pais=VEN&idioma=e>. Acesso em outubro de 2014.
a agenda de integração do Mercosul, devido às atitudes protecionistas de Brasil, da Argentina, e os sucessivos déficits acumulados nas relações intra-bloco112. Como importante fonte de recursos que é, principalmente em decorrência das exportações de petróleo a altos preços praticados no mercado internacional, a Venezuela pode apresentar-se como uma saída para amenizar as disparidades, desempenhando papel relevante em termos de investimentos diretos, principalmente nas áreas petrolíferas e conexas.
Ao contrário das tarifas de importação/exportação entre a Venezuela e os demais países do bloco, que seguem o cronograma anteriormente estipulado para que essas tarifas sejam reduzidas gradativamente, a participação desse país nas negociações externas foi imediata, a partir da assinatura do Tratado de Adesão. Dessa forma, a Venezuela passou, desde então, a influir em todos os desdobramentos externos do bloco, em circunstância do seu poder de voto. Ainda hoje, passados oito anos da assinatura do documento, essa situação ainda gera discussões em âmbito internacional.
Brasil e Argentina têm se manifestado oficialmente no sentido de proteger a Venezuela como partícipe importante no continente sul-americano, defendendo sua adesão ativa no Mercosul sob a justificativa de construção de associações mais ambiciosas. Todavia, nota-se que esta aproximação está revestida também pela concertação política e alinhamento partidário de diversos países por que passa a América do Sul nos últimos 20 anos113.
Contudo, diplomatas e políticos dos países-membros ainda se mostram preocupados com a entrada da Venezuela no Mercosul. O ingresso, tal qual como foi feito, têm contribuído para o aumento das incertezas do bloco, uma vez que as decisões dependem das negociações intragovernamentais, de acordo com a vontade dos dirigentes de cada país-membro. Assim sendo, o bloco pode deixar de ser economicamente interessante aos investidores externos, pelo fato de o Presidente Nicolás Maduro (ter posições contrárias aos Estados Unidos e à globalização.
Essa, aliás, é uma das incertezas que mais atrasam o desenvolvimento do bloco. Historicamente, a atuação política dos presidentes dos países membros sempre determinou os rumos do Mercosul. Exemplo foi a mudança de interesse da Venezuela em aderir ao bloco;
112 A partir de 2003 há uma inversão na balança de comércio destes países, quando o Brasil deixa de ser prioritariamente importador e passa a condição de fornecedor de matérias primas e produtos manufaturados aos outros países do MERCOSUL. Dados extraídos do Sistema Gráfico de Dados de Comércio Internacional, disponível em CEPAL:
http://estadisticas.cepal.org/cepalstat/WEB_CEPALSTAT/estadisticasIndicadores.asp?idioma=e Acesso em outubro 2014.
113 Nos últimos 20 anos verificou-se a ascensão ao poder de diversos governos tidos como de esquerda nos países da América Latina. Estes governos, de características populistas e reformas sociais, alinharam-se, através de seus governantes, e deram início a um período de maior concertação política na região.
decorrente do interesse pessoal do então presidente Hugo Chávez, em sua tentativa de por em prática seus planos de expansão geopolítica para a América do Sul. Integrante desde sua fundação na Comunidade Andina das Nações o mandatário vislumbrou na aproximação com Brasil e Argentina uma chance de potencializar sua voz, seus ideais e exercer sua liderança entre os demais países do globo.
O sistema internacional está fundamentado no idealismo, meio onde se processam as relações entre os diferentes atores que compõem e fazem parte do conjunto das interações, e se unem na formação de blocos.
No entanto, existem contraposições no comportamento dos governantes, que podem ser analisadas e classificadas como anarquia.
Pecequilo define a anarquia como “a ausência de um governo e de leis que definem os parâmetros de comportamento e regulagem de um determinado espaço, provendo-lhe ordem”
114. Predomina-se a lógica da competição e da sobrevivência, do choque de interesses. No
caso específico de Hugo Chávez, ele vislumbrou a ausência de poder nos Andes, a heterogeneidade entre os atores latino-americanos, o esvaecimento do socialismo implantado pelo líder cubano Fidel Castro, e os frutos de uma liderança calcada nos moldes de Max Weber115, com um governante carismático.
O cálculo racional de Hugo Chávez fundamentou-se numa unidade política irradiando sua hegemonia no continente. A República Bolivariana da Venezuela interferiria ideologicamente nos países vizinhos, como Bolívia, Peru, Colômbia, Brasil, conquistando através dos hidrocarbonetos a Argentina e Cuba. O estado receberia o reconhecimento do poder estatal como soberano dentro e fora de suas fronteiras, afirmando-se o princípio da territorialidade, promovendo-se a unidade política, cultural, nacional e lingüística.
O primeiro país a aderir às idéias chavistas foi a Bolívia, liderada por Evo Morales, passando a ser objeto de manipulações políticas, pactuando com a rivalidade de Hugo Chávez em relação ao governo norte-americano. Dividida em grupos étnicos: quéchuas 30%, aymaras 25%, eurameríndios 15% e os europeus ibéricos 15% (principalmente localizados nos departamentos da “meia lua”, eixo Pando-Beni-Santa Cruz-Cochabamba-Tarija116. Este historicismo colonial, pontuado pelo imperialismo, exploração estrangeira e rivalidades
114 PECEQUILO, Cristina Soreanu. Introdução às Relações Internacionais: temas, atores e visões. 2ª edição, Petrópolis: Editora Vozes, 2004, p. 38.
115 WEBER, Max. A política como vocação. Ensaios de sociologia. 5ª edição, Rio de Janeiro: Guanabara, 1982. 116 CASTRO, Thales. Teoria das Relações Internacionais. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2012, p. 392.
étnico-econômicas, classificadas como “egoísmo da riqueza” pelo historiador Eric Hobsbawm, é um terreno fértil no pós-colonialismo com uma ampla gama de acepções. Castro117 infere que “imperialismo e colonialismo são processos históricos que causaram muitas máculas e feridas aos vários povos conquistados. Tinha por características a agressividade, a crueldade e a exploração das matérias-primas e das populações como recursos de mão de obra”. Aflora-se uma racionalidade ética, que valoriza o interesse comum, o bem-estar da comunidade, a ética e a moral, em detrimento da espoliação118.
Bijos ressalta que
[... formou-se uma sociedade com contrastes díspares, entre ricos e pobres, áreas urbanas e rurais, pessoas cultas e analfabetas, “coronéis” poderosos, donos de latifúndios, “caudilhos” e fazendeiros, empreendedores e simples camponeses, favelados e vendedores ambulantes]119.
Politicamente, das vinte e seis nações, grandes ou pequenas, os regimes variam de experiências militares ditatoriais, regimes eleitorais democráticos, e o regime socialista histórico de Fidel Castro em Cuba, atualmente sob o comando de Raúl Castro. De acordo com Skidmore e Smith120, através da história moderna, os latino-americanos têm procurado, com grande ou pouco zelo, alcançar uma ind3ependência política e econômica que os liberte dos poderes coloniais, imperiais ou neoimperiais. O neoimperialismo e o neocolonialismo são maneiras mais sutis de conquistar e de oprimir, não por belicosidades diretas ou por conquistas territoriais e sim por penetração cultural sob a forma do consumo e da exportação de valores ocidentais embutidos121.
O continente latino-americano apresenta-se como um amálgama de encontros ideológicos que incorporam o liberalismo, ora se desviando para o positivismo, o corporativismo, o anarquismo, o socialismo, o comunismo, o fascismo e as pregações religiosas de várias seitas, que definiram claramente a intensidade e a violência dos conflitos.
Cunhar teoricamente a América Latina e analisar as perspectivas de uma integração política e econômica, nos remete à década de 1960, quando cientistas sociais norte-
117 Idem, p. 393.
118 BIJOS, Leila. Mulheres Sul-Americanas: o presente mais que imperfeito. Brasília: Editora da Universidade Católica de Brasília – EdUCB, 2013, p. 60.
119 Idem, p. 75.
120 SKIDMORE, Thomas; SMITH, Peter H. Modern Latin America. Oxford: Oxford University Press, 1992, p. 5 apud BIJOS, Leila. Mulheres Sul-Americanas: o presente mais que imperfeito. Brasília: Editora da Universidade Católica de Brasília – EdUCB, 2013, p. 76.
121 REEVES, Julie. Culture and International Relations: Narratives, natives and tourists. Nova Iorque: Routledge, 2004, pp. 37-61, apud CASTRO, op. cit., p. 393.
americanos formularam a “teoria da modernização” para explicar que o crescimento econômico geraria mudanças sociais que tornariam possível um cenário político imbuído de políticas “desenvolvimentistas”. Sob o signo de uma verdadeira democracia, uma nova “classe média emergiria para exercer papeis tanto progressistas quanto moderados” 122.
Os processos de integração passariam por estágios que levariam a padrões eminentemente iguais aos da Europa e da América do Norte, como delineado no próximo tópico.