habitacional, pois ninguém quer morar em favela; é um problema so-cial em que se aliam estrutura de emprego, salários, reprodução do solo urbano para interesse das oligarquias e a descaracterização da identida-de própria das comunidaidentida-des. Verifica-se que a política identida-de ocupação do solo de uma cidade representa instrumento de pressão, determinando normalmente a quem serve ao município: se aos que vivem na cidade ou no campo; se aos que exploram seus ocupantes. Assim, a extensão dos limites da malha urbana, por meio de loteamentos indiscriminados, procura desservir às maiorias. Os espaços urbanos – entendidos aqui como os terrenos não edificados e servidos por redes de águas, esgoto, asfalto, coleta de lixo e eletrificação, ficam estocados, servindo de fonte de especulação imobiliária, enquanto se expulsa para cada vez mais lon-ge o operariado para que se desarticule em sua forma de vida.
Não se pode igualmente esquecer que o BNH é uma fonte perma-nente de exploração imobiliária, pois quando ele coloca a população obreira, em nome dos benefícios sociais, a dez ou doze quilômetros de distância da malha urbana, deixa entre a cidade e o novo conglomerado um extenso lote de terra bruta, que depois, com os trabalhadores e a cidade se conectando, recebem água, esgoto, asfalto, melhorias urbanas, enfim, que acabam transformando esse interstício em terras exploráveis que visam à projeção de loteamentos e reproduzem lucros altíssimos aos latifundiários urbanos. O BNH é urbicida!
A cidade não aumenta na razão direta dos desejos dos cidadãos, mas sim inversamente proporcional ao seu grau de organização: quanto menos organizada a comunidade municipal, mais os desejos das maio-rias deixam de se reproduzir, privilegiando as minomaio-rias. Se tivermos efe-tivamente programas sociais voltados para a população como um todo, temos um incentivo muito consciente à mobilização, à organização e, em consequência, à elevação do grau de consciência da população.
Somente dessa forma a população participa dos destinos de sua cidade e não apenas os segmentos minoritários tradicionalmente organizados.
Estes devem participar, mas no conjunto da sociedade. Povo e socieda-de, organizados, fortalecerão o Estado, subvertendo o modelo existente, onde o Estado subjuga a sociedade à sua vontade e aos seus desejos.
Para que os programas sociais se efetivem, é preciso ter uma cons-ciência crítica profunda sobre o que representam. Os transportes, por exemplo, não podem ser vistos como soluções simplistas que favorecem
as multinacionais, mas que represente direito do cidadão o acesso à saú-de, e esta como condicionante na obtenção de um povo soberano e livre, longe da miséria, do impaludismo, das endemias, dos abortos praticados no esconderijo, do medo do desemprego, acima de tudo um povo forte e saudável que não lute pela vida, mas faça da vida seu instrumento de luta.
Sobre o abastecimento, é urgente que se organizem as pontas –pro-dutores e consumidores – passando não mais pelos grandes magazines interlocutores do Delfim, mas pelos feirantes, verdureiros, botecos, ar-mazéns, quitandas, onde o povo brasileiro se abastece e come de cader-neta, onde o comerciante é irmão solidário da opressão ao povo brasi-leiro, que sofre no meio urbano ou rural.
E, por fim, na política de atendimento à zona rural, é preciso colocar à disposição do rurícola as condições necessárias ao seu nível de vida de tal forma que haja estabilidade no campo, evitando-se que engrossem o caudal de egressos que se marginalizam no primeiro contato urbano.
É evidente que é preciso dar um respaldo financeiro a atitudes de comportamento político dessa natureza. Promover uma reforma tribu-tária, austerizando a fazenda municipal no que diz respeito à arrecada-ção de impostos e taxas; adotar uma fiscalizaarrecada-ção severa e uma isonomia de tratamento, pois normalmente os grandes contribuintes escapolem dos deveres fiscais, enquanto os pequenos contribuintes – que represen-tam a maioria – são muito constantes e leais; retirar privilégios e exter-minar com as anistias, as quais são propostas para aqueles que sempre falcatruaram. É preciso também relembrar, a cada instante, sob que sis-tema vivemos e verificar que o poder central tem a tarefa de reproduzi-lo. Assim, as linhas de crédito que existem nas instituições financeiras não beneficiam, em nenhum instante, as classes majoritárias. Por isso, não devemos deixar de reivindicar junto aos organismos do governo central – através de empréstimos, financiamentos de curto e longo pra-zos, financiamentos a fundo perdido – o dinheiro que pertence por di-reito ao trabalhador e determinar a formação de conselhos municipais, populares e representativos, para que fiscalizem, gerenciem e decidam sobre a aplicação dos recursos. Esse esforço tributário pertence a uma consciência tributária nacional, que não é resultante das forças popula-res, mas de forças dominantes que possuem o poder.
Assume também papel importante na participação popular o desem-penho do vereador. Só se atinge uma democracia representativa quando
se tem o Poder Legislativo atuante também em nível municipal, fazendo com que os vereadores atuem decisivamente nos focos democráticos em que se deverão constituir os vários municípios onde o PMDB venceu as eleições. Que tenham a clareza de pôr fim ao clientelismo e iniciar uma participação efetiva junto às associações de moradores, centros comu-nitários, sendo agentes do processo e não se intimidando com o cresci-mento das lideranças populares.
É preciso, igualmente, transpor o confronto entre a participação popular e a política partidária. Cremos que ao partido político deva-se redeva-servar o encaminhamento político da discussão, a fertilização das ideias, mas nunca a tarefa de participar das lutas internas das organi-zações populares. Essas lutas devem fluir, ser ricas no processo e até mesmo passar por um clima de inquietação, pois enquanto se mantive-rem tutelas de processos ideológicos, temantive-remos o separatismo, que não conduz à organização das massas, mas contribui para que elas sejam instrumento de manobra.
Temos, por fim, que o conjunto das forças sociais, liberadas, e o exercício da democracia constituirão o poder local, transformando-o no centro maior da reprodução da cidadania, no resgate dos legítimos anseios populares para que se construa uma nação de dignidade, feita pelos mesmos brasileiros que hoje a habitam, através da convocação de uma Assembleia Nacional constituinte, soberana e livre.
Era o que tinha a dizer.