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4. INTER PSI – A PSICOLOGIA ANOMALÍSTICA NO BRASIL

4.2 Estratégias de legitimação

4.2.3 Afastamento da parapsicologia tradicional brasileira

Na aula de 01 de abril de 2011, Zangari afirmou que, no Brasil, a parapsicologia é uma serva de objetivos não científicos, referindo-se principalmente à “parapsicologia clínica” presente, sobretudo, no sul do país. Explicando melhor o estado da parapsicologia brasileira, o professor identificou três grupos principais: os religiosos (sobretudo espíritas e católicos), os esotéricos (“escolas de tradição, cujas práticas têm algo ligado ao parapsicológico: sustentam

129 “‘anomalistic’ beliefs and experiences then are highly prevalent. This alone makes them worthy fodder for

psychological research. As psychologists, we can seek to better understand why and how they occur and what function they serve.”

necessidade de experimentar, pois isso está ligado ao desenvolvimento da consciência”; um exemplo seria o budismo), e os pragmáticos, da parapsicologia clínica (que se caracterizam pelo “uso de terapias alternativas sob outro nome”, voltam-se para o mercado, com envolvimento de políticos, oferecem cursos de parapsicologia, e normalmente ligam-se aos outros dois grupos).

Como foi expresso no capítulo passado, o Inter Psi, ao se colocar como grupo de parapsicologia, buscou se afastar da parapsicologia tradicional brasileira – marcada por embates entre espíritas e católicos – pondo-se como alternativa a ela (a aliança com a PA contribuiu fortemente para isso). Como um grupo de psicologia anomalística, essa tendência permanece.

Acompanhar um pouco da organização do VII Encontro Psi (por meio do contato com o principal organizador, Fábio da Silva) foi interessante para identificar as diferentes estratégias de segurar público para os estudos sobre experiências anômalas. De início, é interesse perceber a separação que houve entre dois eventos quase concomitantes (e que dividiram boa parte do seu público): o Encontro Psi e as Jornadas de Estados Alterados de Consciência. Segundo Silva (na reunião do dia 30 de setembro de 2011, após o encontro), politicamente era bom manter os dois eventos separados, porque o Encontro Psi estava mais ligado à psicologia anomalística, enquanto as Jornadas estavam mais relacionadas à parapsicologia espírita (os eventos eram organizados por grupos diferentes).

A própria situação de Silva como professor das Faculdades Integradas Espíritas é interessante. Na aula de 01 de abril de 2011, Zangari mostrou à sala vídeos de um experimento

ganzfeld feitos por Silva e sua equipe da FIES como exemplo de um experimento de

parapsicologia. Segundo o professor, Silva não é espírita e travava uma briga constante com os gestores da faculdade, que gostariam que ele derivasse mais seus resultados para o espiritismo. Na reunião posterior à aula, o próprio Silva especificou melhor os problemas que vivia no momento em sua faculdade. Por problemas pessoais dos donos da instituição, a direção havia mudado e os estudos científicos de parapsicologia, antes promovidos, não estavam mais sendo tão bem-vindos. Silva temia que talvez não houvesse mais Encontros Psi (depois daquele que aconteceria em agosto seguinte), por falta de apoio institucional. Na reunião do dia 27 de setembro de 2013, Silva disse que havia incerteza quanto ao Encontro Psi para 2014 e sequer sabia se a instituição continuaria a existir ou fecharia as portas. Mesmo que o curso de parapsicologia continuasse, Silva disse não ter certeza se ele permaneceria como professor. Segundo ele, disciplinas de pesquisa haviam sido cortadas e o curso estava se aproximando cada

vez mais de um viés alternativo (mais próximo da parapsicologia clínica). Ele considerava que a ligação com a FIES estava se tornando fonte de desconforto, tanto porque ele acreditar numa abordagem mais científica, quanto por fazer parte do Conselho Regional de Psicologia do Paraná. O Inter Psi discutiu a divulgação do VII Encontro Psi na reunião do dia 30 de setembro de 2011, a primeira após a ida para Curitiba. Enquanto Vanessa Corredato clamou por uma divulgação maior para os próximos (segundo ela, quem assiste é quem apresenta), Fábio Silva e Leonardo Martins comentaram sobre a pouca divulgação que foi feita nos Conselhos Regionais de Psicologia. De vinte CRs que tinham recebido a divulgação para encaminhamento, apenas quatro haviam respondido à solicitação. Os CRs de São Paulo e Brasília divulgaram o evento, Minas respondeu que iria analisar, mas terminaram por não dar feedback algum. Santa Catarina, Silva informou, ameaçou processo. Ele e Machado discutiram a respeito e concluíram que isso se deve em muito ao grande número de parapsicólogos clínicos no estado catarinense. O CR de lá provavelmente se esforçaria para manter a psicologia longe desses grupos e, por tabela, acabaria identificando a psicologia anomalística e a pesquisa psi com essas abordagens.

Sobre o público participante no encontro e sobre a divulgação em anos anteriores, Silva assumiu que o evento acaba fazendo divulgação em grupos espiritualistas e espiritistas para poder ter público e pagar o encontro. O problema é que mesmo esses grupos acabam aparecendo pouco porque, segundo ele, não parecem ter interesse em pesquisa. Zangari foi contundente: perguntou- se se valeria sequer a pena para o Inter Psi se apresentar no evento, pois parece que todos os anos são eles que formam a base das apresentações. Qual o ponto de irem até Curitiba para um evento que acaba sendo quase interno? “É muito esforço pra gente ficar só se ouvindo. Pra ficar só se ouvindo, a gente pode fazer aqui.” Segundo ele, valeria a pena continuar a dar base para o Encontro Psi se a estratégia mudar. Isso significaria, ele argumentou, ir atrás somente do público que possa contribuir para o campo. Poder-se-ia buscar grupos em áreas próximas (como um pessoal que estuda consciência e percepção extrassensorial em Goiás, e grupo que estuda experiências fora do corpo na Unifesp). O objetivo seria convidar gente da academia.

Esta afirmação de Zangari mostra claramente os desígnios do Inter Psi de fortalecer seu espaço dentro da academia, buscando novas alianças nesse meio e deixando de lado um outro público que poderia ouvi-lo. Isso indica uma escolha que, se representa perda por um lado, aponta ganho de outro. Para aumentar o público acadêmico da psicologia anomalística, cumpre

diminuir o acesso a grupos interessados mas que representam uma abordagem que marca clivagem com a academia.