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Relatos sobre as diretas

No documento João HeRRmann (páginas 122-127)

fatal para seus deputados e senadores estarem no recinto do Congresso o dia 24, às 12 horas, findo o qual poderia ser dado como desertor aque-le que assim não procedesse.

Uma comissão de checagem foi constituída para atuar junto ao tele-fone, tendo como tarefa principal localizar os deputados para avisá-los desse prazo fatal e acompanhar seus prazos até a chegada ao plenário no dia 24. Constituída pelos deputados João Herrmann Neto (SP), Orestes Muniz (RO), Odilon Salmoria (SC), Raul Ferraz (BA) e o ex-deputado Antônio Carlos de Oliveira (MS), a comissão, segundo publicou o Diário Popular de São Paulo, “deverá atuar com suas similares dos outros par-tidos oposicionistas para evitar que haja ausência no dia da votação”.

Os acontecimentos continuaram no sentido de impedir completa-mente a ação política. Tanto assim que, ao serem decretadas as medidas de emergência, tentei, como vice-líder de plantão do PMDB, manifestar o repúdio do partido quando da decretação das medidas de emergência.

A edição da Folha da Tarde de 19 de abril mostrava que,

“para impedir a oposição de manifestar-se contra as medidas de emergência, o presidente em exercício na sessão noturna do Congresso Nacional, senador Lomanto Júnior (PDS-BA), suspen-deu os trabalhos cinco minutos após iniciados, alegando falta de quórum no plenário.”

Diz ainda o jornal paulista que

“a medida foi tomada quando o primeiro orador, o deputado baiano do PMDB, Fernando Santana, ia começando seu discur-so. Indiferente à sua fala, o líder em exercício do PDS, deputado Djalma Bessa, fez uma intervenção pedindo a Lomanto a verifica-ção de quórum.”

“Como não havia em plenário”, diz o jornal,

“mais do que 20 parlamentares, a maioria da oposição, Lomanto suspendeu os trabalhos e marcou nova sessão para a próxima segunda-feira. Já com os microfones desligados, Fernando Santana

investiu contra Djalma Bessa dizendo que ‘vossa excelência acaba de perpetuar um atentado contra a democracia’.”

Simultaneamente, diz o jornal, o deputado João Herrmann (PMDB – SP), também irritado por ter a palavra cassada quando pedia uma questão de ordem, dirigiu-se a Lomanto, em tom áspero: “Só espero que Vossa Excelência não tenha que vir suplicar para poder usar da palavra”.

Antes desse episódio, havíamos feito, o deputado Márcio Santilli, a deputada Bete Mendes e eu, num voo que fazíamos de São Paulo a Brasília, depois da passeata de São Paulo, que reuniu dois milhões de pessoas no Vale do Anhangabaú, fizemos um pequeno comício a bordo do avião que nos trouxe a Brasília. Vários jornais publicaram o aconte-cimento. Entre eles, a Tribuna de Santos, cuja nota passo a transcrever:

“Comício a bordo faz sucesso. Duas horas após o encerramento da maior concentração política da história do país iniciava-se, na noite de terça-feira, o mais ‘elevado e inusitado’ comício da atual campanha das eleições diretas para a Presidência da República.

A nove mil metros de altitude, a bordo de um avião da Vasp, que cumpria a rota São Paulo-Brasília, o vice-líder do PMDB, João Herrmann, pediu autorização ao comandante da aeronave e deu início ao comício para uma plateia de 104 passageiros.

Além de Herrmann, fizeram discursos os deputados Márcio Santilli, do PMDB, e Bete Mendes, do PT. O vice-líder João Herrmann assegurou que a manifestação transcorreu na mais ab-soluta ordem e disciplina, inclusive porque só foi iniciada após a autorização da maior autoridade presente, que era o comandante.

Herrmann, Santilli e Bete arrancaram maiores aplausos quando apontaram o contraste entre o caráter ordeiro da concentração de que participaram no Anhangabaú e o clima de intranquilidade que o governo pretende criar com a adoção de medidas de emergência.

Com palavras diferentes, informou Herrmann, os três proclama-ram, numa resposta ao general Ludwig, que a baderna não está no Anhangabaú nem nos comícios, mas no Palácio do Planalto. O co-mício durou cerca de meia hora, e ao final da viagem o comissário desejou Diretas-já.”

Depois disso veio a repressão brava. No dia 24, véspera da votação, o Congresso Nacional lembrava uma praça de guerra – sitiado, cercado, intranquilo, vivendo da contrainformação que se soltava pelos corredo-res, com a imprensa amordaçada. Foram momentos de tensão.

Quando soube que a Polícia Militar havia cercado o Congresso, diri-gi-me, com outros companheiros oposicionistas para a parte de fora do prédio, para tentar trazer de volta as pessoas que haviam ficado no lado de fora. Trouxe de volta uma equipe de jornalismo da TV Manchete e acabei recebendo voz de prisão. O fato foi noticiado pelos principais jornais do país.

Na primeira página do Estado de Minas, no dia seguinte, havia o registro do acontecimento encimado pela manchete “Voz de prisão para deputado”, com uma telefoto e um texto que dizia o seguinte:

“Pouco depois das seis horas, o deputado João Herrmann (PMDB – SP) recebeu voz de prisão de um soldado ao tentar le-var para o interior do Congresso parte de uma equipe de televisão da Rede Manchete. Herrmann, vendo a intransigência do soldado, apanhou os equipamentos e tentou entrar, sendo impedido à força, enquanto o major que comandava o destacamento afirmava: ‘A or-dem é não entrar. Se ele quiser, quebra o equipamento’. Herrmann iniciou então uma discussão áspera com o soldado que exigiu sua identificação, ao que o deputado se negou e fez o mesmo em rela-ção ao soldado, afirmando que farda não é identificarela-ção. O soldado respondeu: ‘O senhor está preso até se identificar’. E o levou para uma patrulinha da PM. Herrmann recusou-se a entrar e o solda-do solicitou a outro que pedisse reforço. Herrmann, irônico, gritou:

‘Traga reforço, mas já...’ Por fim, o major, que se havia afastado para um contato por rádio, permitiu que a equipe de televisão acompa-nhasse o deputado. Irritado, o soldado falou bem alto: ‘Não estou entendendo mais nada’. Pouco depois, o major explicava o inciden-te como resultado da inexperiência. Um cabo, evideninciden-temeninciden-te con-trariado com aquele tipo de trabalho comentava: ‘E o negócio é a Diretas-já’.”

A mesma nota foi publicada por vários jornais brasileiros. Mas, dian-te desdian-te cerco todo, conseguimos falar com muita gendian-te fora de Brasília.

O Jornal do Brasil, em sua edição do dia 26 de abril, no “Informe JB”, mostrava um texto chamado Drible, que dizia como havíamos conse-guido isso:

“Quatro parlamentares driblaram ontem à noite os patrulheiros da censura ao falar, de Brasília para a Praça da Sé, em São Paulo, sobre ‘o dia da vitória do povo brasileiro’, com a esperada aprova-ção da Emenda Dante de Oliveira. O primeiro a falar foi o autor da emenda, seguido dos paulistas João Herrmann, Bete Mendes e José Genoíno. Os discursos foram transmitidos pelo telefone do plená-rio da Câmara.”

Esses foram, enfim, Sr. Presidente e Srs. Deputados, os episódios que gostaríamos de ver registrados e transcritos.

Viagem à União Soviética

No documento João HeRRmann (páginas 122-127)