Discurso em plenário, 15 de maio de 2001.
O SR. JOÃO HERRMANN – Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, em 1997, ao término de uma conferência internacional que reuniu mais de uma centena de países, firmou-se um compromisso consensual. Esse compromisso seria o de os governos de todos os países do mundo coloca-rem em prática uma política que reduzisse ao máximo a poluição atmos-férica, notadamente a decorrente da emissão de gases, como o dióxido de carbono, responsáveis maiores pelo aquecimento da atmosfera terrestre, um aquecimento que recebeu o nome de efeito estufa.
Desnecessário dizer que os países mais industrializados têm maior responsabilidade nesse particular, sendo que a própria Agência de Defesa Ambiental, um organismo governamental dos Estados Unidos, declarou que aquele país respondia por cerca de 25% do total dessas emissões venenosas. Vinham em seguida a União Europeia e a Rússia.
Mas o presidente Bush, com menos de três meses de empossado no cargo, anunciou que não iria mais cuidar de levar adiante as premissas aprovadas em Kyoto. Com isso, impossível negar, estaria atendendo aos barões das grandes indústrias do petróleo e do aço, tradicionais patroci-nadores financeiros do Partido Republicano, a que pertence Bush.
As reações a esse destino tiveram caráter global. Governantes e orga-nismos internacionais se pronunciaram contrariamente a esse compor-tamento. Mas uma dessas manifestações me tocou mais profundamen-te, dada, antes de mais nada, sua excepcional representatividade. É que se uniram, num texto de grande simplicidade e significação – a “Carta ao Presidente Bush” –, os ex-presidentes Jimmy Carter, dos Estados Unidos, e Mikhail Gorbachev, da Rússia; o cientista Stephen Hawking, que ficou conhecido mundialmente com a larga divulgação do seu livro Uma breve história do tempo, e o não menos renomado cientista Craig Venter, cujas descobertas no campo dos genomas têm revolucionado o mundo das pesquisas biológicas; ainda o astronauta John Glenn, o gran-de ator Harrison Ford, o megainvestidor George Soros, o crítico gran-de arte Edward Wilson e o grande jornalista Walter Cronkite.
É minha intenção, Sr. Presidente, que um documento dessa espécie, por seu valor histórico, seja de conhecimento de todos e passe a ser ins-crito nos Anais desta Casa, razão que me leva a lê-lo desta tribuna.
“Uma carta ao presidente Bush Prezado Sr. Presidente,
Nenhum desafio dos que ora enfrentamos é mais momentoso que a ameaça de mudança global de nosso clima. As indicações correntes e que foram definidas pelo Protocolo de Kyoto são assun-to para um debate o mais legítimo. Mas a situação está se fazendo urgente, e é tempo, pois, para o consenso e a ação. Há uma série de estratégias para reduzir a emissão dos gases responsáveis pelo chamado efeito estufa sem que se necessite frear o crescimento eco-nômico. De fato, o desenvolvimento de tecnologias mais avançadas e mais limpas há de ser entendido como mais uma oportunidade de caráter econômico do que um perigo. Assim, instamos junto a V.Exa. para que desenvolva um plano capaz de reduzir a produção desses gases nos Estados Unidos. O futuro de nossos filhos – e dos filhos deles – depende da solução que V.Exa. e outros líderes mun-diais vierem a adotar sobre o assunto.”
Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, também para que fique re-gistrada nos Anais desta Casa, apresento nossa oposição aos planos do governo dos EUA para desenvolver a Rede Nacional de Defesa contra Mísseis Balísticos, ou o escudo antimísseis.
Exigimos que os EUA procedam a cortes profundos nos arsenais já existentes – como prometido pelo presidente George W. Bush durante sua campanha –, para caminhar no sentido da eliminação total e inequí-voca dos arsenais nucleares, à qual Estados Unidos, Rússia e outras po-tências nucleares estão obrigadas por reiterados acordos internacionais.
O desenvolvimento do escudo antimíssil minará essas medidas, criando maiores dificuldades ao cumprimento desses tratados. A nos-so ver, o desenvolvimento da Rede Nacional de Defesa contra Mísseis Balísticos é profundamente falho e precipitado, diminuindo, ao invés de aumentar, a segurança internacional.
O presidente Bush afirmou que os Estados Unidos proporão modi-ficações no Tratado de Mísseis Antibalísticos de 1972 para permitir-lhes a construção do escudo antimísseis. A administração Bush afirmou que se a Rússia não concordar com as propostas, os EUA estarão preparados
para retirar-se do Tratado sobre Mísseis Antibalísticos (ABM). O pre-sidente Bush deve decidir, ainda este ano, se começa a construção do radar chave NMD, no Alasca, que poderia violar o tratado.
A Rússia declarou claramente em recente sessão da Conferência so-bre Desarmamento que sua oferta de reduções profundas no número de ogivas é condicionada à integridade do tratado ABM. A ratificação pela Rússia do START-II também é condicionada à manutenção na íntegra do tratado ABM e, portanto, ao não desenvolvimento do escudo anti-mísseis pelos EUA.
Temos certeza de que mesmo o desenvolvimento do chamado es-cudo antimísseis limitado vai diminuir a possibilidade de reduções profundas dos artefatos bélicos nucleares nos EUA e na Rússia e pode impedir a remoção dos mísseis dos Estados Unidos e da Rússia de seu status corrente de alerta, muito sensível e perigoso.
Os planejadores militares reagem mais a capacidades que a inten-ções. O desenvolvimento mesmo que do escudo limitado antimísseis poderia levar a Rússia a desenvolver novamente armas nucleares táticas e mísseis de múltiplas ogivas. Ele também pode acelerar a construção de armas nucleares estratégicas pela China, que poderia incluir o desenvol-vimento de ogivas nucleares múltiplas de longo alcance e um aumento dramático do atual número limitado desses mísseis.
Uma ação chinesa nesse sentido pode resultar facilmente numa ace-leração perigosa do desenvolvimento de armas nucleares na Índia, que, por sua vez, causaria o mesmo efeito no Paquistão. Essa escalada das capacidades ofensivas é equivalente a levar o equilíbrio nuclear a níveis de alerta ainda mais elevados. Ademais, o escudo antimísseis, particu-larmente a rede NMD, que começa a ser planejada nos EUA, é extraor-dinariamente caro e não provou funcionar num ambiente operacional.
Nenhum sistema NMD, mesmo o limitado, pode ser desenvolvido em menos que 6 a 10 anos. Até agora, dois de três testes de voo de NMD dos EUA falharam, embora o NMD, ou TMD, necessite interceptar as ogivas que estão entrando com um fator de confiança próximo de 100%, para ser eficaz. Mesmo que fosse possível projetar um sistema NMD para derrotar contramedidas, que pudesse ser manejado de maneira operacionalmente efetiva e não incitasse um Estado a construir mís-seis ofensivos adicionais para supersaturar o escudo antimísmís-seis, tanto o NMD como o TMD não podem ser considerados salvaguardas contra
as armas de destruição de massa restantes, menos sofisticadas, embora mais seguras.
Do mesmo modo, vários sistemas do proposto Teatro de Defesa Antimísseis, a serem desenvolvidos possivelmente em Taiwan, no Japão, na Europa ou no Oriente Médio, sofrem os mesmos problemas técnicos e podem ter os mesmos efeitos que os NMD na criação de um ciclo de ação-reação que leve à reconstrução dos mísseis ofensivos. O desen-volvimento do escudo antimísseis/TMD em Taiwan, particularmente, provocaria forte reação na China.
Os problemas associados com o escudo antimísseis requerem um trabalho conjunto da comunidade internacional para tornar efetivo o uso da diplomacia, do comércio, assistência e novos mecanismos de controle, e a redução da proliferação de mísseis balísticos existentes e potenciais. Esforços de curto prazo poderiam ser voltados para assegu-rar um acordo duradouro e executável, congelando o programa de mís-seis da Coreia do Norte. Esforços posteriores para fortalecer o Regime de Controle da Tecnologia de Mísseis e a redução do estoque de mísseis em bases globais e regionais poderiam ser perseguidos com urgência.
À luz do exposto, deve a diplomacia brasileira fazer ver aos Estados Unidos que não devem desenvolver tal escudo de defesa antimísseis, mas apoiar métodos mais efetivos para a prevenção da proliferação de mísseis. Solicitamos aos governos de países europeus, particularmente os vinculados à Organização do Tratado do Atlântico Norte, e a outros aliados norte-americanos a não facilitar aos EUA o desenvolvimento de tais sistemas de defesa antimísseis, com o propósito de construção do escudo de defesa. A diplomacia deve continuar a dissuadir o governo dos Estados Unidos no sentido de não prosseguir com tal propósito.
Para evitar a horrível ameaça dos mísseis, solicitamos que EUA e Rússia removam todas as armas nucleares de seus sistemas de alerta, muito sensíveis, como parte de uma política de eliminação do lança-mento sem aviso, de acordo com seus planos estratégicos de guerra. Isso serviria, como passo mais imediato, para aumentar a segurança e a esta-bilidade e reduzir o risco de um ataque nuclear inesperado.
Solicitamos também que EUA e Rússia, com o apoio de outros Estados, procedam imediatamente à redução verificável e irreversível dos arsenais nucleares estratégicos e táticos para um número inferior a 1.500 ogivas cada, de acordo com o START-II e START-III. As medidas
acima ajudariam no cumprimento solene dos acordos e tratados, como foi expresso na declaração final da Conferência de Revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear de 2000, para “um empreendimento ine-quívoco das potências nucleares no sentido de uma total eliminação de seus arsenais nucleares, acarretando um desarmamento nuclear de acordo com o artigo VI, endossado por todos os Estados participantes”.
Acreditamos que essas medidas, e não o desenvolvimento do escudo antimísseis, constituem o caminho para a eliminação dos arsenais nu-cleares, com a qual as potências nucleares estão comprometidas, como a grande maioria dos povos e governos espera.
Desejo ainda, Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, tratar de outro tema. Estou recebendo notícias a respeito de manifestações realizadas na cidade de Montevidéu, com amplo respaldo popular, ao que se pode ver das fotos, contra o fechamento da agência do Banco do Brasil na-quela cidade, no Uruguai. Já tive oportunidade de, desta tribuna, ex-ternar inconformidade com providência assim tão inexplicável, que é o fechamento, na capital de um país vizinho, de uma sucursal que ali já operava há mais de meio século. Sei – sabem os companheiros ban-cários do Brasil e do Uruguai – o que representa o fechamento de uma agência bancária. É a comunidade que, anos a fio, se acostumou àquele atendimento, são os empregados que, de uma hora para outra, se veem privados de emprego, numa época em que o desemprego é o maior de todos os fantasmas. Isso, apenas, já seria razão das maiores para que juntássemos nosso protesto aos do vizinho Uruguai.
Gostaria, no entanto, Sr. Presidente, de examinar a questão sob outro aspecto que entendo também pertinente; mais que isso, transcendente.
As nações de todas as Américas, em especial da América Latina, têm entre suas grandes preocupações o processo de criação da Alca, que os ianques querem, de repente, botar a funcionar da forma mais açodada e, de alguma maneira, leviana. Um comportamento que somente se justi-ficaria pelo poder imperial que os norte-americanos costumam colocar em ação sempre que seus interesses, ainda os mais mesquinhos, sejam postos em dúvida. É o caso da Alca.
Pois para os países membros do Mercosul – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – a questão se faz ainda mais relevante, porque a Alca, se instalada segundo os ditames imperiais, pode pôr em risco ou mesmo extinguir um mercado comum que se vai fazendo forte e que
necessita, com toda a ênfase, ainda mais se solidificar e se expandir.
Não por acaso a Venezuela já pediu seu ingresso no Mercosul e seguem, com bom andamento, as negociações junto à Comunidade Andina de Nações (CAN), para seu entrosamento num só mercado, que, no caso, passaria a chamar-se Amercosul.
Nesse sentido, ao que tenho podido observar, atua, e atua com bri-lhantismo, a diplomacia brasileira, sendo de justiça dizer-se que o faz, sempre, com mais eficácia que brilho, que é, afinal, o que nos interessa.
Pois bem, Sr. Presidente, como ficam agora nossos negociadores nes-sa área de hipersensibilidade, que é a do mercado internacional? Como podem nossos diplomatas afirmar a cada país membro do Mercosul, a cada membro da Comunidade Andina, como podem nossos diplomatas dizer, com firmeza, dos interesses do Brasil em fortalecer esse merca-do comum se, pelas costas, e de forma quase sorrateira, uma empresa estatal do vulto do Banco do Brasil assesta um golpe de tal magnitude, mandando fechar sua agência no Uruguai?
Não admito, não se pode admitir, aliás, que se ergam argumentos numéricos e quantitativos. Essa, basicamente, não é e nem pode ser a questão. O mercado internacional é mercurial, solene e sagaz. Por isso é preciso que, entre parceiros, a lealdade seja postulada antes de qualquer negociação, para que se chegue a bom termo na defesa de interesses comuns.
Nesse caso, uma agência do Banco do Brasil em Montevidéu, em Assunção, em Buenos Aires, como, ainda, em Caracas e em Santiago, é estrategicamente muito mais importante que qualquer outra dependên-cia daquele banco mundo afora. E com isso parece que não estão preo-cupados os administradores do BB, para quem alguns centavos a mais em sua rubrica de lucros é bem mais importante que todos os interesses do país. Mas eles têm que ser convencidos, e com urgência, de que não dirigem apenas um banco, mas, sim, um banco que é do Brasil. Portanto, são os interesses brasileiros que têm que ser observados, notadamente nessa arena áspera e selvagem que é a do comércio internacional.
Passo agora, Sr. Presidente, por fim, a cuidar de um último assunto.
A mim me parece inteiramente descabida essa dicotomia artificialmen-te colocada para as relações comerciais brasileiras, seja em parartificialmen-te desartificialmen-te continente, seja em toda a América do Sul, seja, finalmente, nas três
Américas. Artificial porque, bem examinada a questão, nem são alter-nativas, mas, sim, ações que se completam e, portanto, interagem.
Liquidada a bipolaridade que dominou o mundo quase que duran-te todo o século XX, os países deixaram de lado a geopolítica e passa-ram a cuidar da geoeconomia, isso entendido como a criação de blocos comerciais comuns, que poderiam ser multi ou bilaterais, importando que representassem a possibilidade de convivência menos agressiva no mundo do comércio internacional e, mais que tudo, realizassem uma nova divisão internacional das questões do capital e do trabalho; que não visassem, com exclusividade e como de fato ocorreria antes, por causa mesmo da bipolaridade a que já me referi, a definir um ou outro poder hegemônico. Nesse caso, podemos considerar como grandes con-quistas, mundo afora, a União Europeia, o Nafta e o Mercosul.
A União Europeia, que levou mais de cinquenta anos para ser mon-tada e afinal, dela participam povos que andaram guerreando, há muitos e muitos séculos –, é hoje, nada obstante alguns percalços, uma realida-de palpável. O Nafta se fortalece, realida-dele participando duas das mais ricas potências do mundo, os Estados Unidos e o Canadá. E o Mercosul sur-giu como solução a mais racional para que os países mais desenvolvidos da América do Sul, a Argentina e o Brasil, se aliassem a seus vizinhos, o Paraguai e o Uruguai e, deixando de lado arestas de historicidade duvi-dosas, dessem início a um processo que lhes permitisse solidificar sua posição no mundo do comércio internacional por meio de trocas den-tro de um mercado comum que tem de tudo para dar certo.
Em meio a isso surge a Alca. Diriam alguns que foi a reação imperial dos Estados Unidos, com medo de que o Brasil, por suas potenciali-dades e pelo vigor de sua economia, um vigor que, infelizmente, não é seguido por suas finanças; que o Brasil, repito, se tornasse liderança continental, juntando-se aos povos da Comunidade Andina, e criasse, desde logo, não apenas o Mercosul, mas também o Amercosul.
Nada de estranho. Chile e Bolívia já têm representação no Mercosul. A Venezuela vem de aderir ao pacto mercantil. E o Suriname segue seus passos.
Mas a Alca, insistem alguns, é inevitável, porque decorre sobretudo de uma vontade imperial a que estarão sujeitos muitos e muitos dos po-vos da América Latina, incapazes de opor qualquer óbice à diplomacia ianque. Não desconhecemos essa questão. Mas se se está entendendo
que a Alca é uma política de Estado – e não apenas de governo – para os Estados Unidos, há de se repensar a matéria.
Antes de mais nada, a maioria conservadora que agora empolgou o poder naquele país tem preocupações outras. Primeiro, é preciso conva-lidar a eleição de Bush, ainda jaçada por um processo eleitoral ambíguo, para dizer o mínimo. Depois, financiado que é pelos grandes senhores do capital, os maiores industriais, os grandes produtores agrícolas, mais lhes há de valer a adoção de novas ou o reforço de velhas práticas pro-tecionistas contra o que se rebelam os povos de todo o mundo. Assim, a aprovação pelo Senado americano do chamado fast track, ou seja, a ado-ção de um caminho rápido para as negociações comerciais, está, pelo menos, muito difícil.
Mas Brasil e Estados Unidos, já em 2003, estarão copresidindo o Comitê da Alca. É a oportunidade de, juntos, discutirem as questões que impedem o perfeito entrosamento das economias regionais, buscando não o livre comércio absoluto e como tarefa inicial, mas, sim, a amplia-ção dos mercados comuns regionais e a união aduaneira como etapas preliminares para a definição – ou a redefinição – mesma da Alca.
Ao Brasil – a qualquer país, aliás – interessa produzir, colocar seus produtos no mercado interno e exportar os excedentes. Por essa razão primeira realizam acordos comerciais bilaterais ou mesmo multilate-rais, montam-se áreas de mercado comum e até mesmo de livre comér-cio de forma que, respeitadas as soberanias nacomér-cionais, se consiga, à base de concessões mútuas, um intercâmbio de bens e serviços que permita vicejem as economias de cada nação.
Por isso, entendo que o Mercosul pode e deve compor a Alca, com fisionomia própria e com a força de quem defende interesses de uma comunidade mais ampla e não apenas de uma só nação.
Muito obrigado, Sr. Presidente.